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Auxiliar da Lusa, Anderson Lima ensina nova geração a bater faltas

Auxiliar da Lusa, Anderson Lima ensina nova geração a bater faltas

Atualizado: Terça-feira, 24 Maio de 2011 as 9:15

Anderson Lima tinha 36 anos quando disputou seu último campeonato profissional. Em 2009, o lateral direito foi vice-campeão estadual pela Chapecoense. Apesar de ser um atleta de alto nível, naquela idade, sabia que o adeus estava próximo. O que faltava era coragem para tomar a decisão.

Os primeiros meses como ex-jogador não foram fáceis. Era o “início de uma nova vida”. Assim como fazia no campo, Anderson criou metas e definiu o que queria para a sua carreira dali para frente. Inscreveu-se em cursos para treinador e, seis meses depois, teve a oportunidade de fazer um estágio no Palmeiras com Muricy Ramalho.

Ali reencontrou Jorginho, antigo parceiro de Santos e, na época, auxiliar-técnico do Verdão. A passagem foi curta. Afinal, era apenas um período de experiência. Na sequência, se aperfeiçoou no Grêmio. E, no segundo semestre de 2010, veio o convite do amigo, já fora do Palmeiras: “Quer ser meu braço direito no Goiás?”

- Foi a minha grande chance de voltar ao futebol profissional. Não pensei duas vezes. Agradeço muito a oportunidade que ele me deu - disse o ex-jogador, em conversa com a reportagem do Globoesporte.com, na sala de imprensa do Canindé.

- A Portuguesa é o terceiro clube em que trabalhamos juntos (além do Goiás e Ponte Preta) e tenho certeza que a parceria vai dar certo - acrescentou.

Anderson Lima (à esq.) e Jorginho trabalham juntos na Portuguesa (Foto: Divulgação)

  Quase um ano depois, a dupla parece finalmente ter se encontrado. Pegaram a Lusa na 12ª colocação no Campeonato Paulista e, com muito trabalho, levaram o time às quartas de final da competição. Ambos apostaram em uma fórmula que há muito tempo não dava certo no clube: as divisões de base.

A juventude do elenco – 14 jogadores subiram das categorias inferiores – exigiu da comissão técnica aprimorar os fundamentos. E foi nas cobranças de falta que Anderson Lima conseguiu passar toda sua experiência aos seus comandados.

- Existem duas formas de bater falta: a direta e a em dois tempos. Em dois tempos, os adversários vão te pressionar. Então você não pode ficar muito distante da bola. Eles podem te neutralizar e até te machucar. Se o jogador está sozinho, é questão de precisão e tranqüilidade. O melhor é não ficar muito reto para a bola, ficar um pouquinho mais de lado.

Anderson orienta atletas na cobrança de faltas na Lusa (Foto: Alexandre Massi/Globoesporte.com)

  O auxiliar, no entanto, lembra que não existe um ensinamento ou uma receita para as cobranças de faltas. O essencial é ter talento e treinar exaustivamente.

- Não sou professor porque não tenho essa capacidade. A batida na bola é um dom que você precisa aprimorar a cada dia. Não fiz tantos gols só porque tinha o dom, mas porque treinei também. Eu me preparava sempre. Não adianta no jogo você pedir para Deus. Deus é bom para todo mundo.

O aprendizado veio ao longo dos anos. Durante toda a carreira, Anderson conviveu com uma série de especialistas. Dois deles se destacam até hoje.

- No Santos, quando acabava o treino, Marcos Assunção e eu não tínhamos a preocupação de ir embora. Dependíamos das faltas. Treinar era decisivo para nós. O Assunção joga até hoje porque a bola parada dele é fundamental. No Grêmio teve o Rodrigo Fabri e, no São Paulo, o Rogério Ceni. Ficávamos lá antes e depois do treino. Por isso que ele tem sucesso.

Os especialistas em cobrança de falta estão sumindo. No país, os que se destacam são os mais velhos – além dos citados, Petkovic e Juninho Pernambucano são outros dois exemplos de exímios cobradores. Para o ex-lateral, não se trata de coincidência. Existem dois motivos para o baixo índice de aproveitamento.

- Um é que o treinamento é muito forte. Se você executar as batidas de falta em excesso, você arrebenta a perna. A outra é que acaba o treino e o pessoal vai embora. Tem uns jogadores aqui no grupo que ainda pedem para treinar, mas em outros lugares... No Coritiba (2007), eu via jogador que acabava o treino e já estava no carro, de roupa trocada, pronto para ir embora.

Anderson observa os jogos e ajuda Jorginho com opiniões (Foto: Alexandre Massi/Globoesporte.com)

  Agora se engana quem pensa que Anderson Lima é apenas um auxiliar de faltas. Na Portuguesa, ele também comanda treinos de defesa e ataque. A dedicação, hoje fora das quatro linhas, continua igual. Todo dia ele chega uma hora antes do treino e só sai uma hora depois. Analisa vídeos e troca ideias com Jorginho. Além disso, nos jogos, fica nas tribunas observando o comportamento dos times. Passa por telefone tudo o que está vendo e nem dá bola para uma eventual discordância.

- Você não pode aceitar tudo o que o treinador fala. Claro que a última palavra é dele. Por mais que ele esteja vendo o jogo, tenho que passar tudo. Às vezes, temos divergências, mas é sempre para o melhor. Jorginho é uma pessoa maravilhosa.

O futuro de Anderson passa pela carreira de treinador. Até lá, porém, existe uma longa trajetória. Por isso, prefere curtir o momento atual. Ele sabe que tudo tem a sua hora. Foi assim nas duas passagens mais marcantes de toda a sua carreira de jogador, uma no Coritiba, e outra no Albirex Niigata, do Japão.

Com a palavra, Anderson Lima

Coritiba 1 x 0 Ipatinga – Campeonato Brasileiro da Série B em 2007 “Teve um jogo em que eu bati quatro pênaltis e só fui acertar o último. O auxiliar levantou a bandeira e o juiz mandou voltar os três. Aí consegui fazer no quarto. Parecia que tinha desabado o mundo em cima de mim. Ainda bem que fiz, porque a torcida estava começando a pegar no meu pé. Ainda tinha aquela história de quem matou Odete Rotiman. Estava passando a novela e no dia seguinte sai uma matéria no jornal de Curitiba: “quem matou Odete Roitman? Anderson Lima (risos).”

Albirex Niigata 2 x 1 Kawasaki Frontale – Campeonato Japonês 2005

“Era difícil jogar no Japão. Achei que ia ser tudo as mil maravilhas, que ia deitar e rolar. E tive dificuldade. Fiquei dois meses sem jogar lá. Nesse jogo, o treinador não me colocava de jeito nenhum. Segundo tempo aquecendo, minutos passando. Trinta minutos, 35, 40, 45, 47... Aí saiu uma falta na entrada da área. Já estava largado. Os caras começam a gritar meu nome para o treinador. Quarenta mil pessoas no estádio, todas gritando meu nome. Pensei assim: que sacanagem do treinador, ele vai me colocar mesmo. O que eu faço? Estou p... da vida com esse cara. Vou chutar lá para cima. Mas depois pensei melhor: para quê isso? Se tenho a capacidade de ir lá e decidir... Todos os jogadores falavam: 'você vai conseguir'. Acho que fiquei sete minutos para bater a falta. O time adversário não deixava. A concentração que eu tive foi fundamental. Acabei fazendo o gol e foi uma festa danada. No Japão, eles têm os cinco melhores momentos do campeonato e esse foi considerado o melhor."          

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