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Ídolo de uma geração, Felipe quer conquistar nova safra de vascaínos

Ídolo de uma geração, Felipe quer conquistar nova safra de vascaínos

Atualizado: Sexta-feira, 30 Julho de 2010 as 9:26

Felipe foi revelado pelo Vasco em 1996. Conquistou os principais títulos de sua carreira defendendo a cruz de malta e se tornou ídolo da torcida. Após oito anos longe de São Januário, o camisa 6 voltou para retomar o reinado que deixou para trás em 2002. Com alguns cabelos brancos e um pouco mais calvo, uma cena chamou a atenção do apoiador em seus primeiros dias de treinos na Colina. Um menino de oito anos perguntou ao pai: "Qual é o nome desse jogador?". A questão não incomodou o maestro e ele sabe que a partir deste domingo, às 18h30m (de Brasília), ele terá a oportunidade de mostrar diante do Flamengo, no Maracanã, que os passes perfeitos e os dribles curtos estão de volta ao cotidiano vascaíno.

- O contato, desde que eu retornei, está sendo maravilhoso. Eles esperam que eu possa fazer tudo o que eu fiz no passado. Alguns mais jovens não me conhecem. Perguntam quem é aquele jogador ali. No início, quando eu cheguei aqui, eu estava trabalhando a parte física e uma criança perguntou quem eu era. O pai deu uma bronca e disse: “É o Felipe”. O pai pegou a minha época, mas o filho, de seis, sete anos, não. Acho engraçado e espero ajudar o Vasco nessa caminhada longa no Brasileiro - afirmou o apoiador, de 32 anos.

Em São Januário, atuando como lateral-esquerdo, ele conquistou dois brasileiros (1997 e 2000), uma Liberadores (1998), um Estadual (1998), um Torneio Rio-São Paulo (1999) e uma Mercosul (2000). Após a vitoriosa passagem pelo Gigante da Colina, o jogador rodou o país, defendeu Palmeiras, Atlético-MG, Flamengo e Fluminense e ainda distribuiu seus dribles marcantes no Galatasaray, da Turquia, e por cinco anos no Al Sadd, do Qatar.

Há pouco mais de um mês treinando com o restante dos companheiros, Felipe vai fazer o seu primeiro jogo após o seu retorno à Colina. Com contrato até dezembro de 2012, o apoiador conversou com o GLOBOESPORTE.COM às vésperas do confronto diante do Flamengo. Na conversa, ele admitiu estar em dívida com o Fluminense, comentou os motivos que o levaram a acertar com o Vasco e de seu estilo de driblar parado. Pedalada? Ele diz que jamais vai conseguir aprender.

GLOBOESPORTE.COM: O torcedor que viu você nos seus últimos anos no Brasil acostumou com o Felipe no ataque. Em qual posição você vai atuar no Vasco?

FELIPE : Tenho facilidade de me adaptar em várias posições. Mas tudo depende dos jogadores que você tem. Dos jogadores que foram contratados, o único que poderia jogar em mais de uma posição seria eu. O Carlos Alberto, o Zé Roberto e o Eder Luís teriam dificuldade de jogar em uma outra posição. Por eu ter trabalhado com o Luxemburgo na seleção, o PC fazer parte da comissão técnica, por eu já ter jogado na lateral esquerda, isso facilita modificar. Mas o meu jeito de jogar depende da posição em que eu for escalado.

F elipe retoma tradição de dar autógrafos na grade

de São Januário (Foto: Globoesporte.com)   Você é habilidoso e começou na lateral. Por que?

Na realidade, eu comecei no salão e quando eu fui para o campo não tinha a minha categoria. Pegaram muitos do salão para jogar no futebol de campo. Fui eu e o Pedrinho para o mesmo treino. Ele optou por atuar de meia esquerda e eu de ponta. Mas tinham uns dez pontas e nenhum lateral-esquerdo. Aí o treinador me colocou lá. Eu pensei: "está bom aqui mesmo".

Qual é a sua posição atualmente?

Sou meio-campo. Na época do Flamengo eu joguei de atacante devido à necessidade do Abel. Ele estava precisando de um jogador lá na frente, queria me dar mais liberdade e acabou me colocando no ataque. Característica de atacante eu não tenho. Não sou de fazer muito gol (pelo Vasco, ele fez apenas 20 gols em 265 jogos). Por um lado é ruim. Se eu jogar sem ser um meia ofensivo, sem liberdade para atacar, o torcedor pode achar que eu estou jogando mal. O torcedor precisa entender que dependendo da posição, eu não vou mostrar um futebol ousado e que todo mundo está esperando. Você precisa cumprir uma função tática, pensar na equipe e não apenas em você.

Anteriormente, você comentou que um garoto não te reconheceu em sua chegada ao Vasco. Você pensa após algumas boas atuações falar com essa garotada: "Prazer, eu sou o Felipe"?

Isso é normal. Todo mundo vai me conhecer pelo que eu fiz no futebol, pelo que eu pretendo continuar fazendo junto com os meus companheiros. Sabemos que o Brasileiro é difícil, o Vasco está reforçando, tem um elenco bom, esperamos conseguir objetivos grandiosos.

Por que você escolheu retornar ao Vasco?

Por eu ter começado aqui, o carinho da torcida. Foi o clube que me projetou. Sem dúvida eu quis retornar para o ambiente que eu tenho, de conhecer do porteiro ao presidente. Não que o meu ambiente nos outros clubes fosse ruim, mas não é comparável com o que eu tenho aqui. Quis voltar e muitas pessoas me criticaram porque o Vasco estava em uma situação ruim. Acreditei no projeto que o Rodrigo Caetano (diretor executivo) me mostrou, a vinda do PC também me motivou muito. Vamos ter dias felizes aqui em São Januário.

Você acha que é cobrado mais do que os outros jogadores?

Se eu sou o mais cobrado é sinal de que sou acima da média. Você nunca cobra uma pessoa que não pode. Tenho uma responsabilidade maior, mas isso também tem um lado bom: você faz contratos melhores. Isso me motiva, tanto que optei por voltar para o Brasil. Se quisesse continuar com uma vida muita tranquila, passiva, eu continuava no Qatar.

Esse foi um fator que te motivou no Qatar? Ser o craque do time era o que te motivava?

No Qatar, eu conquistei vários títulos. Mas lá, o futebol não é a paixão. O árabe não tem a paixão como tem o torcedor brasileiro. O árabe fica em casa, no ar-condicionado, e vê pela televisão. Ele não vai assistir, não vai torcer pelo seu clube, não grita o nome dos jogadores. O futebol lá está evoluindo, mas está bem longe de ser como no Brasil.

Felipe treina com o capitão Carlos Alberto na Colina

(Foto: Jorge William / Agencia O Globo )   Já se acostumou com a carga de treinos no Brasil?

Já me acostumei com isso. Estou conseguindo acompanhar os meus companheiros. Cada jogador tem o seu limite. Você só vai adquirir o ritmo de competição jogando. De repente, nos primeiros jogos, eu vou ter dificuldade e não vou apresentar o futebol que todos esperam, mas vontade não vai faltar.

Algum clube ou seleção chama a sua atenção atualmente?

O time que há muito tempo eu acompanho e fiquei feliz de ter vencido a Copa foi a Espanha. O Barcelona dá gosto de ver jogar. É um futebol de muita qualidade. Eles não ficam preocupados em defender, eles querem jogar, ter a posse de bola, com os jogadores dando dois, três toques na bola. Para o bem do futebol-arte foi bom a Espanha ter vencido a Copa do Mundo.

Com todos esses reforços que o Vasco contratou, com tanta qualidade, você acredita que a equipe possa mostrar um futebol semelhante?

Dá para todos jogaram. Todo bom jogador tem vaga na equipe. Basta todos terem a mesma mentalidade, o mesmo espírito coletivo, os mesmos objetivos, que dá para jogar junto.

Dos clubes que passou no Rio de Janeiro, você ficou com alguma mágoa?

Eu acho que fiquei em dívida com o Fluminense porque a minha passagem foi muita rápida. Gosto muito do Celso Barros, presidente da Unimed. Ele é uma pessoa que eu gosto muito. Errei naquela época ao ter dado um soco em um companheiro de trabalho, peguei uma suspensão, e depois fui para o Qatar. Não tenho mágoa com eles, mas me sinto em falta com o Celso Barros pela pessoa que ele é.

Dá para perceber que você retornou com mais cabelos brancos e com menos cabelo. Será que isso pode fazer diferença em sua volta ao Vasco? O pessoal respeita mais?

Não sei, vamos ver. Não joguei ainda, mas isso faz parte. Além dos cabelos brancos, eu estou ficando careca, é de família. Não me preocupo com essa situação. Basta você estar bem de cabeça que tudo vai fluir muito bem.

No passado, você era um cara rebelde? Hoje, você é um Felipe diferente?

Todas as atitudes que você tem acontecem por causa da idade. De repente, se alguma coisa que aconteceu comigo no passado acontecer agora, a minha atitude será outra. Faz parte da idade, já tive 18 anos. Eu jogava no Vasco, tinha pouca idade, gostava de sair para me divertir com os meus amigos, mas eu era uma pessoa pública. Hoje, muito mais maduro, o meu prazer é ficar com a minha família, me divertir com os meus filhos. Antes eu tinha outras prioridades. Eu não era casado, não tinha filhos, aproveitei muita a minha juventude. Agora estou curtindo a minha vida de casado da melhor maneira possível.

Vai parar na linha de fundo, driblar o adversário....

Vou procurar fazer isso porque é a minha marca no futebol. Eu tenho a facilidade de driblar com a bola parada, outros com a bola correndo. Isso é a característica de cada jogador. Toda criança hoje pedala, eu não sei pedalar e não vou aprender.     Por Clícia Oliveira, Fred Huber e Márcio Iannacca Rio de Janeiro

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