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Big riders comparam ondas grandes à F-1

Big riders comparam ondas grandes à F-1

Atualizado: Sábado, 26 Março de 2011 as 9:40

Há uma semana, Carlos Burle, 43 anos, foi varrido por uma onda quando surfava em Pe'ahi, pico havaiano mais conhecido como Jaws. Mesmo debaixo da espuma e engolindo água, estava consciente. Sabia que, se não respirasse nos próximos dez segundos, ficaria por ali mesmo.

- Voltei na última hora, azul. Ninguém está imune.

Dias depois, o havaiano Sion Milosky passou por situação parecida, mas não conseguiu voltar. Morreu em Mavericks, na Califórnia, depois de pegar as seis melhores da tarde. A notícia da morte doeu como uma onda na cabeça e fez com que os big riders ligassem o sinal de alerta.Todos têm noção do perigo que correm toda vez que largam suas casas e vão atrás de grandes ondulações. Burle, sua parceira, Maya Gabeira, e Eraldo Gueiros comparam o surfe de ondas gigantes à Fórmula 1, categoria em que a tecnologia tenta diminuir o risco de morte. No mar, depois da tragédia em Mavs, as remadas aceleram ainda mais nessa direção. Roupas infláveis e equipes de resgate viraram palavras-chaves.Boa parte dos surfistas acredita que, se houvesse mais jet-skis de socorro naquela tarde em Mavs, a morte de Sion poderia, sim, ter sido evitada. Em janeiro, no mesmo pico, o americano Jacob Trette foi levado ainda com vida a um hospital. Chegou a entrar em coma, mas se recuperou.

O havaiano Mark Foo, considerado um dos maiores mestre das ondas gigantes, não teve a mesma sorte. Em 1994, ele desapareceu depois de enfrentar um paredão em Mavericks. Naquela época, a preocupação com a segurança era pouca, quase inexistente.

- A gente tem a F-1 como exemplo. Morria muito mais gente nas pistas antigamente. Mas foram desenvolvendo carros mais seguros, macacões, novas técnicas de resgate - diz o pernambucano Burle.

No tow-in, os perigos são bem menores do que no surfe de remada. Ao entrar na onda em alta velocidade, rebocado por jet-ski, o surfista tem menos risco de ser engolido pela espuma e, caso seja, é rapidamente resgatado pelo parceiro. Além disso, por não precisar remar, pode usar dois coletes salva-vidas.

O problema é que, para desafiar cada vez mais os limites, os big riders têm deixado o jet na areia. E nem sempre é possível controlar a ansiedade diante de uma grande ondulação.

- Não existe evolução no esporte sem se arriscar. Todo mundo quer tentar manobras mais radicais, ficar mais tempo dentro do tubo. Quem tem mais agilidade e coragem se destaca. Recebemos muita descarga de adrenalina. Se o surfista não consegue racionalizar, fica à mercê das emoções e põe a vida em risco - conta Burle.

Burle e Eraldo ajudam a desenvolver novos equipamentos de segurança

Eraldo Gueiros foi um dos primeiros surfistas a entrar na onda da segurança. Desde suas primeiras sessões de surfe em Jaws, passou a trabalhar no desenvolvimento de coletes mais finos. Para não atrapalhar a remada, a roupa de borracha não pode ter muita textura no peito, por exemplo. Nas costas, pernas e braços, justamente o contrário. Essas áreas são as mais atingidas nas quedas.

- O surfe ainda é desorganizado. Surfista quer ir no peito e na raça. Tem que partir para um lado mais profissional. Tem que ter equipamentos, como acontece na moto e F-1. Eles têm capacete, proteção no pescoço. Se você quer aumentar o tamanho da onda que pega, tem que aumentar a estrutura. O corpo humano não aguenta. Se pudessem criar uma armadura para proteger mais os membros, seria ótimo - disse Eraldo.

O objeto de desejo dos surfistas agora é uma roupa flutuante que conta com um tubo de gás para inflá-la. O havaiano Shane Dorian, mestre de ondas grandes, estava com uma dessas em Jaws, dividindo as séries com Burle. De volta ao Brasil, o pernambucano vai dar a sugestão à empresa que o patrocina.

- É como se fosse um pino de emergência. Quando puxa o tubinho, a roupa infla. Aí a pessoa volta à superfície e consegue ser resgatada mais rapidamente - explica Burle.

Carlos Burle é um dos cinco atletas que ajudam a organizar o Circuito Mundial de ondas grandes. Lá, os atletas têm seguro saúde, de vida, contam com equipe de resgate à disposição e são obrigados a usar equipamento de segurança. Um primeiro passo para profissionalizar o esporte. A premiação por etapa é de US$ 50 mil (cerca de RS$ 80 mil).

- Quem tem menos recursos é exposto a mais riscos - diz Maya Gabeira, tetracampeã do Billabong XXL e uma das poucas surfistas que contam com apoio de peso de patrocinadores.

Apesar de toda a experiência no surfe ondas grandes, de ter visto conhecidos morrerem no mar, Burle arriscou surfar, naquela tarde em Jaws, sem a ajuda de uma equipe de resgate.

- A gente usou uma âncora para prender o jet-ski. Foi um dia complicado. Até demorei a contar o que realmente houve para minha esposa - disse o pai de Reno, de 1 ano.

Globo Esporte

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