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Felipe Melo contesta eleição de pior da Itália e diz: 'Jogo em alto nível há anos'

Felipe Melo contesta eleição de pior da Itália e diz: 'Jogo em alto nível há anos'

Atualizado: Sexta-feira, 5 Fevereiro de 2010 as 12

Felipe Melo precisou de pouco tempo para conhecer a pressão que é defender o Juventus. Clube de maior torcida da Itália e principal detentor de títulos no país, o Juve se tornou uma panela de pressão por causa do jejum de títulos e da vergonhosa passagem pela Segunda Divisão, provocada pelo escândalo de manipulação de resultados. No meio dessa confusão, o volante tenta dar sequência à carreira. A marcação de imprensa e torcedores é, muitas vezes, mais rigorosa do que a dos adversários no campo. Mas o Guerreiro de Turim não desiste. E em conversa com o GLOBOESPORTE.COM, pelo telefone, conta como tem sido os seus primeiros meses defendendo a camisa da Velha Senhora.

A voz firme na linha revela um jogador maduro e ciente do seu papel, que não se deixa abater por qualquer coisa. Mas como todo ser humano, tem seus momentos de fraqueza. Felipe Melo, aos 26 anos, foi eleito o pior jogador de 2009 por uma rádio italiana. O "prêmio" veio acompanhado de críticas por conta do seu desempenho. O volante se defende. Esclarece o episódio, relembra seus momentos difíceis na Europa e mostra que seu crescimento como jogador está diretamente ligado ao que acontece em sua vida pessoal. Sobra até mesmo para a torcida do Juventus, que, segundo ele, deveria ser mais paciente com os recém-chegados.

Globo esporte: O Juventus está decepcionando nesta temporada. Está praticamente fora da briga pelo título da Séria A. O que está acontecendo. O Inter de Milão é melhor?

Felipe Melo: Falar que o Inter de Milão é melhor é errado, porque ele chegou aqui no Olímpico e perdeu para nós. Ganhamos por 2 a 1. E no último jogo, foi equilibrado. Perdemos, mas poderíamos ter vencido. É parelho. O que está pesando é que o Inter se conhece há muito tempo, tem entrosamento e um técnico (José Mourinho) que sabe levar um grande clube. A verdade é que o Juventus é um time em construção, que iniciou a temporada com um técnico sem experiência. E um time em construção precisa de mais do que isso.

Mas o início foi promissor.

Foi. Mas nós mesmos criamos esse problema. Como começamos muito bem, criamos a ilusão de que seríamos campeões, mas não é assim que funciona. O erro foi esse. O Juventus é um grande clube, carente de títulos, por isso a pressão é grande. Como não ganha nada há muito tempo, quem está pagando o pato somos nós.

A diretoria demitiu o Ciro Ferrara. Era esse o caminho?

Olha, isso é uma questão da diretoria. O Ciro era um bom técnico, com qualidades. Mas mudou. Agora é o (Alberto) Zaccheroni, que já está dando a sua cara ao time. E o Juventus está reagindo. Temos qualidade, mas muitos jovens jogadores. Um time em formação precisa de um pouco mais de tempo. Se ele fizer um bom trabalho, vai renovar.

Em dois anos, você saiu do Almería para se tornar titular da seleção e do Juventus. Seu salário aumentou, sua responsabilidade também. Tudo muito rápido. Como o Felipe Melo administrou isso?

Quando cheguei na Eurora, ralei muito. Os meus primeiros seis meses foram no Mallorca. E então fui vendido ao Racing Santander. Foi quando a minha vida começou a mudar. Aconteceu um fato inusitado. O técnico me colocou para jogar na ponta esquerda, desconsiderando uma carreira inteira como volante. O máximo que havia feito foi jogar como segundo homem, mais avançado um pouco. Foram dois anos difíceis. Mas descobri que a gente conhece um homem na derrota. Minha família me ajudou muito. E Deus esteve comigo.

Você pensou em desistir?

Não. Eu não sou desse tipo. Essa experiência me ajudou a crescer como homem, como ser humano, e quando você cresce como homem, isso te ajuda dentro de campo. Foi quando surgiu o Almería. Aceitei a proposta, mas avisei que só jogaria no meio-campo. Decidi que seria o ano da pesca para mim. Falei para mim mesmo: "Tenho de pescar o bom futebol que me trouxe para a Europa, o mesmo que eu mostrava no Flamengo, quando comecei". Brilhei, fui eleito o melhor do time na temporada e a Fiorentina apareceu. Mas já fui para a Itália sabendo que a Fiorentina seria um ponto de partida para um grande clube.

Então você já chegou pensando em sair?

Não, eles mesmos me disseram que, se eu me destacasse, seria vendido. Que se um clube aceitasse pagar a multa ou um valor próximo, seria vendido. Então coloquei na cabeça que da Fiorentina iria para algo maior. Já estava há muito tempo sem brigar por títulos. Sou um jogador vencedor, acostumado a ser campeão. Ganhei Copa do Brasil, Brasileiro... e queria sentir isso de novo aqui na Europa.

Foi quando surgiu o Juventus

Sim, pagaram 25 milhões de euros (que hoje correspondem a R$ 64 milhões) por um volante. Sou um dos jogadores mais caros da história do clube. Se cheguei onde cheguei, foi por causa da minha humildade, perseverança e regularidade. Estou jogando em alto nível há alguns anos, tanto é que entrei na seleção e consegui me manter.

A sua temporada começou muito bem, fazendo até gols. Mas você concorda que deixou a peteca cair nos últimos meses?

Concordo, mas não tive férias. Saí da Copa das Confederações praticamente direto para o Juventus. Com o passar dos meses, minha coxa foi acusando dor, acusando dor, até que não aguentei e precisei parar. Jogador é como um carro, só funciona quando está 100%. Se fosse outro, tiraria o pé e ficaria de molho por dois meses para voltar bem. Eu me daria nota 6,5 até o momento. Mas a temporada ainda está na metade.

Mas você acabou sendo alvo de críticas por causa da queda de rendimento. Aliás, você e Diego. Como enxergam isso?

Não sou assim, de tirar a perna, por isso sou chamado de guerreiro por aqui. Mesmo machucado, joguei para ajudar. Os números mostram que tenho valor. Não sou eu que estou dizendo, são os números. Quando não joguei, o time não ganhou. Comigo em campo, o time toma menos gols. Por ter sido comprado por 25 milhões de euros, as pessoas acham que tenho de fazer gol todo jogo. Elas não entendem isso, não querem ter paciência. Zidane foi vaiado aqui antes de brilhar. Platini também. Henry ficou pouco tempo e foi criticado. Essa torcida tem de amadurecer um pouco mais e ajudar o jogador no momento difícil. Com o Diego aconteceu a mesma coisa. Investiram muito dinheiro na gente, quase 50 milhões de euros (que hoje correspondem a R$ 128 milhões) mas o time está em formação e somos apenas parte disso. Diego está tranquilo também.

Você tem bronca do torcedor?

Não, pelo contrário. Comigo, na maior parte do tempo, a relação é ótima. Eles me param na rua e me elogiam. Dizem que estão do meu lado. Entendo a situação, porque a carência de títulos é muito grande. É só uma questão de paciência.

Você recebeu o prêmio de pior jogador da Itália no ano passado. Foi o terceiro brasileiro a receber. Como você encarou? Ficou incomodado?

Na verdade não posso levar em consideração. É uma coisa sem lógica. O que o Felipe Melo fez? Saiu do Almería e foi para a Fiorentina por 8 milhões de euros (que hoje correspondem a R$ 20,6 milhões). Na Fiorentina foi ídolo em uma temporada e chegou à seleção brasileira. Na seleção, conquistou um título (Copa das Confederações) e nunca foi reserva. Foi vendido por 25 milhões de euros para o Juventus. Só aí, não pode ser o pior do ano. É uma coisa ridícula. É uma rádio que nem fala sobre futebol, que está ali para sacanear as pessoas. Fui um dos melhores da posição na Copa das Confederações, um dos melhores do Campeonato Italiano...

Você se sentiu injustiçado?

Querendo ou não, sou um volante que tenho 3 gols no campeonato. Minha primeira função é marcar, roubar a bola e passar para os armadores. Não fiquei chateado e não me senti injustiçado, mas me deixou espantado a imprensa a brasileira ter feito isso como o fim do mundo. Teria ficado preocupado se tivesse lógica. Não posso dar ouvidos para uma eleição realizada por pessoas que não entendem nada de futebol, que estão ali para curtir com a cara dos outros. Acho que a coisa teve mais repercussão do que deveria. E discordo também, porque meu rendimento no ano passado foi muito bom.

Há tempo para terminar a temporada com algum título? Vocês ainda acreditam na Série A? O que a torcida do Juventus pode esperar desse time?

O Juventus, com certeza, vai chegar na zona de classificação à Liga dos Campeões. Se não chegar, é como se tivesse caído para a Segunda Divisão. O que o Juventus tem de fazer é conquistar o título da Liga Europa. Tem de ganhar, para salvar a temporada. A vaga na Liga não salva nada, porque é uma obrigação para um clube o nosso. Mas confesso que o Campeonati italiano é complicado.

Por: Henrique Netto

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