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Representante do FMI no Brasil não crê em acordo sobre câmbio em Seul

Representante do FMI no Brasil não crê em acordo sobre câmbio em Seul

Atualizado: Quinta-feira, 11 Novembro de 2010 as 10:19

Diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o Brasil e oito países da América Latina e Caribe, Paulo Nogueira Batista Júnior diz que dificilmente se chegará a um acordo global sobre a 'guerra cambial' na reunião do G20, em Seul.

'O Brasil deve concentrar seus esforços nas medidas que possa tomar no âmbito local, porque no global ainda vai demorar muito para se chegar a uma solução', afirma.

A 'guerra cambial', como o fenômeno foi definido pelo ministro Guido Mantega, está no centro das atenções da economia mundial. Enquanto o Brasil sofre com o real valorizado e as exportações prejudicadas, China e Estados Unidos são acusados de forçar a desvalorização de suas moedas para beneficiar suas economias.

Em entrevista à BBC Brasil, em que disse expressar opiniões pessoais, Nogueira Batista fala ainda sobre a recente reestruturação dos poderes no FMI, que aumentou as cotas de votos dos países em desenvolvimento.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil - O senhor estará na reunião de cúpula do G20 em Seul. Quais serão os principais objetivos do encontro?

Paulo Nogueira Batista Jr. - Em primeiro lugar, para mim, o objetivo será garantir a preservação do acordo firmado na Coreia do Sul. Nem todos os países ficaram felizes, e é preciso marcar presença para garantir o que conquistamos.

Mas o grande tema será a guerra cambial, a continuidade dessa discussão. A reunião será um espaço para debater ideias, para desenvolver discussões. Mas nada que proporcione soluções para já.

BBC Brasil - O senhor não acredita que o encontro poderá encontrar soluções para o problema?

Nogueira Batista - Este é um grande problema. Mantega deu o mote quando lançou o tema do que chamou de guerra cambial. Acredito que a solução não seja fácil de alcançar no âmbito do G20. Não acredito que exista já massa crítica dentro do G20 e do FMI para chegar a um acordo global. Acredito que o Brasil deva concentrar seus esforços nas medidas que possa tomar no âmbito local, porque no global ainda vai demorar muito para se chegar a uma solução.

BBC Brasil - Ao falar sobre o novo acordo de reforma do FMI, o senhor disse que o G20 conseguiu evitar que as negociações para a reforma caíssem na 'síndrome da Rodada de Doha', que vem se arrastando sem chegar a uma conclusão. Tentar negociar uma solução global para a 'guerra cambial' pode ser mais uma 'Rodada de Doha'?

Nogueira Batista - Pode sim ser outra Rodada de Doha.

BBC Brasil - Com o acordo firmado entre os países do G20 na Coreia do Sul, o Brasil pula para a 10ª posição entre os países com maior poder de voto no FMI. O que isso representa para o país?

Nogueira Batista - O peso do Brasil dentro do FMI está aumentando de maneira considerável num espaço curto de tempo. Com a primeira reforma que foi realizada em 2008, e que deve ser ratificada em breve, o Brasil passa de 18º para 14º no ranking dos maiores cotistas do FMI. Agora, com o novo acordo fechado na Coreia, o país passará de 14º para 10º.

Do ponto de vista institucional, o resultado é importante porque, a partir da implementação das reformas, os dez maiores cotistas do fundo serão também as dez maiores economias do mundo em termos de PIB. Ou seja, EUA, Japão, os quatro grandes países europeus - França, Alemanha, Reino Unido, Itália - e os quatro Bric (Brasil, Rússia, Índia e China).

Houve um alinhamento no ranking de poder decisório no fundo que foi bastante importante.

BBC Brasil - O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse que o novo acordo resolve de vez o problema de legitimidade do fundo. Numa palestra no Rio, o senhor disse considerar a afirmação um exagero. Por quê?

Nogueira Batista - Foi um resultado bom, demos um passo importante. Mas ainda não resolvemos o problema de legitimidade do fundo em relação ao peso dos países na economia global.

A estrutura do fundo ainda reflete um mundo em que a Europa tinha um peso enorme. Sua economia não tem mais o peso que tinha 30, 40 anos atrás, e no entanto a região continua super-representada no fundo. Detém atualmente nove das 24 cadeiras do fundo e quase um terço do poder de veto, embora represente algo como 20% da economia mundial.

Os europeus resistem enormemente a reconhecer isso. No acordo firmado na Coreia do Sul, eles perderam duas cadeiras no fundo, que precisaram ser praticamente arrancadas a fórceps.

A Europa está adiando o inevitável com essa resistência organizada, lutando contra o encolhimento de sua presença em organizações internacionais para acompanhar seu atual peso no mundo.

BBC Brasil - Com o novo acordo, as cotas dos Bric, somadas, chegarão a 14,8% do total do fundo, quase os 15% necessários para exercer o poder de veto. Apenas os EUA detêm esse poder individualmente. Chegar a este patamar seria algo decisivo?

Nogueira Batista - Ainda não chegamos lá, mas se somarmos a cadeira do Brasil com as da Índia, Rússia e China, bastará mais um país conosco para chegarmos. Por exemplo, a Argentina, um parceiro frequente.

Independentemente do poder do veto, é importante ressaltar que as principais decisões do fundo requerem uma supermaioria de 85%. Assim, os Bric não precisam nem exercer o poder de veto se já são percebidos como tendo esse poder. Encostando nos 15%, exercem uma influência muito grande.

Então a grande novidade é que os Bric, mesmo antes de o novo acordo ser ratificado, já começam a exercer um poder de minoria bloqueadora.

A partir da implementação do acordo, as principais decisões do fundo não poderão ir adiante sem levar em consideração as posições do grupo. Se não houver consulta aos principais países em desenvolvimento, as propostas não vão passar.

BBC Brasil - O ministro Guido Mantega comemorou as conquistas do recente acordo, afirmando que os países emergentes agora terão mais poder. O que a maior força do bloco pode trazer de novo para o FMI?

Nogueira Batista - Tanto o Brasil quanto outros países em desenvolvimento trazem uma perspectiva diferente para o fundo, porque têm uma experiência diferente com a instituição. Hoje, se o fundo trata países devedores com arrogância e pressão - como ocorreu com a Islândia, que passou por maus bocados -, o Brasil sabe o que é isso. Sentiu na pele no passado.

Embora o país hoje seja credor do fundo, tem o papel de trazer para o fundo a perspectiva de um país em desenvolvimento, que já foi devedor, já entrou em conflito com o fundo e sabe como ele também pode ser instrumento de políticas inadequadas.

Além disso, China, Índia, Brasil e Rússia têm capacidade de atuar de forma mais independente no âmbito global, e podem trazer para o fórum questões relevantes para os países emergentes que ainda não têm essa força.

Nessa última rodada de negociações na Coreia, por exemplo, os Bric estavam atuando juntos. Claro que também temos brigas, algumas duras. Mas passamos a ser reconhecidos como uma instância de negociação e, nas negociações realizadas de 2008 para cá, formamos um conjunto tanto no FMI, quanto no G20.

BBC Brasil - O fato de esta reconfiguração de poderes no FMI ter sido discutida no âmbito do G20 indica a força deste grupo?

Nogueira Batista - Sim. Na prática, o G20 frequentemente toma decisões que depois serão executadas por organizações internacionais como o FMI. Por isso é tão importante que o Brasil esteja presente no grupo, porque nos permite participar de etapas cruciais da negociação.

A negociação que culminou no acordo na Coreia do Sul, por exemplo, teve inicio há dois anos. A maior parte dela foi travada dentro do FMI, mas certos momentos-chave foram levados para dentro da instância do G20, e foi importante Brasil estar representado lá pelo presidente e seus ministros.

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