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'Dinossauro' como Ceni, Harlei mostra alegria de menino e bota fé no Goiás

'Dinossauro' como Ceni, Harlei mostra alegria de menino e bota fé no Goiás

Atualizado: Quarta-feira, 20 Abril de 2011 as 10:18

Além de ser o início da disputa por uma vaga nas quartas de final da Copa do Brasil, a partida desta noite, entre Goiás e São Paulo, no estádio Serra Dourada, pelas quartas de final da Copa do Brasil, chama a atenção por causa de um duelo incomum. Nos dias de hoje, em que jogadores trocam de time a toda hora, os goleiros Harlei, do time esmeraldino, e Rogério Ceni, da equipe paulista, podem ser chamados de peças em extinção. Afinal, defendem seus clubes há 12 anos. Tal marca só é alcançada também pelo palmeirense Marcos que, no entanto, sofre com as lesões e pouco tem atuado.

Goleiro está preparado para o jogo desta quarta, contra o Tricolor (Foto: Marcelo Prado / GLOBOESPORTE.COM)

  Harlei não esconde a alegria em ser chamado de dinossauro do futebol. Revelado pelo Cruzeiro, onde começou a jogar aos nove anos, ficou lá por 16 temporadas. Cansado de ser reserva, fez um acordo com o então presidente Zezé Perrella e ganhou o passe. Na sequência, foi para o Comercial de Ribeirão Preto, para o Vila Nova (GO) e, em 1999, chegou ao Goiás para escrever a história mais bonita de sua carreira.

Nessa entrevista concedida ao GLOBOESPORTE.COM, o camisa 1 fala de sua carreira, mostra a tristeza pela proximidade da aposentadoria e diz que dará um grande abraço em Rogério Ceni assim que entrar em campo.

GLOBOESPORTE.COM – É possível dizer que o Rogério está para o São Paulo assim como o Harlei está para o Goiás?

Harlei – A história de fidelidade, de amor por um clube, sem dúvida nenhuma. Hoje eu tenho a mesma paixão pelo Goiás que o Rogério tem pelo São Paulo. Em termos técnicos, não. O Rogério, sem dúvida nenhuma, é o maior atleta do futebol mundial nessa posição. Além de tudo que fez e conquistou pelo seu clube, é um goleiro excepcional debaixo das traves e marcou 100 gols na carreira. Isso é realmente uma coisa incrível.

Hoje, vocês dois, além do Marcos, podem ser consideradas peças em extinção. Afinal, vestem a camisa do mesmo time faz muito tempo. E, observando o seu treinamento, aos 39 anos, espanta a sua alegria e vontade mostrada em campo. De onde você tira isso?

Tenho muito prazer no que eu faço. Peço muito a Deus para prolongar minha carreira. Hoje meus filhos começam a entender o que eu faço. O Leandro, que tem 11 anos, me acompanha na concentração, vem aos treinos. Ele está na escolinha do clube. No ano passado, quando meu contrato estava prestes a acabar e eu pensava se deveria falar, ele me pediu emocionado: "papai, continue. Agora que está gostoso eu não quero que acabe." Isso me dá muita força. Amo o Goiás, amo a cidade de Goiânia, e cada vez que venho treinar é com muita alegria.

É inevitável pensar na hora de parar. Como você administra isso?

Sem duvida, será um sofrimento muito grande. Quando você para e pensa no último dia ou como será o dia seguinte, a reflexão dói demais. Mas já estou preparando a minha cabeça para que tudo esteja no seu lugar. O vínculo e o amor com Goiás não morrerão nunca porque meus amigos de verdade estão aqui. Mas vai ser bastante doído.

Goleiro impressiona pela vontade mostrada nos treinos (Foto: Marcelo Prado / GLOBOESPORTE.COM)

  Dentro desses 12 anos de Goiás, você conquistou títulos, perdeu decisões, viveu de tudo. Qual o momento mais feliz de sua carreira?

Sem dúvida nenhuma, foi em 1999, quando tinha acabado de chegar. Fiquei na reserva alguns meses e virei titular com o Hélio dos Anjos na parte final do Campeonato Brasileiro da Série B. E conseguimos o acesso com uma vitória por 1 a 0 sobre o Vila Nova. Estádio cheio, nunca vou esquecer aquela festa.

E o momento mais triste?

Foi o rebaixamento no ano passado. Perdemos por 4 a 1 e foi decretado que não tínhamos mais chances. Nenhum atleta gosta de passar por isso. São percalços que todo atleta enfrenta. Não joguei boa parte do campeonato por causa de uma lesão no cotovelo e, quando voltei, após 14 rodadas, o time já estava em 17º. É muito difícil porque o rebaixamento vai te matando aos poucos, as rodadas passam e você não reage. E demora um ano para você ter a chance de recuperar. Quando você vê o clube que você ama e tudo que você construiu morrer aos poucos, dói demais.

E a perda do título da Sul-Americana?

Doeu muito, principalmente porque eu sei que dificilmente terei uma chance de conquistar um título de expressão como aquele. Meu contrato vai até dezembro de 2012 e não tem como o Goiás disputar um torneio internacional no ano que vem. Até por isso, eu lembro que falei sobre isso na preleção aos meus companheiros antes de entrarmos em campo na Argentina. Disse que minha carreira já estava perto do final e que seria importante conquistar a Sul-Americana, até para marcar ainda mais o nome na história do clube. Tentamos, lutamos, mas não foi possível.

Após o final do coletivo, o goleiro ainda sofreu com o preparador (Foto: Marcelo Prado / GLOBOESPORTE.COM)

  O Rogério também vai parar em 2012.

Ótimo, vamos parar juntos. Mas um motivo para trabalhar com vontade até lá.

O confronto contra o São Paulo lhe traz uma lembrança positiva e uma negativa.

Sem dúvida. Em 2003, enfrentamos o São Paulo pela Copa do Brasil. Empatamos no Serra Dourada por 0 a 0 e, no Morumbi, seguramos o 1 a 1. Como empate fora de casa tem peso dobrado, conseguimos a classificação enfrentando um adversário que tinha Kaká, Rogério Ceni, Luis Fabiano, Ricardinho. Mas no jogo de ida, em Goiânia, meu exame antidoping deu positiva para o uso de furosemida, uma substância que faz perder peso. Os exames mostraram uma quantidade absurda na minha urina. Foi muito difícil de aceitar porque não tinha essa substância nem no clube e nem na minha casa. Cumpri quatro meses de suspensão. Foi um momento bastante complicado.

O que dá para esperar do seu Goiás contra o São Paulo?

Um time valente, que vai correr muito e vai vender caro todo o resultado. A nossa garotada tem muita valentia. Não temos estrelas, não temos ninguém que faz a diferença. Mas o coletivo é forte e dá para sonhar com a vaga. O São Paulo continua forte e tudo é feito da maneira como sempre está acontecendo no futebol. O Santa Cruz, na fase anterior, ganhou do São Paulo e não podemos deixar de acreditar.      

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