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Em 2010, Di Grassi só lamenta falta de resultados: 'Nem minha mãe percebe'

Em 2010, Di Grassi só lamenta falta de resultados: 'Nem minha mãe percebe'

Atualizado: Quarta-feira, 3 Novembro de 2010 as 10:54

A duas provas do fim da temporada (após o Brasil, Abu Dhabi encerra o calendário), Lucas di Grassi é o primeiro a dizer que o ano não tem sido fácil. "É o meu primeiro como piloto de Fórmula 1 e o primeiro da minha equipe", explica. O brasileiro da VRT, apontado por uma revista estrangeira como o melhor entre os iniciantes, no entanto, acha que já deu amostras de seu valor. Ainda assim, o paulista, que vai estrear em Interlagos a nova pintura de seu capacete, com as cores do país e seu nome folheado a ouro, confessa que, em termos de resultado, ainda está longe de encher de confiança os torcedores. Inclusive dentro de casa.

- Ia ser muito mais fácil para mim ter uma equipe com experiência por trás para me direcionar, para falar para eu fazer e não fazer isso ou aquilo. Agora, começar do zero, no primeiro ano da equipe na F-1, ter que desenvolver o carro inteiro, ter que aprender a guiar em pistas que eu não conhecia, com um carro com problemas de durabilidade. O mais difícil é você manter o foco e manter a motivação sabendo que não vai conquistar resultados expressivos. Às vezes, eu faço uma corrida muito, muito boa, termino em 14°, que foi o máximo que meu carro permitiu. Agora, às vezes eu não faço uma boa corrida, não consigo o acerto do carro, não estou bem no dia, termino em 16 °. O público em geral não tem essa percepção. É importante para a equipe, mas a torcida não sabe. Nem minha mãe percebe.

Di Grassi, no entanto, tem confiança de que soube superar as dificuldades. A começar pela disputa por atenção com o companheiro, o alemão Timo Glock.

- Como cheguei à F-1 com experiência, uma base boa, fiz todo o possível para buscar os resultados. Dentro da equipe, estou na frente nos resultados. Quase nunca, apenas em umas duas ou três provas, nós tivemos o mesmo equipamento. Ele sempre teve a preferência, por ser o mais experiente, por já ter feito pódios. Desse ano, eu tenho que tirar o aprendizado que eu tive.Em várias corridas, com problemas no equipamento, com equipamentos inferiores a outras equipes, eu consegui chegar na frente. Cometi apenas dois erros. Mas foi um ano bom. O que eu mais aprendi foram os circuitos novos e como acertar um carro de F-1, o que eu não sabia.

Di Grassi ainda desconhece o seu futuro para a próxima temporada. Uma infinita variação de possibilidades dificulta qualquer planejamento mais certeiro. Admite conversas com outras equipes, mas garante que a vaga na VRT dificilmente vai escapar, apesar do pouco apoio das empresas brasileiras.

- A gente sempre tenta conversar com outras equipes, melhores e/ou do mesmo nível. Conversei mais seriamente com duas ou três equipes. Hoje em dia, a F-1 está bem complicada. Tem um apelo financeiro muito grande. Muitos pilotos chegando com o apoio de empresas nacionais. E o Brasil não tem muito essa cultura. É difícil você achar uma empresa que te apoie no começo da carreira e até mesmo quando está na F-1. E isso faria toda a diferença no meu caso. Mas, mesmo assim, acho que a chance de eu perder a vaga na Virgin é só se chegar um piloto com muito, muito dinheiro e patrocínio para tirar a minha vaga. Se não for assim, estou tranquilo para o ano que vem.

O paulista confessa que o dinheiro (ou a falta de) pesa na hora das conversas com as outras equipes. Di Grassi minimiza a questão, mas ressalta que um suporte financeiro é essencial para se manter vivo na F-1.

Di Grassi apresenta seu novo capacete, com seu nome folheado a ouro

- Não é que esbarrou (a questão do dinheiro nas conversas), mas eu talvez conseguisse uma equipe muito melhor se tivesse alguém ou alguma empresa brasileira indo junto. Na verdade, não é nem questão de piloto pagante ou não. É questão de ter um apoio financeiro, um apoio político e estar na equipe certa para buscar um resultado. Sem dúvida, é importante para a equipe ver que uma empresa grande está por trás. Isso te dá moral.

Já em sua temporada de estréia, Di Grassi viu o dinheiro falar mais alto para a VRT. O belga Jerome D’Ambrosio comprou a vaga do brasileiro e passou a correr nos treinos livres de sexta-feira.

- O belga chegou com dinheiro, comprou a vaga de sexta-feira e eu perdi tempo de pista, de conhecer as pistas novas. Isso complicou bastante a minha situação para ter uma boa performance. Se eu tenho três horas de treino e perdi uma hora e meia, fica difícil.

Neste fim de semana, o paulista volta a correr em Interlagos após 15 anos - sua última prova foi pela Fórmula 3. Agora, no próximo domingo, vai realizar um sonho de criança.

- É um sonho. Desde que comecei no kart, ficava ali olhando a pista, sonhando, pensando se um dia ia pilotar ali. Meu sonho era disputar um GP Brasil. E, se Deus quiser, isso vai acontecer neste fim de semana.

Di Grassi veio ao Brasil "mais ou menos três vezes"neste ano. Diz estar acostumado, mas confessa sentir falta da família e dos amigos. Ainda assim, ainda consegue negar os insistentes pedidos para matar as saudades. Tudo em função do trabalho.

- Estou acostumado. Estou longe de casa desde os 17, 18 anos, correndo sozinho na Fórmula 3, GP2... mas faz parte para conseguir algo na carreira. O que eu mais sinto falta é da minha família, dos meus amigos. Quando eu venho, sempre me chamam para sair, mas a minha vida é um pouco diferente da deles. Não é porque um dia é feriado que eu vou poder sair na noite anterior. Eu tenho um campeonato. Tenho que treinar todo dia, manter o preparo físico. Minha vida, então, é muito mais regrada. Eu tento manter o foco. Eu mantenho o foco enquanto estou aqui. Quando acaba o campeonato, eu posso relaxar, ficar mais tranquilo. Aí, dá para sair, encontrar com eles.

O piloto diz não lamentar os erros nem os sustos desta temporada. Vida que segue. Agora, o melhor é aprender.

- Eu sou um cara que não lamenta erros. Todo erro gera um aprendizado se você souber levar da forma correta. Eu errei algumas vezes esse ano, nessa corrida da Coreia, na chuva, tentando ultrapassar o (Sakon) Yamamoto, da Hispania, errei em algumas voltas de classificação. Então, não houve um erro muito grande, algo que eu olharia para trás e diria que me custou o campeonato, um melhor resultado Foram erros normais, que todo mundo erra. Eu tive uma batida muito forte em Suzuka. Foi uma batida de mais de . Mas não foi nada grave. Machuquei um pouco o ombro, mas na segunda-feira depois do acidente eu já estava bem. Mesmo assim, foi a batida mais rápida da minha vida. Se fosse com a Lotus que o Emerson pilotou em São Paulo, não estaria aqui. Acho que preciso entender um pouco melhor como funciona a classificação, é muito rápida. Mas acho que já evolui muito durante o ano. Minha qualidade desde pequeno foi sempre acertar os carros muito rápido. Nesse ano, na maioria das corridas, com os dois carros, eu segui um caminho e, no final, a equipe inteira falava para seguir o meu.

O objetivo, hoje, é se firmar na categoria e, o sonho, ir além. Mesmo assim, não fecha a porta caso não consiga atingi-los.

- Meu principal objetivo é me manter na F-1. E, no futuro, ir para equipes melhores, ganhar uma corrida e ser campeão mundial. Hoje é o que eu quero, mas estou aberto a outras categorias. Automobilismo não é o que eu vou fazer para o resto da minha vida, é algo para agora. Então, vou focar nisso, mas, se, por inúmeros fatores eu não continuar na F-1, vou tocar minha vida em outro lugar.

Por: João Gabriel Rodrigues

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