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Afastado da bola desde agosto, Toró desabafa: 'Me sinto um inútil'

Afastado da bola desde agosto, Toró desabafa: 'Me sinto um inútil'

Atualizado: Segunda-feira, 5 Dezembro de 2011 as 3:56

Os músculos estão intactos. Nada de contratura, estiramento. O mesmo vale para os ligamentos, ossos. Toró está inteiro e pronto para entrar em campo. Desde o dia 25 de agosto, contudo, os pés dele e a bola se divorciaram, não se tocaram mais. Essa foi a rotina do jogador desde que foi afastado pelo técnico Cuca do elenco do Atlético-MG.

À distância, treinando pouco e em horários alternativos, o jogador sentiu o alívio pela fuga do rebaixamento e a vergonha pela goleada por 6 a 1 para o Cruzeiro na última rodada. Mas no primeiro dia de férias só pensa em mudar o rumo da carreira depois de terminar 2011 sentindo-seinútil, segundo suas próprias palavras.

Toró durante entrevista (Foto: Eduardo Peixoto/Globoesporte.com) Aos 25 anos, Toró coleciona títulos da passagem pelo Flamengo e frustração pelo momento no Atlético-MG. Nos dois clubes há uma interseção: o técnico Cuca. Na Gávea, o volante estava no grupo que deu ao comandante o primeiro título da carreira – o Carioca de 2009 – e depois pediu à diretoria a saída do comandante. Na Cidade do Galo, o reencontro começou amistoso, mas terminou em uma conversa na sala do diretor Eduardo Maluf com Cuca dizendo que não confiava nele e o tiraria do grupo. A justificativa oficial foi de que o elenco estava inchado.

A decisão de tirá-lo do elenco provavelmente põe fim à curta passagem de 18 jogos e dois gols no clube mineiro. O contrato de Toró termina no fim de 2013, mas a expectativa é que ele seja negociado.

Confira a entrevista:

Por que o Atlético-MG escapou da Série B?

Os jogadores fecharam. Viram que a coisa estava ruim e precisavam mudar. Os caras sabem que se caíssem iria começar a manchar a carreira. O Réver, por exemplo, é jogador de Seleção, Mancini tem nome na Europa... Os caras falaram: “vamos fechar e não tem jeito”. Fico feliz pelo Richarlyson, André e o Eduardo Maluf. Eles não mereciam cair.

Daniel Carvalho e Toró no treino do Atlético-MG

(Foto: Lucas Catta Prêta / Globoesporte.com) A saída do Dorival e a chegada do Cuca foram preponderantes para a ascensão?

O Dorival é um amor de pessoa, um cara gente boa demais. Demais mesmo, mas as coisas não estavam encaixando. Houve muitas mudanças, vários jogadores machucaram, suspensão... O Cuca conseguiu pegar os jogadores e deu uma sequência. O Atlético contratou muita gente, mas o time que terminou o ano jogando é outro. O pessoal que está afastado se pergunta: “que sequência a gente teve?”

O Cuca chegou, aconteceu essa situação (de me afastar)... fiquei desmotivado. Saí do Flamengo porque meu contrato acabou. Agora é diferente, nunca tinha vivido isso de treinar afastado. Mas não tem jeito é pensar para frente. Só penso em 2012 e voltar a me sentir bem. Hoje no Atlético-MG me sinto um inútil. Vejo as coisas acontecerem e estou fora, sem poder ajudar.

Por que se sente inútil?

Desmotivação total. Está lá para treinando, às 7h começa o treino e 7h15 acabou. Ou então às 19h começa e 19h30 acabou. A gente sabe que jogador de futebol é preguiçoso, se não tiver a motivação não vai. Estou há três meses desse jeito e é triste. Se eu quisesse roubar literalmente o clube estava satisfeito. Até pela história que tenho e vontade de jogar. Fico triste porque quero mostrar meu valor. Sei que fui uma contratação cara e queria mostrar. Sair de casa às 5h e voltar às 7h é ruim para caramba, mas fazer o quê?

Você fica no Atlético-MG em 2012?

Se o Cuca ficar, acho que não. Ele demonstrou isso, colocou para a presidência que não quer contar comigo. Eu sei do meu valor e das minhas qualidades. Sei lógico do meu defeito, mas não tenho como ficar num ambiente onde o maior responsável não gosta de você. A torcida é apaixonante, louca, mas o cara não quer, não tem jeito.

A pergunta-clichê: considera-se injustiçado?

Injustiçado pode ser que seja pela situação que ocorreu. Foi complicado. Ele falou que não queria mais contar comigo depois que estourei o limite jogos (sete) e não podia mais me transferir para nenhum time da Série A. Mas enfim é a opção dele. Agora é pensar no Toró em 2012.

O futuro é longe do Atlético-MG, mas onde exatamente?

Deixo tudo nas mãos dos meus empresários. Pela ansiedade que pode gerar, eles não comentam nada. Querem que eu me dedique e trabalhe porque a qualquer momento pode acontecer alguma coisa boa. Em 2012 penso ser feliz aonde possa me sentir bem. Neste ano não fui feliz.

O Atlético-MG o contratou por indicação do Dorival. Chegar a um clube desta forma não deixa o jogador muito vulnerável à possível saída de quem o trouxe?

Pela história que tive e pelos títulos, achava que não. Confio no meu potencial. Sabia que o Dorival tinha me levado, mas podia mostrar algo pelo clube. Gostei do projeto, adorei o Maluf e o presidente. Estava ali pelo Atlético-MG até porque sei que vida de treinador é instável. É bom ter carinho do treinador? É. É bom ser querido pelo treinador? É. Mas queria conquistar meu espaço como Toró.

Cuca teve problema público no Flamengo em 2009. Você não ficou preocupado quando soube da contratação dele?

Preocupação tinha e sabia que poderia acontecer essa situação, tanto que aconteceu. Acreditava no meu futebol, como acredito. Às vezes duvido um pouco que alguém possa fazer isso, mas lembro que não caí de para-quedas no futebol e sei como são as coisas. Conquistei títulos e estava no grupo que deu o primeiro título da carreira dele. Achei que pelo menos consideração ele deveria ter, mas não teve e agora é bola para frente e pensar em 2012.

Toró só sorriu na hora do bate-papo informal

(Foto: Eduardo Peixoto/GLOBOESPORTE.COM) Tem trairagem no futebol?

Tem muita trairagem. se hoje tenho dois, três amigos no futebol é muito. Posso contar meus amigos: Renato Augusto e Arouca só. O resto é um querendo tomar espaço do outro. Colegas a gente faz, ambiente a gente faz. sai pra jantar, vai na casa do outro, mas amizade de verdade é complicado.

Por que 2012 foi tão frustrante?

Ganhei cinco títulos em cinco anos no Flamengo. Cheguei ao Atlético-MG com a mesma expectativa, mas perdemos o título mineiro para ele (Cuca), no Cruzeiro. O time que foi montado no início do ano tinha Obina, Tardelli e esperava-se bastante coisa, mas não aconteceu.

Nos últimos anos o Atlético-MG investiu pesado, mas não obteve retorno. Qual a explicação?

Espero que em 2012 o clube tenha pensamentos grandes como o Atlético-MG merece. Clube proporciona tudo do melhor e precisa pensar em coisas grandes. Às vezes penso: presidente dá tudo o que a gente pede, tudo que o jogador e comissão precisam. Isso vai muito do

pensamento. Os jogadores sobem da base e têm qualidade Serginho Felipe Souto, mas sei lá, parece que o ambiente do local... Precisam aprender a gostar de ganhar. Sempre gostei e tive desafios. Saí de família humilde, venci no futebol, ajudei minha mãe, minha família. Nunca pensart em ser segundo. a partir do momento que o atletico colocar na cabeça que não vale pensar em ser segundo as coisas vão melhorar. Ano que vem precisa ser assim: vamos vir para ganhar, não para competir.

Já sente falta das noites tediosas da concentração?

Estou com saudade dos jogadores, da convivência. Só falo por telefone, não vejo quase. Só às vezes num aniversário de um jogador ou no culto na casa do Magno Alves. Futebol é resenha, zoação... Estou há quatro meses sem encostar na bola. Meu treinamento é só parte física. O treinamento hoje é estar presente no clube. Tenho saudade de ver todo mundo. Quando encontro falo um pouquinho, mas tenho que ir embora.

Não podia sequer conversar com os companheiros?

Pelo que vi não posso conviver. Treinar 7h da manhã, em horários que não tem ninguém... Mas cada um tem sua cabeça. Quando você está machucado sabe que não tem como ajudar, mas sabendo que está inteiro é pior ainda de lidar.

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