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Elano revela drama durante a Copa e diz que ciclo na seleção não acabou

Elano revela drama durante a Copa e diz que ciclo na seleção não acabou

Atualizado: Sexta-feira, 10 Dezembro de 2010 as 2:46

Ninguém mais do que Elano sofreu com a eliminação do Brasil na Copa de 2010, disputada na África do Sul. A Seleção caiu nas quartas de final diante da Holanda, em Durban, e o meia, que está de volta ao Santos, não pôde jogar. Angustiado, ele viu a equipe canarinho deixar a competição sem poder fazer nada.

Na segunda partida da primeira fase, contra Costa do Marfim, Elano levou uma entrada duríssima do volante Tioté, lesionou o tornozelo direito e deu adeus ao Mundial. Na última quinta-feira, o jogador abriu as portas de sua casa em Limeira, no interior de São Paulo, ao Globo Esporte e ao GLOBOESPORTE.COM para revelar o drama que viveu nos dias seguintes à lesão (o jogo contra os marfinenses foi em 20 de junho, em Joanesburgo). Enquanto mostrava fotos antigas, algumas relíquias, como um violão autografado por Pelé, e arriscava tacadas de sinuca, o jogador ia falando sobre seus momentos de angústia solitária.

Elano chorava sozinho, trancado em seu quarto no Randpark Golf Club, onde a equipe brasileira estava concentrada. Não queria contaminar o restante do elenco com seu baixo astral. Evitava conversas, sob o risco de se desmanchar em lágrimas na frente de algum companheiro. Lesão grave e eliminação. Se o Brasil inteiro sofreu com a decepção no Mundial, para o meia, a tristeza foi dobrada.

A seguir, confira os melhores lances do papo com o “novo velho” astro santista.

GLOBOESPORTE.COM - Como foram aqueles momentos logo após sua lesão na Copa do Mundo? Você estava muito bem, considerado o melhor brasileiro no Mundial e, de repente, ficou fora.

ELANO -   Foram os piores momentos da minha vida. Dentro do meu quarto, sozinho, sofria a noite inteira acordado, fazendo tratamento para tentar voltar. Passava quase 24 horas por dia com o doutor Runco (José Luiz Runco, médico) e o Rosan (Luiz Rosan, fisioterapeuta). Ficava tentando ver se dava para voltar. Mas sabe quando você fica se enganando? A vontade de voltar é tanta que a gente fica tentando. Eu queria mostrar que iria conseguir, mas sentia muita dor. Principalmente quando tentava arrancar para o lado esquerdo. Parecia que tinha uma faca enfiada no tornozelo.   GLOBOESPORTE.COM - Você percebeu na hora da lesão que estava fora da Copa?

ELANO -   Eu pensei que tinha quebrado a perna. Tanto que fiquei paradinho, esperando o pessoal entrar em campo. Quando o Deni (massagista) apertou o tornozelo, eu senti muita dor, mas fiquei aliviado, pois percebi que não tinha fratura. Só que nos dias seguintes eu vi que não daria para jogar. A dor era muito forte mesmo. Eu tomava tanto remédio que um dia cheguei a passar mal na concentração. Por causa dos comprimidos, a comida não era digerida direito e minha barriga doía muito. Só eu sei como sofri. Eu me trancava no quarto e ligava para meus familiares e amigos. Precisava ter alguém para conversar. Não falava com o pessoal da Seleção. Não iria acordar a pessoa para desabafar, pois era uma Copa do Mundo, estávamos concentrados e eu não queria passar essa preocupação para o grupo.

GLOBOESPORTE.COM - E como foi ficar quieto e não deixar sua dor transparecer para o restante do elenco?

ELANO - Nas minhas entrevistas coletivas depois da lesão eu estava arrebentado emocionalmente, mas  não podia baixar a cabeça. Só que eu sabia que não dava. Então, voltava para o meu quarto e chorava muito. Toda vez que vejo o lance da lesão volta tudo. Eu me preparei durante um ano para essa Copa. Estava em perfeita forma física e mental. Iria realizar o meu sonho e sabia que tinha tudo para ir bem. Infelizmente, aconteceu. Foi uma entrada desleal, mas não tenho mágoa do Tioté. Acontece.

GLOBOESPORTE.COM - Algum jogador percebeu que você não estava bem, que estava angustiado?

ELANO - Só o Kaká. Ele me dizia: ‘Fica tranquilo que todos estão vendo o seu esforço’. Eu nunca parava para falar com ninguém. Se eu fizesse isso, choraria.   GLOBOESPORTE.COM - E como foi assistir ao jogo contra a Holanda, ver o Brasil ser eliminado e não poder fazer nada?

ELANO - Foi muito difícil. O Brasil fez um primeiro tempo maravilhoso, mas fiquei preocupado com o modo como voltamos para o segundo tempo. Não foi culpa de ninguém, não esperávamos, mas aconteceu. Depois do jogo, o Sneijder e o Van Persie (jogadores da Holanda) foram ao nosso vestiário. Eles mesmos não acreditavam quem tinham eliminado o nosso time. Quer dizer, o sentimento é até pior: o resultado surpreendeu até o adversário. Eles olhavam o nosso time: todos ali sentados, decepcionados, alguns chorando, e diziam: ‘A gente não está acreditando’.

GLOBOESPORTE.COM - Depois desse trauma, você está de volta ao Santos. Como está sendo esse retorno?

ELANO - Está sendo muito gostoso. Tenho certeza que todo jogador que está fora do Brasil pensa em voltar todo o dia. Comigo era assim. Eu tinha duas possibilidades concretas: Flamengo e Santos. Falei com o Vanderlei (Luxemburgo, técnico rubro-negro). Agradeço muito a ele, pois sempre se mostrou à disposição para me ajudar. Ele quis a minha volta. Mas também houve a presença da diretoria do Santos lá na Turquia. Quando eles chegaram a Istambul para negociar com o pessoal do Galatasaray, me dando a oportunidade de um contrato de três anos, liguei imediatamente para o Vanderlei. Agradeci o interesse, mas disse que o Santos sempre foi a minha casa.

GLOBOESPORTE.COM - E por que resolveu voltar?

ELANO - Voltei para ficar próximo da Seleção. Eu já esperava ficar fora dessas convocações (as primeiras de Mano Menezes). Agora, estou me preparando para o ano que vem. Aí, será diferente. Vou estar perto do treinador (Mano), jogando num grande time, disputando ótimos campeonatos. Vou buscar o meu espaço. Acredito que meu ciclo não acabou. .

GLOBOESPORTE.COM - O Santos está vivendo um momento de euforia com a formação de uma nova geração de garotos. Você, que já foi um “menino da Vila”, como vê isso?

ELANO - Fico feliz e orgulhoso de poder estar com esses garotos talentosos. Eu me sinto um pouco responsável por esse momento. Cheguei ao Santos em 2000, num período difícil, sem títulos, com a torcida colocando faixas de cabeça para baixo. Aquela nossa geração reergueu o Santos. Depois de 2002 (quando o Peixe conquistou o Brasileirão sob a batuta de Elano, Robinho, Diego e companhia), todos vimos o que aconteceu: títulos, jogadores na Seleção. Iniciamos um ciclo vitorioso. Espero que continue.    

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