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Bia Figueiredo corre para quebrar tabu no templo do automobilismo

Bia Figueiredo corre para quebrar tabu no templo do automobilismo

Atualizado: Sexta-feira, 21 Maio de 2010 as 10:40

Brasileira pioneira na Fórmula Indy, a paulistana Ana Beatriz Gomes de Figueiredo tentará se classificar, neste sábado, para o grid da 94ª edição das 500 milhas de Indianápolis, uma das provas mais tradicionais do mundo, disputada no circuito que é considerado um templo do esporte a motor. Em seu primeiro ano na categoria, contratada como piloto experimental da equipe Dreyer e Reinbold, a corredora conta em entrevista à Gazeta Esportiva.Net que se inspira em suas precursoras, critica o machismo dos boxes internacionais e coloca à prova o arcaico rótulo de sexo frágil.

Pronta para fazer história, Bia Figueiredo, que se consagrou como a primeira mulher a vencer uma corrida na Indy Ligths e na Fórmula Renault, começou bem os inúmeros treinos para a corrida. Desde o último domingo, data do primeiro contato dos pilotos com a pista, Bia vem conseguindo se manter entre os vinte primeiros e como um dos melhores novatos. Sua melhor marca foi a 17ª posição, alcançada na última quarta-feira.

Sua próxima meta é passar pelo ''Pole Day'', etapa que será realizada no sábado e classifica os primeiros 24 pilotos, ou pelo ''Bump Day'', no domingo, que seleciona mais nove no grid de largada. Caso consiga uma vaga, o objetivo passará a ser a conquista do status de melhor estreante, o que lhe renderia a imagem de seu rosto estampada no troféu destinado ao debutante com melhor performance.

Aos 25 anos, Bia já tem no currículo uma 13ª colocação, conquistada em sua primeira prova, a São Paulo Indy 300, realizada em março, na capital paulista. Apaixonada por velocidade desde pequena, ela comenta sua trajetória no automobilismo e mostra confiança ao planejar disputar a temporada de 2011 brigando pelo título de ''hookie (estreante) do ano''.

GE.Net: Como foi ser a primeira piloto brasileira na Fórmula Indy e qual a sensação de poder ser a primeira a disputar as 500 milhas de Indianápolis ?

Bia Figueiredo:   É uma grande honra para mim. Fiquei muito feliz quando acertamos com os meus patrocinadores para disputar as 500 Milhas e meu foco total aqui em Indianápolis está no trabalho de preparação com a equipe, para termos a melhor performance possível.

GE.Net: Após correr a SP 300 e ser escalada para Indianápolis, você acha que sua escuderia (Dreyer e Reinbold) vai prolongar seu contrato?

Bia Figueiredo: Mesmo que eu ganhe as 500 Milhas de Indianápolis não correrei o resto desta temporada. Nossa preparação estará concentrada para a temporada de 2011, quando quero ter a chance de disputar o título de ''Estreante do Ano''.

GE.Net: Até que ponto você foi influenciada pelas 'precursoras' Danica Patrick e Sarah Fisher? Foram elas que abriram as portas para o sexo feminino na categoria?

Bia Figueiredo: Corro há 17 anos e quando comecei não existia nenhuma piloto em destaque no automobilismo mundial. Sem dúvida, a Danica Patrick e a Sarah Fisher abriram portas para mulheres na categoria.

GE.Net:  O Brasil já venceu seis vezes as 500 Milhas (em três oportunidades com Hélio Castroneves, duas com Emerson Fittipaldi e uma com Gil de Ferran). Você acha que algum piloto brasileiro tem chances de conquistar a primeira colocação em 2010?

Bia Figueiredo: Torço para que um brasileiro seja um vencedor, sim. Os que têm mais chances são o Helio Castroneves, tricampeão da prova, e o Tony Kanaan, que luta pela sua primeira conquista nessa corrida.

GE.Net: Como você analisa o nível de 'categorias trampolim' como a Fórmula Renault, a Fórmula 3 e a própria Indy Ligths? No início de sua carreira houve preconceito?

Bia Figueiredo: A Fórmula Renault e a Fórmula 3 me deram uma base muito boa. Acho que todo piloto deveria fazer pelo menos dois anos de categorias de fórmula no Brasil para ganhar experiência antes de ir para a Europa ou Estados Unidos. A experiência que ganhei com a Equipe Cesário Fórmula nessas categorias foi essencial para o meu crescimento. O começo é sempre mais difícil, mas fui ganhando respeito com o tempo e com minhas vitórias. O Brasil melhorou muito, mas o povo brasileiro continua um pouco machista, sim.

GE.Net: Qual foi a sensação de correr SP Indy 300 em sua terra natal?

Bia Figueiredo: Foi o máximo. Eu me senti em casa e muito feliz por estar perto das pessoas que mais me ajudaram para chegar até a Fórmula Indy. A receptividade do público foi maravilhosa, os fãs vibraram o tempo todo e nem quando a chuva interrompeu a corrida por um tempo eles foram embora.

GE.Net: Após a cisão com a CART (atual Champ), a Fórmula Indy teve apenas um campeão brasileiro: Tony Kanaan, em 2004 (considerando os anos anteriores quando a categoria era unificada, o Brasil tem o título de Emerson Fittipaldi, em 1989). Você acha que o país tem chance de conquistar a primeira colocação nesta temporada?

Bia Figueiredo: Claro que tem. O Tony e o Helio estão sempre brigando pelo título, mas sem dúvida a categoria tem ficado mais competitiva a cada ano. Os dois estão nas melhores equipes e se fizerem um campeonato regular, com muitos pódios e vitórias, têm grandes chances de levar a taça.

GE.Net: Raphael Matos foi o 'estreante do ano' em 2009. Você, que já correu com ele, acha que ele é o futuro do Brasil na Fórmula Indy?

Bia Figueiredo: Sem dúvida o Raphael Matos é um grande talento. Brigamos pelo titulo da Firestone Indy Lights em 2008, quando ele foi campeão. Acredito que eleseja um dos futuros brasileiros campeões da Fórmula Indy.

GE.Net: Quais são seus favoritos para a temporada de 2010? O australiano Will Power, líder do campeonato com duas vitórias e 190 pontos, já é o alvo a ser batido?

Bia Figueiredo: Não tenho favoritos. O título deve ser decidido entre as equipes Penske, Ganassi e Andretti. O Will Power mostrou grande força nos circuitos mistos e de rua, mas nos circuitos ovais é uma incógnita. O campeão da temporada tem que ser competitivo em todos os tipos de circuitos.

GE.Net: Você tem amizade com os outros brasileiros? Você se espelha em algum deles?

Bia Figueiredo: Falo com todos os pilotos brasileiros. Eu me espelho em todos, mas o Helio Castroneves e o Tony Kanaan são os pilotos brasileiros mais vitoriosos na Indy e são grandes campeões.

GE.Net: O que você acha da volta por cima de Castroneves, que enfrentou problemas com o Fisco Norte-americano, em 2008?

Bia Figueiredo: O Helio conseguiu dar a volta por cima. Comprovou-se que ele era inocente e ele venceu pela terceira vez as 500 Milhas de Indianápolis logo depois. (Castroneves venceu o famoso circuito oval em 2001, 2002 e 2009)

GE.Net: Você pretende, um dia, correr a Fórmula 1? Quais são as principais diferenças entre as duas categorias? Você tem apenas 25 anos, quais são seus planos?

Bia Figueiredo: Meus planos hoje são me estabelecer e evoluir na Fórmula Indy. Amo correr nos Estados Unidos e gostaria de fazer uma grande carreira aqui. Mas como sou apaixonada por carros, se chegasse uma proposta da Fórmula 1 eu iria analisar com carinho. A Fórmula Indy é mais focada na competição e no show. Os carros são iguais e só muda o acerto deles. A Fórmula 1 é puro desenvolvimento, e às vezes o show fica de lado, pois a diferença de equipamentos é muito grande.

GE.Net: Por falar em F-1, quem você acha que levará o título desta temporada? Como você vê a volta do heptacampeão Michael Schumacher?

Bia Figueiredo: Acho que o titulo será decidido entre o Sebastian Vettel, o Lewis Hamilton, o Jenson Button e o Fernando Alonso. Torço para que o Felipe Massa entre nessa briga também. Adorei que o Michael Schumacher voltou e, apesar das dificuldades iniciais, acredito que ele vá vencer uma corrida esse ano.

GE.Net: E por que você acha que a principal categoria do mundo não tem uma mulher sentada em um cockpit? (A Fórmula 1 já teve experiências, contudo nenhuma conquistou grandes resultados. A última foi a italiana Gioavanna Amati, em 1992)

Bia Figueiredo: A Fórmula 1 quer uma mulher, mas não está preparada para receber essa mulher. Há poucas mulheres nas categorias de base europeias, então são poucas as chances para as mulheres tentarem chegar lá. O europeu ainda tem uma cabeça muito fechada e um pouco machista também. Por que a McLaren não investe em uma mulher como investiram no Lewis Hamilton desde o kart? Isso é fundamental.

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