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Entre a formação e o mercado

Entre a formação e o mercado

Atualizado: Terça-feira, 31 Maio de 2011 as 2:09

SÃO PAULO - Os tecnólogos vivem hoje no Brasil uma situação paradoxal. Os cursos são incentivados pelo governo federal, mas algumas categorias enfrentam dificuldades de aceitação no mercado. Sua formação é mais rápida do que as graduações tradicionais e focada na prática de determinada área, mas empregadores - inclusive estatais - ainda relutam a contratá-los. Alguns são disputadíssimos, outros preteridos. Esse é o drama do trabalhador espremido entre duas realidades e que luta para ser reconhecido.

? innerRight15> Ainda existe muito preconceito contra os tecnólogos. Acredito que isso acontece pelo desconhecimento em relação à formação", afirma o presidente do Sindicato dos Tecnólogos de São Paulo, José Paulo Garcia. Além do setor privado, ele diz que também há restrições por parte de alguns conselhos reguladores de profissão, que impediriam o graduado de exercer na plenitude suas habilidades. "Cerca de 90% das reclamações que recebemos são em relação ao Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), que atribui menos competências ao tecnólogo do que ele pode exercer", diz Garcia. Até o fechamento desta edição, na sexta-feira à noite, o Crea-SP não havia se manifestado sobre as afirmações de Garcia.

O conselheiro do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), Roberto Costa e Silva, diz que as competências do tecnólogo foram regulamentadas em 2007 pela Resolução 1.010 da organização. "A medida estipula que ele tem as mesmas atribuições (competências) do engenheiro, só que resumidas a sua formação acadêmica específica", diz Costa e Silva. Para ele, eventuais excessos por parte dos conselhos regionais devem ser denunciados ao Confea.

Reconhecimento. A formação tecnológica é ampla, sendo autorizadas pelo Ministério de Educação 113 opções de cursos nessa modalidade. No mercado, uma área onde não existe impedimentos ao trabalho é em tecnologia da informação. Segundo levantamento das Faculdades de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatecs), no curso de análise e desenvolvimento de sistemas, a empregabilidade para um formado é de 100% após um ano da graduação. "Isso ocorre porque é uma área muito carente. Algumas pesquisas estimam que faltem ao Brasil 100 mil profissionais nesse campo", afirma o coordenador de ensino superior das Fatecs, Angelo Cortelazzo.

O estudante do quinto semestre do curso, Sidney de Aquino, de 37 anos, já está empregado mesmo faltando um ano e meio para o final da graduação. "A maioria dos meus colegas de classe também já trabalha na área", afirma Aquino. Ele chegou a ficar receoso ao selecionar a formação. "Escolhi o curso pela formação mais rápida, prática e não me arrependi", completa o estudante.

O déficit é tão grande no setor, que até mesmo uma instituição recém-criada coloca seus alunos no mercado de trabalho. A Faculdade de Tecnologia da Informação do Colégio Bandeirantes (BanTec), abriu cursos na área em 2010 e ainda não tem alunos formados. Mas segundo o diretor de planejamento da faculdade, Eduardo Tambor Júnior, uma pesquisa interna revelou que a empregabilidade entre os alunos do terceiro semestre - a classe mais avançada - é de 92%.

Do outro lado da moeda, existem os cursos preteridos. Victor Alves, de 22 anos, se formou tecnólogo em petróleo e gás no fim de 2009, motivado pelas oportunidades da descoberta do pré-sal. Só que no primeiro ano da graduação, soube que a Petrobras não permitia aos graduados na modalidade prestar concurso para seus quadros.

Decepcionado, trancou as aulas e voltou só um semestre depois. Ele criou um blog para reunir oportunidades para os tecnólogos no setor e descobriu que elas não são muitas nesse segmento. Quando existem, estão em empresas fornecedoras e não nas extratoras, como a Petrobrás. "No mar, preferem o técnico. Na terra, o engenheiro", diz Alves. Só depois de ficar conhecido pelo blog e persistir, conseguiu um emprego numa plataforma de petróleo.  

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