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A arte de tentar outra vez: Ronaldo e superação caminham lado a lado

A arte de tentar outra vez: Ronaldo e superação caminham lado a lado

Atualizado: Segunda-feira, 14 Fevereiro de 2011 as 9:43

Parar é difícil para todos. Imagine então o tamanho do drama para quem sempre pareceu invencível, imune aos limites do corpo, impermeável às críticas, confiante até o último quase sempre inexistente fio de cabelo. Ao decidir encerrar a carreira, Ronaldo diz ao mundo que até para um Fenômeno a cota de superações tem limites. Limites estes que certamente tiveram suas fronteiras alargadas depois da trajetória de R9.

O momento mais sublime da carreira de Ronaldo - os braços abertos depois de vencer o alemão Oliver Kahn pela segunda vez na decisão da Copa do Mundo de 2002 (veja o vídeo acima) - parecia obra de ficção para quem em abril de 2000 chocou o mundo ao desmoronar no gramado do estádio Olímpico de Roma. O tendão patelar do joelho direito estava escancaradamente rompido. A imagem era forte, e o grito de desespero com a camisa do Inter de Milão contra o Lazio, pela final da Copa do Rei, não deixava dúvidas do tamanho da dor. Parecia o fim.

Ronaldo ficou um ano e três meses parado e só voltou a jogar pela Seleção na vitória por 1 a 0 sobre a Islândia. O amistoso no Castelão, em Fortaleza, foi no dia 27 de março de 2002, menos de três meses antes da estreia na Copa. O atacante só fez mais três jogos com a camisa do Brasil até o gol contra a Turquia, o primeiro da vitória por 2 a 1 no início da caminhada rumo ao penta - enfrentou Portugal (1 a 1) e os "gigantes" Catalunha (3 a 1) e Malásia (4 a 1). Parecia loucura confiar no camisa 9. Felipão apostou alto e riu por último. Viu Ronaldo marcar oito gols na trajetória do título.

A superação de 2002 também aliviou a dor da derrota para a França em 98, depois de sofrer uma convulsão no dia da final. E se torna ainda mais surpreendente se levado em conta que a lesão de 2000 já era a terceira no joelho direito.

Ronaldo se machucou no local pela primeira vez em 1996. Quando jogava pelo PSV, passou por uma cirurgia para raspagem da cartilagem do tendão. Ficou quatro meses parado. Em 1999, já pelo Inter de Milão, rompeu parte do tendão patelar em um jogo contra o Lecce, pelo Campeonato Italiano. Passou cinco meses afastado dos campos e voltou justamente no fatídico confronto com o Lazio.

Além do drama do joelho direito, Ronaldo ainda teria mais duas operações na carreira. Em 2006, quando defendia o Real Madrid, veio ao Brasil para realizar uma cirurgia de raspagem de duas calcificações no osso da tíbia da perna esquerda. Ficou um mês e meio parado. Em 2008, um pesadelo similar ao de 2000: pelo Milan, mais uma lesão de tendão patelar, desta vez no joelho esquerdo.

Na época da cirurgia de 2008, em entrevista à repórter Sônia Bridi, Ronaldo cogitava parar de jogar. Mas dizia que a vontade de mais uma volta por cima era maior.

- Acredito em destino. Acredito que eu esteja aqui para cumprir uma missão. E talvez a minha missão seja essa. Mostrar para pessoas que não têm problemas e que vivem reclamando da vida, de coisas mínimas. Mostrar para o mundo que qualquer que seja o problema a pessoa tem que acreditar e se superar.

Hoje, a frase soa como profecia.  O recomeço veio com a camisa do Corinthians. Quando fechou contrato com o Timão, Ronaldo não tinha só a missão de se mostrar recuperado da cirurgia. Estava em jogo também a série de críticas que vinha recebendo desde 2006. Na Copa da Alemanha, o atacante tornou-se o maior artilheiro de todos os tempos em Mundiais, com 15 gols, mas foi bastante criticado pelo excesso de peso. Da lesão contra o Livorno até a estreia contra o Itumbiara passaram-se mais de 12 meses de estaleiro e fotos com barriga avantajada. Também foi naquele período o escândalo com um travesti.  O desabafo veio no alambrado do estádio em Presidente Prudente, na comemoração de seu primeiro gol com a camisa do Timão. Com uma cabeçada aos 47 minutos do segundo tempo, empatou o clássico com o Palmeiras em 1 a 1 no dia  8 de março de 2009.

Foi apenas o primeiro capítulo de um semestre de  títulos paulista e da Copa do Brasil. No primeiro, foram oito gols em dez jogos, com direito a uma pintura na primeira partida da decisão contra o Santos, encobrindo Fábio Costa na vitória por 3 a 1, na Vila Belmiro. Na competição nacional, fez um dos gols da vitória por 2 a 0 sobre o Inter na primeira partida da decisão, no Pacaembu. No jogo de volta, deu passe para gol de André Santos no empate em 2 a 2.

Faltava a Libertadores, obsessão dos corintianos. Em 2010, Ronaldo até fez gol, mas o time não conseguiu superar o Flamengo. Neste ano, o atacante fracassou contra o Tolima. Uma famosa peça publicitária de 2003 mostrava a volta por cima de Ronaldo como símbolo da campanha do governo com o slogan "brasileiro não desiste nunca". A música tema era "Tente outra vez", na voz de Raul Seixas. Ronaldo ainda tem dois pés para cruzar a ponte, mas o peso já não comporta mais tentativas. Ele já tentou mais do que o suficiente.

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