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Brasil Afora: dois anos após tragédia, Brasil-RS pode voltar à elite gaúcha

Brasil Afora: dois anos após tragédia, Brasil-RS pode voltar à elite gaúcha

Atualizado: Quarta-feira, 15 Junho de 2011 as 9:36

O verão de 2009 parecia promissor. As perspectivas eram as melhores, e o clima em Pelotas, no Rio Grande do Sul, era de que finalmente os ‘Xavantes’ voltariam a incomodar no cenário gaúcho. A contratação do goleiro Danrlei, ex-Grêmio, Atlético-MG e Fluminense, parou a cidade, e sua apresentação, em uma loja de materiais esportivos, atraiu centenas de pessoas. Como no roteiro de um filme, tudo parecia caminhar bem para o Brasil de Pelotas em janeiro daquele ano.

Mas uma tragédia na noite do dia 15 mudou e marcou para sempre a história do clube. Depois de uma vitória por 2 a 1, em um amistoso de preparação contra o Santa Cruz-RS, que terminou em pancadaria envolvendo o goleiro Danrlei, o ônibus que levava a delegação do Brasil de Pelotas de volta para casa despencou de um barranco de aproximadamente 50 metros num trecho conhecido como ‘Curva da Morte’, na cidade de Canguçu. O acidente causou a morte de um dos maiores ídolos da história do clube, o meia-atacante uruguaio Claudio Milar, além do zagueiro Régis Gouveia Alves e do treinador de goleiros Giovani Guimarães. Outros dez integrantes ficaram feridos, entre eles o volante Edu, ex-Grêmio, que perdeu parte da coxa direita e teve de encerrar precocemente a carreira de jogador de futebol.

Velório das vítimas no estádio Bento Freitas: tragédia deixou graves sequelas no clube (Foto: AP)

  Após o acidente, uma sequência de adversidades culminou no naufrágio do clube. Primeiro, foi a queda para a Série B gaúcha. Em seguida, uma campanha pífia na Segunda Divisão em 2010, quando o Brasil de Pelotas – primeiro campeão gaúcho – sequer passou da fase inicial da competição. Hoje, o Brasil, com um time sem craques, luta às duras penas para voltar à elite do futebol gaúcho. Na atual temporada, a situação melhorou um pouco, mas segue delicada. Nesta quarta-feira, o clube tem uma noite decisiva para suas pretensões na competição.

Na segunda colocação da Chave 1, com dez pontos, a equipe visita o líder Brasil de Farroupilha, no estádio Castanheiras. É o último jogo do Rubro-Negro na fase. Uma vitória garante matematicamente a vaga. Em caso de tropeço, o Brasil de Pelotas terá de torcer por uma combinação de resultados na última rodada, mesmo sem entrar em campo. Apenas dois clubes por grupo avançam às semifinais. Apenas dois subirão para a elite gaúcha.

Apesar de a situação ainda ser pra lá de delicada, os Xavantes só dependem das próprias pernas para avançar. Isso só é possível devido ao camisa 10, Athos. O meia carioca, hoje, é o que a torcida tem de mais próximo de um ídolo. No último sábado, marcou os três gols da vitória por 3 a 1 sobre o União Frederiquense e levou o estádio Bento Freitas abaixo.

- O Brasil de Pelotas teve toda uma situação. Havia um grande ídolo, que infelizmente faleceu. A torcida está necessitando de alguém. Graças a Deus tenho recebido o carinho dos torcedores nos jogos, nas ruas. Nos treinos, as crianças querem falar comigo. Isso tudo é muito legal. Nunca tinha passado por isso. Estou muito bem no clube, e minha família está adaptada à cidade. É uma torcida maravilhosa, que não merece tudo o que vem passando - disse o novo candidato a ídolo xavante.

Athos chora ao marcar seu terceiro gol no sábado. Brasil mais perto de volta à elite (Foto: Divulgação/Site Oficial)

  Saúde financeira prejudicada

O péssimo desempenho dos últimos anos nos gramados também trouxe sérias consequências nas finanças do clube. Patrocinadores, sem interesse na Segunda Divisão, pagam menos. Sem dinheiro, os poucos destaques da equipe foram embora.

- É óbvio que a arrecadação na Série B é bem menor. Não recebemos as cotas de TV, e os patrocinadores têm um interesse menor. Não falo em valores, mas hoje arrecadamos mais ou menos 30% do que arrecadaríamos na Primeira Divisão – lamentou o presidente do clube, André Araújo.

A busca por um patrocinador forte, aliás, é o principal objetivo neste momento. No dia 7 de setembro, o Brasil de Pelotas completa 100 anos e quer presentear sua torcida com o acesso à Segunda Divisão nacional. Na Série C deste ano, o time está no Grupo D ao lado de Caxias, Chapecoense, Joinville e Santo André. O primeiro reforço para a competição já foi anunciado. Marcos Denner, ex-Flamengo, acertou nesta semana. O jogador não poderá disputar a reta final da Série B gaúcha.

- Estamos buscando um patrocínio. Queremos estar entre as 40 melhores equipes do Brasil em 2012 – revela o dirigente.

Sem dinheiro para contratar nomes de peso, o Brasil de Pelotas conta com o apoio da torcida. No início do ano, a associação “Cresce Xavante”, formada somente por torcedores, recebeu como doação de uma empresa de transportes do Rio Grande do Sul um ônibus. O veículo foi doado ao clube no início da disputa da Segunda Divisão. A associação também ajudou a diretoria e fazer melhorias no estádio Bento Freitas.

- É claro que o interesse da torcida com o Brasil na Segunda Divisão é menor. Mas temos uma boa média de público nos jogos em casa (aproximadamente dois mil torcedores por jogo). Essa é uma característica da nossa torcida, sempre fiel e apaixonada - destacou André Araújo.

Ano para ser esquecido

Goleiro Danrlei encerrou a carreira pouco tempo

após a tragédia (Foto: Click RBS)

  Logo após o acidente, em janeiro de 2009, a Federação Gaúcha levantou a possibilidade de o Brasil de Pelotas não participar do estadual sem ser penalizado com rebaixamento para a Série B. Para isso, seria necessário que todos os demais clubes estivessem de acordo, o que não aconteceu.

- Fiquei sabendo que logo o primeiro clube procurado vetara a ideia. Então tivemos de jogar, mas também em função da assistência que teríamos de dar às famílias e feridos. Sem jogos, não teríamos patrocinadores e dinheiro para arcar com as despesas - recordou o dirigente.

Então, 19 dias depois do acidente, lá estava novamente o time do Brasil de Pelotas em campo, contra o Santa Cruz - o mesmo adversário da noite da tragédia. Desta vez, porém, era uma equipe abatida e desfigurada. E foi esse o panorama ao longo da competição, que culminou com o inevitável rebaixamento.

- Só quem esteve lá pode saber o que foi o pós-tragédia. A gente ainda teve que jogar de dois em dois dias, já que começamos o campeonato com uma semana de atraso em relação aos outros. Na primeira fase a gente não treinou, só jogava e sem estar 100%. Acredito que uns 40% dos atletas se machucaram no acidente. Cada partida que a gente fazia tinha uns três jogadores novos, que não conhecíamos, não sabíamos o nome... E no jogo seguinte já seriam titulares. Na hora você ficava sabendo “esse é o lateral, aquele é o centroavante” - relatou Danrlei, que chegou a participar de algumas partidas, mas logo depois resolveu encerrar a carreira e só fez um jogo de despedida pelo Grêmio, no final daquele ano.

- Joguei quatro, cinco jogos, mas acabei sofrendo logo depois uma lesão. Quando caiu a ficha de tudo o que aconteceu, decidi que não queria mais jogar futebol. Não tinha condições físicas e técnicas para isso.

Anos dourados

Mas se hoje os tempos de glória são escassos para o Brasil de Pelotas, o time já teve seus dias de sucesso. Na década de 80, incomodou os grandes Brasil afora. O ápice daquela geração aconteceu em 1985. Naquele ano, o clube gaúcho derrubou gigantes e terminou o Campeonato Brasileiro na terceira colocação. Pelo caminho, deixou times como o Flamengo de Zico que, comandado por Zagallo, tinha ainda Leandro, Mozer, Andrade, Bebeto, Adílio, entre outros.

- O lance do meu gol foi muito estranho. O Filol (goleiro argentino do Flamengo) saiu jogando errado, o Mozer recuou de cabeça e ele furou. Quando vi, estava na cara do gol e sem goleiro. Não acreditei... Colocamos na cabeça que era possível. Ninguém acreditava. O Flamengo era um time quase imbatível. Foi o maior jogo da minha carreira. Marcou muito, nos colocou no cenário nacional. O jogo passou para todo o Brasil e tive a felicidade de marcar o primeiro gol - recorda o atacante Bira, vice-artilheiro do Campeonato Brasileiro daquele ano, com 16 gols.    

A vitória por 2 a 0 sobre o Flamengo não só garantiu vaga nas semifinais como eliminou o time carioca e transformou os jogadores do Brasil de Pelotas em celebridades na cidade. A equipe, comandada por Walmir Loruz, só parou no Bangu, surpreendente vice-campeão naquele ano. Bira lembra como aquela competição mobilizou a cidade e dá os créditos da formação daquele time a um dos técnicos mais vitoriosos do futebol brasileiro.

- Não tínhamos nada a ver com o campeonato, mas nos tornamos grandes naquele ano. Parou toda a cidade, que realmente se mobilizou. O time foi formado em 1983 pelo Felipão, quando fomos vice-campeões gaúchos. No ano seguinte ele foi para os Emirados Árabes e entregou ao Valmir Loruz, que deu continuidade ao trabalho e realizou aquela campanha maravilhosa. Naquele momento, éramos grandes no Brasil.

Hoje no Palmeiras, Luiz Felipe Scolari lembra com carinho da passagem pelo Brasil de Pelotas.

- Foi um dos meus primeiros clubes como técnico, e fizemos um belo trabalho. Tenho muito carinho pelo pessoal de lá. É um clube forte, com uma torcida apaixonada e que torce só para o Xavante mesmo, não para Grêmio ou Inter. Aos poucos o clube vai se reerguendo com a ajuda dessa massa.

Outro treinador famoso que passou pelo Brasil de Pelotas foi Mano Menezes. O clube foi o segundo da carreira do atual técnico da Seleção Brasileira. A rápida passagem aconteceu em 2002.

Milar, um caso à parte

Milar: ídolo em vida e lenda após a morte (Divulgação )

  O acidente de 2009 ainda está vivo na memória dos Xavantes, mas as recordações de Cláudio Milar são ainda maiores. O ídolo uruguaio marcou época em Pelotas. Contratado em 2004 após várias passagens apagadas pelo futebol brasileiro - entra elas, uma pelo Botafogo, em 2001 -, o ex-atacante conduziu brilhantemente o Brasil de Pelotas ao título invicto da Segunda Divisão gaúcha logo em sua primeira temporada na equipe. Com 34 gols, tornou-se não só o artilheiro da competição, como também o maior goleador de uma única edição do torneio.

Identificado com a torcida, Milar costumava comemorar seus gols imitando um índio xavante com um arco e flecha. Constantemente, subia nos alambrados para celebrar seus tentos e triunfos com os torcedores. Essas atitudes o levaram a virar um mito na cidade. Tanto que tinha planos que envolviam sua permanência para quando encerrasse a carreira com a camisa do clube.

- Além de um grande jogador, ele era uma grande pessoa. Sempre foi muito identificado com o clube. O Milar falava que jogaria mais dois anos e se tornaria dirigente do clube, talvez presidente. Até hoje temos um sentimento de perda muito grande. Ele representava muito para nossos torcedores, que também representavam muito para ele. Hoje, os jogadores não têm identificação - ressaltou o presidente do Brasil de Pelotas.

Entre idas e vindas, em três passagens pelo Brasil de Pelotas, Milar marcou 109 gols.            

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