MENU

Sob efeito da crise, mercado de carros usados prevê reação só em 2010

Sob efeito da crise, mercado de carros usados prevê reação só em 2010

Atualizado: Terça-feira, 15 Setembro de 2009 as 12

Um ano após o agravamento da crise financeira internacional, o mercado de carros usados no país ainda sente os impactos da falta de crédito que atingiu quase todos os setores da economia e prevê recuperação só a partir e 2010.

Dados da Associação dos Revendedores de Veículos Automotores no Estado de São Paulo (Assovesp) mostram que as vendas de usados em São Paulo caíram 26% em agosto deste ano em comparação com o mesmo mês de 2008, quando a crise ainda não tinha atingido o Brasil.

A comercialização menor é explicada pela falta de crédito, segundo a entidade. Os dados mostram que, em agosto de 2008, 77% das vendas tiveram algum tipo de financiamento enquanto que, no mesmo mês deste ano, as vendas financiadas representaram 57%.

IPI para novos

O mercado de usados vai na contramão dos novos, que apresentam bons resultados em 2009. No primeiro semestre, as vendas subiram 13,4% amparadas por ajuda do governo aos bancos das montadoras e redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para os carros zero quilômetro.

Para o presidente da Assovesp, George Assad Chahade, o IPI menor dos zero fez com que os carros seminovos e usados perdessem valor, diminuindo a lucratividade do comerciante. "Mas não foi isso que prejudicou. Ocorreu foi um diferencial do tratamento [entre os novos e usados] em função do crédito."

De acordo com Chahade, no último trimestre de 2008 os bancos restringiram a liberação de financiamento e tornaram mais exigente a consulta à situação financiera dos clientes.

O IPI menor para novos vale até o fim deste mês. O governo anunciou que, a partir de então, para carros populares de até mil cilindradas a alíquota zerada sobe para 1,5% em outubro, dobra em novembro, avança a 5% em dezembro, voltando aos originais 7% em janeiro de 2010.

No último fim de semana, o presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), Sérgio Reze, afirmou que o setor se beneficiaria se o imposto menor fosse constante. E disse que pode conversar com outras entidades para que seja feito um pedido para o governo.

Pouco crédito

Para o presidente da Assovesp, independentemente do IPI, o mercado de usados precisa de mais crédito para retomar o crescimento. "Hoje a situação do crédito está 20% a 30% melhor do que no fim do ano passado. Mas ainda está muito seletivo."

Ele afirma, porém, que a liberação de crédito "do jeito que estava antes da crise não volta nunca mais". "Quando se sofre um acidente, acaba ficando mais cauteloso", explica, ao afirmar que as financeiras devem manter a política de restringir.

Para Chahade, há perspectivas de reação para o mercado de usados no próximo ano. "Alguns bancos podem voltar ao mercado e pode ser que o fim do ano seja um pouco melhor. Mas é um processo muito lento. Precisa crescer o nível de emprego para que o trabalhador possa ter segurança e participar do mercado."

Sebastião Carlos de Souza Neto, gerente da Autoscar Multimarcas, de Santo André, na Grande São Paulo, avalia que a recuperação será "lenta". "Desde o começo deste ano vem melhorando, mas a recuperação, perto do impacto que foi, o negócio parou de uma vez, a recuperação não é de uma vez, é lenta."

Ele conta que, até setembro do ano passado, a loja vendia em média 40 carros por mês e, atualmente, vende entre 25 e 30. No período mais agudo da crise- no fim do ano passado- vendeu cerca de 15 por mês.

Mais otimista, Vinícius Garcia, um dos proprietários do Auto Shopping Imigrantes, diz que o mês de setembro traz perspectivas boas. "Agosto foi meio esquisito, mas vem melhorando nos últimos meses. Agora este mês começou bem. O crédito deu uma facilitada, estava muito amarrado."

Garcia diz que a empresa sentiu menos a crise do que as lojas menores porque, por ter várias lojas no mesmo local, tinha mais força na mídia.

Para ele, a redução do IPI para novos será positiva para os usados pelo fator psicológico. "Nem é tanto pelo valor. O consumidor vai para o zero porque vê a todo tempo que está sem imposto."

Desvalorização

O gerente de vendas da CarShop Veículos, de São Paulo, Sidnei Nagado, afirma que teve prejuízos de mais de R$ 200 mil no estoque após a desvalorização nos preços - segundo a Assovesp, o valor dos carros caiu quase 20% em 12 meses.

"Eu quero que suba o IPI porque valoriza os usados. Hoje vendo R$ 3 mil, R$ 4 mil abaixo da tabela Fipe. O normal seria R$ 1 mil abaixo. Se o IPI voltar ao normal e o zero subir, posso vender R$ 1,5 mil abaixo da Fipe", diz o gerente.

Nagado diz, no entanto, que a empresa aposta as fichas no fim do ano, por causa do 13º salário e pelo fato de que muita gente busca trocar de carro para viajar.

Venda particular

Consumidores dizem que a desvalorização dos preços nas lojas os prejudica porque os revendedores passam a pagar ainda menos pelos carros.

O bancário Bruno Soares, de 21 anos, da capital paulista, conta que tentou vender seu carro Gol em uma loja. O carro foi avaliado em R$ 17 mil. Soares achou o valor baixo e começou a tentar a venda particular. Resultado: está prestes a vender o veículo por R$ 24 mil.

"Fui em diversas lojas, mas não compensa. No particular, vendo abaixo da tabela, mas consigo preço melhor."

A arquiteta Erika Mello, de 28 anos, moradora de São Paulo, que também tenta vender seu carro, nem chegou a procurar as revendas por conta de uma experiência recente do noivo.

"Ele parcelou um Fiesta que valia em torno R$ 24 mil e já havia pago cerca de R$ 14 mil. Precisava de R$ 17 mil para quitar e a loja ofereceu R$ 18 mil pelo carro. Ou seja, ele ia receber só R$ 1 mil. Mas conseguiu vender particular por R$ 7 mil e a pessoa assumiu a dívida."

veja também