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Discípulo de 'São Marcos', santista Rafael sonha conquistar a América

Discípulo de 'São Marcos', santista Rafael sonha conquistar a América

Atualizado: Segunda-feira, 30 Maio de 2011 as 10:09

A um empate de alcançar a final da Taça Libertadores com o Santos, Rafael faz questão de lembrar o passado para se animar com o futuro. Evangélico, o goleiro se agarra ao louvor "Grandes coisas vão acontecer nesse lugar" para se sentir ainda mais confiante em seu trabalho. Ele também procura se lembrar sempre da campanha difícil que a equipe amargou na fase de grupos da competição. E se apega ainda à espera que viveu no clube praiano até se tornar titular do time principal - foram quatro longos anos desde a chegada ao juvenil.

Rafael também se recorda de quando tinha apenas 9 anos, em 1999. Foi naquela edição da Libertadores que decidiu ser goleiro. Sua inspiração: as defesas de Marcos, pelo Palmeiras.

- Ele fechou o gol naquela Libertadores. Pegou demais e espero que neste ano eu consiga ser campeão também. Ele foi a minha inspiração de continuar no gol. Naquela época, passou um monte de coisas na minha cabeça. Eu era criança e o via fazendo tudo aquilo. Marcou muito – disse o camisa 1 santista.     Um dia depois de ter vencido o Cerro Porteño por 1 a 0, pela primeira semifinal da Libertadores, Rafael aceitou o convite do Globoesporte.com para uma sessão de fotos no Memorial da América Latina. O ponto turístico, na zona oeste de São Paulo, conta a trajetória da libertação da América Latina da colonização espanhola. História que inspirou a criação do torneio continental da Conmebol. E que remete o goleiro santista, que é muito religioso, ao louvor “Grandes coisas vão acontecer nesse lugar”.

Para chegar ao tal lugar, o topo da América, o Santos precisa apenas empatar nesta quarta-feira com o Cerro Porteño, no Paraguai. Na outra semifinal, o Velez Sarsfield recebe na Argentina o Peñarol. O time uruguaio venceu a primeira partida por 1 a 0.

- Sonho todos os dias que, aos 21 anos, posso ter três títulos pelo Santos: Copa do Brasil (2010), Paulista (2011) e a Libertadores. Mas não vai ser fácil.

Rafael é fã de Marcos, mas rejeita rótulos como Santo ou Salvador (Miguel Schincariol / Globoesporte.com)

  GLOBOESPORTE.COM: Quando começou a ser goleiro?

Rafael: Aos 6 anos. Comecei na linha e em um jogo de salão meu time precisou de um goleiro. Fui para o gol e dei sorte, goleiro tem de ter um pouco disso. A bola batia em mim, peguei para caramba e o treinador acabou não deixando parar. A bola voava, batia em mim, eu saia de peito nos caras, achava “da hora”.

Você perdeu a sua mãe muito cedo, aos 13 anos. Como foi este momento da sua vida?

Foi um baque. Ela falava que ia fazer uma cirurgia, que não era nada demais. Ela tinha câncer, tirou um rim, mas já estava na corrente sanguínea. Por mais que a pessoa esteja doente, nunca estamos preparados (para a perda). Logo depois que ela morreu, fui jogar nas categorias de base do Bahia. Fui morar sozinho com essa idade, mas isso fez com que eu amadurecesse mais rápido. Ela sempre dizia que eu podia jogar bola, mas tinha de estudar. Completei o segundo grau e depois decidi fazer faculdade de Educação Física porque era quarto goleiro do Santos e não viajava com o time. Hoje, quando vejo um estádio lotado e a torcida gritando o meu nome, me lembro da minha mãe.

Você chegou ao Santos em 2006. Em maio de 2010, virou titular. Como foi?

Foi uma opção do Dorival Júnior (ex-técnico do Santos), a duas rodadas do Brasileiro para a parada da Copa do Mundo. Na época, o Felipe ficou triste, o que é normal. Mas ele sempre me tratou bem, nós íamos para a faculdade juntos e conversávamos bastante. A briga é sadia, independentemente de quem está jogando. Meu primeiro jogo foi contra o Cruzeiro (0 a 0) e me saí bem. Aí acabei ficando. Eu sonhava com essa oportunidade.

Você tem algum ídolo no futebol?

Ah, tenho o Marcos. Quando eu tinha 9 anos, ele fechou o gol naquela Libertadores (1999). Pegou demais e espero que esse ano eu consiga ser campeão também do título que o vi conquistar. Ele foi a minha inspiração de continuar no gol. Naquela época, passou um monte de coisas na minha cabeça. Eu era criança e o via fazendo tudo aquilo. Agora faz um ano que estou como titular do gol e posso conquistar meu terceiro título.

No 0 a 0 com o América do México, pelas oitavas de final da Libertadores, você fez pelo menos cinco defesas difíceis. Virou “São Rafael”?

Não me apego a esses rótulos. Não quero ser salvador ou santo, mas o goleiro do Santos que está ali para ajudar.     Esse jogo com o América-MEX foi o seu melhor pelo Santos?

Foi o mais importante porque o time não estava bem no jogo. Não jogamos como sempre fazemos, ventava demais e tivemos muitas dificuldades. Esses jogos da Libertadores são complicados porque vão poucas bolas para o gol. E as que vão são complicadas. Mas tive outros jogos marcantes, como a estreia (contra o Cruzeiro) e os jogos com o Vitória, pela final da Copa do Brasil.

Com o Muricy Ramalho, o sistema defensivo tem sofrido menos gols. Mas o ataque também tem marcado menos vezes...

Para nós tem de ser indiferente ganhar de um, três ou quatro. Temos de entrar sempre da mesma maneira. Não vamos entrar contra o Cerro Porteño agora para empatar ou perder de 1 a 0 para decidir nos pênaltis. Tem de ser sempre para ganhar. Nós pensávamos assim contra o América, vimos que estava difícil e nos posicionamos para não levarmos gols. É até bom ter vencido só por 1 a 0 no Pacaembu porque entraremos mais ligados no Paraguai. Se entrássemos com uma vantagem maior, poderíamos ficar desligados no jogo e, quando víssemos, o bicho já estaria pegando. Vamos entrar bem ligados para vencer e, se tudo der certo, vamos voltar classificados.

Desde que o Muricy assumiu o time, você sofreu apenas quatro gols em 13 jogos. O que mudou com o treinador?

Nós levávamos gols, mas o Durval e o Edu Dracena tiravam umas dez bolas cada um, enquanto eu fazia umas cinco defesas lindas. Mas levávamos dois gols. Venciamos, mas agora temos uma defesa menos vazada. Isso valoriza a defesa por causa dos números. Temos trabalhado menos nos jogos e isso é importante. O Muricy sempre ressaltou isso, que o time não marcava muito e confiava demais no individual para fazer os gols. Ele falou para esquecermos a arbitragem e, quem não marcar, ele tira do jogo. Com o nosso time pegando, fica difícil ganhar do Santos. Melhoramos na marcação e na responsabilidade. No jogo com o Cerro, apanhamos, o juiz inverteu algumas faltas, mas mantivemos a cabeça no lugar.

Como fica o lado emocional neste momento, tão perto de poder estar numa final da Libertadores?

Eu sou um cara tranquilo. Minha concentração é igual e o treinamento também. Todo jogo é importante, e o goleiro tem de provar a cada dia, independente da partida. Não estou ansioso para esse jogo no Paraguai, pois o que tiver de ser, vai ser. Temos de trabalhar e ter fé.

O Santos já sabe jogar a Libertadores?

Aprendemos a jogar. Depois do Colo Colo, o Tiago Leifert (apresentador do Globo Esporte em São Paulo) falou que tínhamos de aprender a jogar a Libertadores. Nós estávamos ganhando o jogo de 1 a 0 e demos três contra-ataques para eles. A nossa cabeça mudou, porque vimos que não basta técnica e qualidade, tem de ter vontade. A arbitragem é diferente. Os times de fora marcam muito, são obedientes taticamente. Você pode ver que no jogo com o Cerro eles marcavam em cima, o tempo todo. É difícil de ganhar. Tem de ter cabeça no lugar, quando dá para dar uma chegadinha, tem de chegar também. Quando não dá, não adianta ficar reclamando com juiz.

O goleiro sobre uma avenida da cidade de São Paulo (Foto: Miguel Schincariol / Globoesporte.com)       Seu status mudou com a melhora da defesa santista? Dá mais autógrafos agora?

O goleiro é sempre o menos procurado, mas eu até que já dava muitos autógrafos antes. Depois desses jogos isso aumentou. Mas acho que só mudou porque fazia tempo que o Santos não brigava por uma Libertadores.

Já se considera um ídolo?

Todo atleta quer ser ídolo e marcar a história do clube. Tem de ir passo a passo, com tranquilidade. O Dorival foi o primeiro a confiar em mim, trabalhei muito, melhorei com os outros treinadores. Tenho de confiar muito no meu trabalho, correr atrás e assim vem a segurança que pareço ter. Mas quero marcar mais minha história no Santos.

Você pensa em jogar logo na Europa?

Tenho sondagens do futebol europeu e isso é normal porque tenho passaporte comunitário. Mas não penso nisso agora. Mas meu pensamento é só no Santos, nesta Libertadores. Isso vai me marcar aqui. Depois temos a possibilidade de irmos para o Mundial, se passarmos o Cerro e vencermos a final. Tenho os pés no chão e ver o que posso conquistar ainda.

Um empate garante o Santos na final. Como vocês se sentem neste momento?

A cabeça está tranquila. Estamos a um empate da final, mas tem de ser campeão. Não adianta chegar e ser vice. Ninguém lembra. Sabemos que no Paraguai vai ser difícil e temos de entrar concentrados e confiantes. Desde as dificuldades que começamos a passar, percebemos que vencíamos a partidas e começamos a ficar com cara de campeão. Mas o futebol é em campo e temos de lembrar das dificuldades e lembrar que está cada vez mais próximo.

Existe alguma trilha sonora para esta fase que o Santos vive?

Tem um louvor que diz: “Grandes coisas estão por vir, grandes coisas vão acontecer nesse lugar”. Lembramos de algumas coisas. A defesa do Santos era criticada e antes da final do Paulista já falavam que era nosso ponto forte. Agora, na semifinal da Libertadores, continuam falando isso.

Rafael em ação pelo Santos. Sonho é a conquista da Libertadores (Divulgação / Site Oficial do Santos FC)            

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