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Corinthians nasce com identidade nacional e oposição à elite paulista

Corinthians nasce com identidade nacional e oposição à elite paulista

Atualizado: Terça-feira, 17 Agosto de 2010 as 7:52

Há 100 anos, a esquina das ruas Cônego Martins e dos Imigrantes (atual José Paulino), no bairro do Bom Retiro, recebia as primeiras reuniões que deram origem ao Corinthians. Cinco operários - profissão mais comum naquela São Paulo de 1910 - tiveram a ideia de fundar um clube que fugisse da elite dominante na cidade, representada principalmente por Paulistano, Germânia e São Paulo Athletic. Na época, a capital paulista tinha pouco mais de 300 mil habitantes. Tais clubes eram muito identificados com colônias - alemã, no caso do Germânia, e inglesa, no caso do São Paulo Athletic. Por isso, a necessidade de um time mais "nacional" era latente. Joaquim Ambrósio e Antônio Pereira, pintores de parede, Rafael Perrone, sapateiro, Anselmo Correia, motorista, e Carlos Silva, trabalhador braçal, foram os responsáveis pela iniciativa. Após discutirem o possível novo clube em alguns encontros, eles fundaram oficialmente o Corinthians à luz de um lampião. Entusiasmados, chamaram a nova instituição de "time do povo" e foram oficializar o acontecimento em um salão de barbearia. Nascia ali um gigante.

O dono da barbearia, na esquina das ruas Julio Conceição e dos Italianos, em São Paulo, era o imigrante italiano Salvador Battaglia. Seu irmão, Miguel, foi eleito primeiro presidente do clube no mesmo 1º de setembro da fundação. A ata da reunião que definiu toda a nova diretoria, teria sido feita no alto de uma palheta, e não em papel. Mesmo vindos da Europa, os irmãos Battaglia queriam um clube com identidade própria e bem brasileira.

O advogado José Luiz Battaglia, neto de Salvador, ressalta a importância que o avô teve no surgimento do Timão. Seja cedendo o espaço para as reuniões, seja contribuindo financeiramente.

- Meu avô era muito sortudo. Ganhou na loteria duas vezes na vida. Na primeira, deu um suporte para a fundação do Corinthians, ajudou em muita coisa para construir o clube. Ele e Miguel queriam criar identidade dentro do Brasil, mesmo tendo uma colônia por trás. Gostavam do país de origem, mas já eram brasileiros de coração - afirmou Battaglia. Salvador e Miguel moravam nos fundos da própria barbearia e travavam ali as discussões sobre o futuro do novo clube. Ajudaram a comprar a bola, ainda que Miguel tenha ficado apenas 15 dias na presidência do Corinthians. Depois, mudou-se para o interior paulista. Alexandre Magnani, fundidor, assumiu o cargo e só saiu em 1914.

Nos dois primeiros anos, o Timão atuou apenas na várzea. Outro italiano, Luiz Fabbi, foi o autor do primeiro gol da história corintiana, na vitória por 2 a 0 sobre o Estrela Polar, segundo jogo do novo clube.

A partida inaugural do Corinthians ocorreu na Várzea da Lapa, contra um time do bairro, o União Lapa. A equipe da zona oeste de São Paulo era uma das mais respeitadas no meio varzeano e encontrou dificuldades para vencer por 1 a 0. A derrota pelo placar mínimo foi motivo de festa no Bom Retiro. O Timão entrou em campo com Valente, Perrone e Atílio; Lepre, Alfredo e Police; João da Silva, Jorge Campbell, Luiz Fabbi, César Nunes e Joaquim Ambrósio.

Conservação precária

Hoje, a esquina da José Paulino com a Cônego Martins peca no quesito conservação. Discreto, um pequeno obelisco sem qualquer inscrição marca o local de fundação do Corinthians. Segundo funcionários que trabalham na região, o vandalismo é recorrente toda vez que se tenta dar nova vida ao monumento histórico. Placas comemorativas já foram anexadas à obra, mas todas foram roubadas, segundo relatos dos trabalhadores locais.

As calçadas, sujas de papeis de propaganda de lojas do Bom Retiro, também estão mal conservadas. Quem passa por ali mal nota o obelisco, que hoje é motivo até de reclamação por quem caminha na quase sempre lotada José Paulino.

- Realmente está atrapalhando, na verdade eu nem sabia que tinha a ver com o Corinthians - afirmou uma vendedora, que trabalha na loja que fica bem na esquina histórica.

A subprefeitura da Sé, responsável pela região, não prevê obras para revitalizar o lugar.

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