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A ressurreição de Jesus: 'filho do homem' é o artilheiro da Série B

A ressurreição de Jesus: 'filho do homem' é o artilheiro da Série B

Atualizado: Sexta-feira, 1 Julho de 2011 as 9:56

Em oito jogos, foram nove gols. Um mais diferente que o outro: de cabeça, chute de fora da área, pênalti e até de calcanhar. Ricardo Jesus é o destaque da Ponte Preta, vice-líder da Série B do Campeonato Brasileiro. Artilheiro da competição, o atacante de 26 anos tem mostrado um desempenho impressionante.

Contratado por empréstimo do CSKA Moscou, o “filho do homem”, como foi apelidado por seus companheiros, demorou a engrenar. Apresentou-se no clube fora de forma porque, além de vir de um período pouco produtivo no CSKA, “na Rússia se treina pouco”, segundo ele. E quando parecia que tudo começava a dar certo, duas lesões musculares o afastaram de boa parte do Campeonato Paulista.

- Depois que me recuperei ainda fiquei quatro jogos sem ser relacionado. Mas tenho algo que é muito difícil encontrar entre os jogadores: paciência. O Gílson (Kleina, técnico da equipe) me chamou para uma conversa e falou para eu ficar sempre atento porque a oportunidade iria aparecer.

Coincidência ou não, a Ponte só vence quando Jesus deixa a sua marca. Foi assim contra o ASA, Icasa, Barueri, Duque de Caxias e Salgueiro (veja os gols no vídeo acima) .     Início no futebol

Ricardo Jesus da Silva nasceu em Campinas no dia 16 de maio de 1985, mas foi criado na vizinha Cosmópolis. Os primeiros chutes foram dados com cinco anos, por influência do pai, que o levava para treinar depois do trabalho. Na adolescência, atuou em alguns times da região, como o Independente de Limeira.   Aos 17 anos, o divisor de águas: muda-se para Porto Alegre e passa a defender o Internacional. Na chegada ao Beira-Rio, ainda em fase de testes, se deparou com um treinador que não decorava seu nome de jeito nenhum. Foi o que bastou para o sobrenome materno virar marca registrada.

- Ele me chamava de Rodrigo, João, Pedro... De tudo, menos pelo meu nome. Um dia, perguntou como realmente eu me chamava, pois não conseguia guardar. Respondi e ele voltou a perguntar: “Ricardo de quê?” Ricardo Jesus, falei. Aí ele virou e disse que Jesus não teria como esquecer. O apelido pegou. Aqui mesmo na Ponte tem gente que me chama assim. Uns até brincam e falam que sou o “filho do homem”.

No Colorado, chegou a jogar com Alexandre Pato na equipe B e, após boas atuações, transferiu-se, em 2007, para o Spartak Nalchik-RUS.

Período na Europa

Foram quatro anos de futebol europeu – três e meio na Rússia e seis meses na Grécia. Diferente da maioria dos jogadores brasileiros, não teve dificuldade em se adaptar.

- No começo, sofri um pouco com o idioma, mas o clube foi inteligente ao contratar uma professora. Estudei quatro meses diariamente e logo aprendi a formar frases. Comecei a entender a cultura deles também. Em campo, a adaptação não foi muito difícil porque eu vinha de uma pré-temporada forte no Brasil. Então, cheguei melhor fisicamente do que os outros atletas. Os sete gols no primeiro campeonato que disputava chamaram a atenção do CSKA, que desembolsou dois milhões de euros por seus direitos econômicos. No maior clube russo, porém, nunca conseguiu ter uma sequência de jogos. Nem mesmo quando Zico comandou a equipe.

- Em 2008, fui praticamente para todos os jogos. Mas em 2009 foram feitas novas contratações e a diretoria preferiu me afastar. Quando o Zico chegou, até me dediquei mais para tentar jogar, mas era uma opção do presidente que eu ficasse fora.

Sem espaço, foi emprestado ao Larissa-GRE e teve outra rápida passagem pelo Spartak Nalchik. O problema dessa vez foi uma lesão no menisco, que o afastou dos gramados por mais três meses.

Retorno ao Brasil

No fim de 2010, eis que surge o interesse da Ponte Preta. Gílson Kleina estava em fase de montagem do elenco e o nome de Jesus foi sugerido pelo auxiliar Fábio Moreno, como revela o comandante.

Ricardo Jesus: da Rússia para a Ponte Preta

(Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)

  - Eles trabalharam juntos no Inter. Naquela época, eu estava disputando o Gauchão pelo Caxias e eliminamos o Inter. O Ricardo sempre mostrou potencial. É ambidestro, diferente na finalização e ao fazer a parede. Não é um atacante que só sabe ficar na área. Por isso chamou a nossa atenção.

Segundo Kleina, o segredo do sucesso de Jesus na Ponte foi dar um tempo para ele se readaptar ao futebol brasileiro.

- Foi o tempo que fez o Ricardo mostrar seu futebol. Ele não estava jogando. Então, quando começou o Paulistão, teve uma dificuldade tremenda de adaptação e, fora de forma, se lesionou. Falamos à diretoria que era preciso paciência com o atleta porque ele daria resultado. Se não o conhecêssemos, teríamos aberto mão de um grande jogador.

Para Jesus, a boa fase na Ponte Preta não começou agora.

- Esse é, sem dúvida, um momento abençoado. Mas o trabalho e a dedicação vêm de antes, quando não me dispersei. Tenho vontade de vencer e venho cultivando esse sonho há anos para colher agora.

Kleina elogia a perseverança e a dedicação do atacante, mas lembra que na Macaca a cobrança aos jogadores da posição é constante, em função de grandes nomes que passaram pelo clube.

- A Ponte tem um estigma. O Luis Fabiano e o Washington foram atacantes que passaram por aqui, fizeram história e depois foram embora. É o que está acontecendo com o Ricardo. Só que aqui não há muito tempo e se ele não der retorno, as coisas ficam difíceis.

É bom que Jesus continue mostrando que, dentro da área, ele não perdoa.          

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