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Pequenos empresários seguram preços para não perder clientela

Pequenos empresários seguram preços para não perder clientela

Atualizado: Segunda-feira, 9 Maio de 2011 as 8:24

Mesmo com a inflação oficial do país acima da meta do Banco Central para este ano - o IPCA de abril ficou em 6,51% em 12 meses e o teto da meta é 6,5% -, pequenos empresários do setor de serviços têm adotado a estratégia de manter os preços para não perder a clientela, que acaba gastando mais com necessidades básicas e, muitas vezes, corta gastos justamente em "luxos" como ir à manicure ou à academia.

Dona de um salão de belezas na região da Avenida Paulista, em São Paulo, a empresária Iraihana Leonardi afirma ser inviável aumentar os preços neste momento, já que os consumidores estão sentindo o impacto no bolso em outros gastos – o público vem caindo quase pela metade desde o começo do ano. “Por enquanto, estou segurando [reajustes]”, diz.

Os fornecedores dos produtos de beleza, contudo, não tiveram a mesma atitude e já reajustaram os preços das mercadorias, diz a empresária. “O vendedor prefere se manter firme, porque sabe que o produto vai acabar e precisamos repor”, diz. De acordo com ela, as altas, porém, não ultrapassaram a inflação.

Iraihana é economista e assumiu o salão há cerca de 9 meses, quando deixou o emprego que tinha em um banco para apostar no negócio próprio, que hoje conta com 22 funcionários. Por conta do cenário de alta dos preços, ela precisou reformular seu planejamento e tem feito uma reforma que estava prevista no salão aos poucos.

“O preço da mão de obra aumentou demais”, disse, referindo-se ao valor cobrado pelos pintores para retocar a pintura das paredes. “Apelei para a mão de obra da família”, revelou. Em um domingo, ela chamou os parentes para ajudar a pintar o essencial e gastou metade do cobrado pelo profissional da construção civil.

Em Perdizes, na Zona Oeste da capital, Rosanna Giuzio adotou estratégia parecida em sua academia mas, além de não aumentar os preços, chegou até a oferecer desconto de 50% para uma cliente que ia retirar a filha da aula de dança.

A academia de cerca de 15 funcionários tem sentido muito por conta da inflação, diz a empresária. Além do reajuste do aluguel, houve também o dissídio dos funcionários.

“O problema que eu passo é que não posso jogar tudo no reajuste. Tem a competição, a lei da oferta e da procura”.

A empresária disse que, neste ano, quatro alunos pediram suspensão de cursos, número recorde nos quatro anos de vida do negócio. “Eu, falando como empresária e como pessoa física também, estou 'rebolando' por conta da inflação”, afirma.

Na oficina mecânica de Antônio Edesio, na Vila Prudente, Zona Leste da capital, os preços do serviço também não subiram. O das peças, contudo, já foram reajustados, afirma o mecânico, o que eleva o custo final dos consertos.

“Os clientes reclamam [da alta dos preço]. E olha que daqui do bairro eu sou um dos que cobram mais barato”, revela o mecânico, que atua no bairro há 25 anos.

Para tentar evitar uma fuga da clientela, Edesio criou uma estratégia. “Eu estou fazendo diferente. Eu faço o cliente comprar a peça direto no fornecedor”, conta. Dessa forma, o empresário diz evitar possíveis dúvidas referentes ao preço das mercadorias.

“Neste começo do ano [o movimento] está ruim (...). Vou ver se melhoro o aspecto da minha oficina, faço um empréstimo de uns R$ 15 mil no banco. Ela tá meio feia, o cliente corre”, diz. Afirmando que não faz uma reforma no espaço há “muitos anos”.

Reajuste inevitável

Segundo os empresários, contudo, caso a inflação continue subindo, será inevitável aumentar os preços. “Acredito que eu consiga segurar até junho”, diz Rosanna, proprietária da academia em Perdizes. De acordo com ela, a última alta nas mensalidades aconteceu há um ano e meio.

No salão de belezas de Iraihana, é possível que também haja revisões em breve. “Por enquanto, dá para segurar. Mas se as altas não pararem, vou ter que mexer ou na comissão dos funcionários ou aumentar os preços.”

Serviços caros

O setor de serviços vem exercendo as principais influências sobre a disparada da inflação, o que preocupa os economistas. A preocupação é que o pensamento dos consumidores e de empresários com o possível avanço da taxa da inflação gerem aumento de preços antecipados. “O cidadão comum não entende o fenômeno mês a mês ou acumulado. Ele acaba retroalimentando as pressões inflacionárias sem que elas já estejam atuando”, disse o economista Thiago Curado, da Tendências Consultoria, em reportagem publicada pelo G1 na sexta-feira (6).

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