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Empresas fazem ações para reduzir número de profissionais obesos

Empresas fazem ações para reduzir número de profissionais obesos

Atualizado: Segunda-feira, 9 Maio de 2011 as 10:54

A obesidade está se tornando cada vez mais presente entre os brasileiros. Segundo levantamento de 2010 do Ministério da Saúde, 48,1% da população adulta está acima do peso e 15% são obesos. Há cinco anos, a proporção era de 42,7% e 11,4%. Os dados fazem parte da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), que entrevistou 54.339 adultos, nas 27 capitais.

Com o aumento do número de obesos, também cresce a preocupação das empresas em promover ações para reduzir o problema. "Fazemos trabalhos em grandes e pequenas organizações para que as pessoas tenham uma melhor qualidade de vida e liberalidade de doenças", afirma Fernanda Fernandes, gerente nacional do Vigilantes do Peso. Segundo ela, isso também é positivo para a própria companhia. Com funcionários acima do peso, as chances de doenças e faltas justificadas aumentam significativamente. "Para as empresas, o prejuízo é quatro vezes maior. Por isso, nos últimos quatro anos, o número de organizações que nos procuram cresceu cerca de 40%."

A gerente do Vigilantes do Peso conta que, segundo as empresas consultadas, quando um profissional entre em uma companhia, ele pode aumentar o peso em até 8 quilos por ano. "Pior ainda é quando a empresa ainda disponibiliza comida."

Por isso, as organizações já estão percebendo que é mais fácil conscientizar um grupo de pessoas sobre a saúde em relação ao peso do que depois arcar com as consequências de um profissional doente pelo excesso de peso. "A prevenção é fundamental", acrescenta Fernanda.

Rosana Radominski, endocrinologista e presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), afirma que o aumento se deve a uma mudança de estilo de vida. "As pessoas estão comendo mais fora de casa e alimentos com alto teor calórico, de gordura e de açúcar." Além disso, Rosana lembra que há uma redução da atividade física. "Os computadores vieram para ficar. As pessoas trabalham muito tempo e não conseguem fazer mais nada. O exercício está sendo substituído pelo sedentarismo."

Há também executivos engordam pela própria situação de vida: metas, exigências, estresse, ansiedade e falta de tempo. "As mudanças estão acontecendo rapidamente e isso exige que as pessoas estudem mais e fiquem ligadas a tudo. Para que isso ocorra, acabam não tendo tempo para se cuidar", afirma Fernanda.

Hábitos negativos da vida corporativa:

Hábito Homens e mulheres

Sobrepeso ou obesidade 45,1%

Alto nível de estresse 49,2%

Ansiedade 48,3%

Baixo equilíbrio entre vida profissional e pessoal 41,4%

Baixa qualidade nutricional 56,2%

Café da manhã inadequado 75,4%

(CPH Consultoria)

Maurício Mittempergher, médico do trabalho e CEO da Rede A – empresa especializada em saúde e segurança do trabalho –, afirma que, junto com a obesidade, é comum que essas pessoas tenham doenças como hipertensão, diabete ou problemas cardíacos. Isso faz com que elas faltem mais no trabalho. "Um levantamento americano apontou que funcionários obesos faltam 200% mais do que os outros."

Também há restrições por preconceito da aparência. Segundo Rosana, existe a impressão, apesar de não ser verdadeira, de que os obesos são pessoas relaxadas, que não se cuidam e preguiçosas. E essa impressão muitas vezes afeta a imagem dos profissionais no trabalho.

Dificuldades no recrutamento

Ricardo de Marchi, presidente da consultoria CPH Health, afirma que os obesos também são mais caros para as empresas e, por isso, começa a haver uma barreira para essas pessoas arrumarem emprego. "O tempo de internação e custos e doenças é maior. Isso faz com que a assistência médica fique mais cara para a empresa. Além disso, eles tendem a faltar mais." Por esses motivos, Marchi acredita que as empresas estejam aumentando o interesse em buscar uma promoção da saúde como benefício tanto para elas como para seus colaboradores.

Nível de objeção dos recrutadores a profissionais obesos:

Nível de objeção 2001 2003 2005 2007 2009

Nenhuma

Presidente, diretor 37,6% 34,4% 34,2% 31,6% 31,4%

Gerente, supervisor 39,1% 40,8% 38,6% 38,3% 40,8%

Pouca

Presidente, diretor 52,2% 53,7% 50% 52,8% 52,8%

Gerente, supervisor 50,5% 49,3% 50,2% 51,1% 48,9%

Muita

Presidente, diretor 10,2% 11,9% 15,8% 15,6% 15,8%

Gerente, supervisor 10,4% 9,9% 11,1% 10,6% 10,4%

(Catho Online)

A obesidade está relacionada aos hábitos alimentares e de vida de cada um. Nesse sentido, as empresas devem entender qual o motivo da obesidade daquele profissional – genético, hábitos alimentares, sedentarismo –, para depois orientá-lo para uma vida mais saudável. "Ser obeso não deve ser fator decisivo para não se contratar alguém", destaca Mittempergher.

Para isso, é fundamental que a alimentação na própria empresa seja mais saudável. Rosana acredita que, em geral, as organizações já estão mais preocupadas com a saúde de seus funcionários. No entanto, os lanches durante o expediente ainda prejudicam muito. Por isso, a endocrinologista aconselha que os biscoitos e chocolates sejam substituídos por frutas, iogurtes ou sanduíches naturais feitos em casa.

Profissões

Algumas carreiras exigem que o profissional tenha boas condições físicas. Segundo Mittempergher, isso não é discriminatório, e sim uma prevenção contra acidentes no trabalho. "Por exemplo, na área de construção civil, o profissional não pode ter nenhuma limitação para atividades físicas, pois pode implicar em risco de queda."

Segundo Rosana, nenhuma organização pode colocar o peso como requisito em um processo de seleção. Entretanto, há algumas profissões nas quais é preciso uma locomoção mais rápida ou determinado exercício físico. "Um carteiro, por exemplo, deve ter um condicionamento físico melhor."

"No subconsciente, as pessoas acham que um obeso é menos apto para cumprir determinadas atividades. E isso é errado, pois não há nenhum fundamento científico que comprove que pessoas gordas desempenham de forma pior suas funções", ressalta Mittempergher.

Processo na Justiça

O auxiliar administrativo Leandro Gueiros Grassi, de 29 anos e IMC 43,1, realizou, em janeiro de 2009, uma prova de um concurso público para o cargo de agente de organização escolar pelo governo do Estado de São Paulo. "Moro em Santo André (SP) e escolhi a escola para trabalhar bem perto de minha casa. Após muito estudo e disputa, fui aprovado Imagine o alívio e sentimento de vitória."

Depois da nomeação, foi marcada uma perícia médica para avaliação de aptidão física. Foi quando passou por médicos e apresentou os exames solicitados. "Gastei o meu dinheiro e muito tempo para tudo isso e, no final, fui considerado inapto. Depois de ter sido reprovado pelos médicos, o governo de São Paulo publicou uma anulação da minha nomeação."

Foi então que Grassi decidiu procurar a Defensoria Pública e entrar com uma ação pedindo o direito de trabalhar e uma indenização por danos morais. "Faço o mesmo trabalho em uma empresa privada. Nunca tive problemas em realizar minhas atividades profissionais. Tenho documentos comprovando que posso trabalhar, inclusive laudos de outros médicos. Por isso, espero que a decisão judicial seja favorável."

Seu pedido de posse foi negado pela Justiça sob a alegação de que uma pessoa com alto grau de obesidade tem maior propensão de desenvolver doenças que acarretarão licenças médicas, com prejuízo à continuidade do serviço público.

Grassi entrou com um recurso, mas este também foi negado. O processo foi para segunda instância, na qual os juízes negaram provimento ao recuso.  

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