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Diferenças e semelhanças entre Cielo e Bolt, os mais rápidos do mundo

Diferenças e semelhanças entre Cielo e Bolt, os mais rápidos do mundo

Atualizado: Terça-feira, 7 Dezembro de 2010 as 9:34

Quando apontam para o alto, as palavras se tornam desnecessárias. As mãos ganham voz e parecem avisar: eles vão "voar". O gesto de Cesar Cielo tem relação com fé, busca de força extra no momento que antecede a prova. O de Usain Bolt, com confiança e procura por relaxamento. Um repete o ritual com semblante fechado e, mesmo que não tenha a intenção, intimida os adversários com os tapas que dá pelo corpo antes de cair na água. O outro parece dar de ombros para quem está na raia ao lado. O sorriso sempree precede um gesto novo, que mexe com os concorrentes e leva ao delírio os estádios. Poucos segundos depois, a festa termina com sua dança símbolo.

Donos de personalidades distintas, um sério e outro brincalhão, brasileiro e jamaicano têm em comum o fato de serem os homens mais rápidos de todos os tempos na piscina e na pista. Há dois anos, fazem parte dos pensamentos diários de seus rivais. E chegar à frente deles passou a valer tanto quanto uma medalha. Com a pressão como companheira, a saída foi encontrar uma forma de conviver da melhor maneira possível com ela. A externa incomoda vez ou outra, quando invade a vida privada e o anonimato volta a ter seu valor. Mas a vontade passa com a mesma velocidade que Cielo e Bolt imprimem quando estão em ação. É a cobrança pessoal que precisa ser controlada.

Para quem faz da disputa contra o relógio um exercício diário, é pela manhã, na hora de sair da cama, que os ponteiros parecem andar mais rapidamente. Nesse momento, a vontade é de se deixar bater com a mesma facilidade com que qualquer pessoa poderia vencê-los em outras atividades. Cielo pode ser superado no futebol, terreno em que Bolt se arrisca e não faz feio. Só que entre panelas... O jamaicano não tem dotes culinários nem boa relação com mar e afins, depois de quase ter se afogado num rio na infância. Esses são alguns dos poucos limites que os dois parecem conhecer aos 20 e poucos anos.

Em entrevista ao GLOBOESPORTE.COM, os homens mais rápidos do planeta responderam sobre os mesmos temas e puderam fazer uma pergunta para o outro. Cielo direcionou a sua para as brincadeiras que Bolt costuma fazer minutos antes das disputas. Quis saber se ele é assim o tempo inteiro ou apenas nas competições.

- Eu não pratico isso nos treinos. Gosto de ficar relaxado antes de uma corrida. Eu só faço o que vier na minha mente - disse Bolt.

O velocista pretende seguir assim por mais seis anos, tempo suficiente para disputar os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Se o brasileiro também pretende treinar até 2016?

- Vou nadar e espero ser competitivo. Meu foco, no momento, claro que é ser bem rápido nas Olimpíadas de Londres, em 2012. Mas vou estar com 29 anos nos Jogos do Rio. Acho que para nadar os cinquentinha dá! Bom, tem por aí alguns exemplos de nadadores que foram ao pódio com mais idade do que a que eu terei em 2016. O Gary Hall ganhou aos 28 anos e repetiu aos 32. Acho que vou nadar bem os 50m livre, sim. Te encontro em 2016? - indaga o nadador.

No que depender dos planos de Bolt, confirmados em agosto deste ano, o adeus será mesmo no Brasil.

GLOBOESPORTE.COM: O que você consegue fazer em 9s58 (recorde mundial de Bolt nos 100m rasos) / em 20s91 (recorde mundial de Cielo nos 50m livre)?

Cesar Cielo: É tão pouco... Se for na piscina dá para nadar 25m. Fora dela, nada.

Usain Bolt: Eu posso correr 200m e provavelmente um pouco mais. Talvez 210, 215m.

Quando você não é rápido?

C.C: Na hora de fazer escolhas. Analiso prós e contras e penso muito. Foi assim com relação ao Mundial de Dubai.

U.B: Para me levantar da cama pela manhã.

O que sabe sobre Usain Bolt / Cesar Cielo?

C.C: Eu gosto dele. Mas acho muita loucura brincar antes da prova. Se fosse do atletismo, eu ia ficar muito p da vida se ele fizesse as brincadeiras do meu lado. Já tinha dado um jeito na natação (risos).

U.B: Que ele é rápido na água e também ganhou o ouro em Pequim.

Em que atividade é facilmente batido?

C.C: No futebol. É uma piada, passo vergonha. Não jogo para não dar chance de ganharem de mim.

U.B: Na cozinha.

Como lida com a pressão? Está preparado para, um dia, perder a condição de número 1?

C.C: A pressão interna é mais forte do que a externa. Dessa última eu consigo me desligar quando a prova está chegando. O que eu quero é mostrar para mim que eu posso fazer. Mas sei que tudo tem que ser dosado. A influência de ser o número 1 sobre mim é buscar mais meus objetivos nos treinos e outros mais audaciosos nas competições.

U.B: A única pressão é a que você coloca em si mesmo. Eu nunca tomo nada como garantido, como certo, e sei que todos os outros atletas estão treinando duro para se tornarem o número 1.

Qual foi a melhor lição ou o melhor conselho que já recebeu?

C.C: Não tem melhor. O mais importante eu mesmo concluí: a busca no esporte é pela perfeição e não pelo ouro. Ele acaba vindo com consistência e dedicação.

U.B: Meu técnico me disse uma vez que você tem que aprender como perder, para então saber como vencer.

Quando não é bom ser Cesar Cielo/ Usain Bolt? Sente falta de ser anônimo de vez em quando?

C.C: Às 6h30m não é nada bom. É a hora que acordo para treinar e de enfrentar uma piscina gelada. Não vou mentir, em 75% das vezes sinto falta do anonimato. É legal o reconhecimento depois que você ganha o ouro numa Olimpíada. Sabia que não ia continuar do mesmo jeito, mas me sinto incomodado quando saio com amigos e as pessoas olham para a mesa para ver se estou bebendo, por exemplo. A gente perde um pouco a privacidade.

U.B: Na maioria das vezes é bom, exceto quando você quer fazer algo sem que ninguém saiba.

Do que tem medo?

C.C: De agulha. Odeio fazer exame de sangue. Também tenho medo de ter uma lesão, por descuido ou exagero de treino, que não me deixe levar a carreira do jeito que levei até agora.

U.B: Eu não tenho medo de muitas coisas.

Tem alguma mania ou superstição?

C.C: Sou supermetódico com as coisas. Gosto de cuidar do meu material de natação. Ninguém encosta nas minhas coisas. Se faltar algo, atrapalha o treino desde o começo. Em competição arrumo a bolsa duas vezes por dia porque não gosto de ter imprevisto. O Andre Agassi (ex-tenista profissional) tinha algo assim de também não deixar ninguém carregar ou tocar na bolsa de raquetes dele.

U.B:Não, não sou supersticioso.

Como quer ser lembrado?

C.C: Como um bom atleta, que tentou o estilo de vida de fazer coisas certas. Quando eu olhar para trás quero ver que consegui chegar onde achava que era o limite do meu corpo.

U.B: Gostaria de ser lembrado como uma lenda no esporte - alguém que fez as pessoas gostarem de assistir ao atletismo.

Por: Danielle Rocha

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