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'Filhos do Canindé', Henrique e Guilherme deslancham na Lusa

'Filhos do Canindé', Henrique e Guilherme deslancham na Lusa

Atualizado: Segunda-feira, 17 Outubro de 2011 as 4:54

A bola de capotão e o campo de terra batida ficaram para trás, mas o jeitão moleque é o mesmo de quando davam seus primeiros chutes no Canindé. Desde meninos, Henrique e Guilherme repetem o mesmo ritual: vestem o uniforme rubro-verde, calçam a chuteira e suam a camisa nos treinos da Portuguesa. Para eles, era tudo uma grande brincadeira, que ficou cada vez mais séria, sem perder a diversão. Mais de dez anos depois do treino-teste, as crias do Canindé conquistaram seu espaço no time do técnico Jorginho, ajudando a Lusa na ótima campanha nesta Série B. A dupla relembra as travessuras vividas no clube e abre sua casa, o Canindé, para o GLOBOESPORTE.COM.   Henrique foi o primeiro a entrar para o plantel. Com apenas sete anos, ele era ainda um "chupetinha", mas já era um jogador da Portuguesa. À tarde ou à noite, sob sol forte ou chuva grossa, o meia só trocava o areião do Canindé pela quadra de futsal do clube. Guilherme chegou um pouco depois, aos nove anos, e também encarava a jornada dupla. Como o volante jogava por uma categoria mais jovem, os dois não se tornaram amigos de cara, mas a parceria para as brincadeiras, dentro e fora de campo, não tardou a se firmar.   - Henrique é de 1990 e eu de 91. Éramos de categorias diferentes, mas, depois de um tempinho, eu fui começando a jogar em uma categoria acima da minha. Passávamos muito tempo juntos e éramos os mais simpáticos, conversávamos com todo mundo. Ele sempre foi meio atentado e eu também era “da zoeira”, brincávamos muito, no bobinho, então, fomos nos apegando e já temos um bom tempo de amizade – conta Guilherme.

E bota tempo nisso. Aos 20 anos, os dois se conhecem há mais de dez. Dividindo quarto nas concentrações, puxando sambas em viagens de ônibus de mais de 12 horas, armando churrasco quando estão de folga, planejando as coreografias para as comemorações de gols da Lusa.

Henrique e Guilherme passam mais tempo juntos do que com seus familiares. E, desde que se tornaram amigos, foi sempre assim. Juntos, eles iam aos jogos da Lusa para entoar os gritos de guerra passados de geração mirim para geração mirim. Nos desfiles de apresentação de uniformes, lá estavam Guilherme e Henrique, que juram que não mandaram mal na passarela. Se fazia sol, o parque aquático do clube era o ponto preferido. Eles só não eram figurinhas carimbadas nas tradicionais festas do Canindé por conta das viagens e da rotina puxada, mas, sempre que podiam, apareciam para fortalecer o intercâmbio com a cultura lusitana.

- Vínhamos com nossas famílias, dávamos umas voltinhas e comíamos um bacalhauzinho (risos). Hoje, ainda tentamos vir meio que às escondidas, porque os torcedores nos param a toda hora para nos cumprimentar, mas tentamos estar sempre presentes – diz Henrique.

Os reis do varal

Se está mais difícil comparecer às festas da Lusa, por outro lado, ao menos as brincadeiras permanecem as mesmas da época de categoria de base. Aos 20 anos, os filhos do Canindé contam que pouco mudou no dia a dia depois de chegarem ao profissional. Ai do jogador que dormir no ponto e deixar o uniforme dando sopa. Assim como nos tempos de moleque, Henrique e Guilherme não perdoam os vacilos.

- São brincadeiras entre nós que temos até hoje no vestiário. Damos nó em tênis, escondemos roupa, colocamos areia na chuteira, jogamos água em quem não está esperto. E se vem com roupa rasgada, de estilo, zoamos. Chamamos de varal da Lusa. Nós penduramos as camisas feias lá e autografamos. O Ton, o Ivo e o Leandro Love são os reis do varal (risos). Uns jogadores vêm treinar muito judiados (risos) – conta Henrique.

Henrique e Guilherme, os filhos do Canindé (Foto: Marcos Guerra/Globoesporte.com)

  O clima amistoso não é restrito apenas ao vestiário. Com tantos anos na casa, os dois dizem que se dão bem com todos, do cozinheiro ao presidente. Basta uma volta com Guilherme e Henrique pelo Canindé para comprovar isso. É o roupeiro das categorias de base, o Chiquinho, é o segurança, é o porteiro. Mesmo sob chuva, os amigos aparecem por todos os lados para trocar cumprimentos e piadas. Sobra até para a “voz fininha” do motorista Rômulo, que fica nervoso com as provocações dos garotos e começa a gaguejar.   Com tantos amigos e tantos anos de casa, o ambiente no Canindé é perfeito para a dupla. Até por isso, Guilherme e Henrique vêm se destacando na equipe da Portuguesa. Os dois juntos marcaram 12 dos 62 gols da Lusa, que tem o melhor ataque da Segundona, lidera com folga a

competição e está muito perto de retornar à elite nacional. Junto com a boa fase, o elenco da Portuguesa ganha visibilidade. Assim, inevitavelmente, o dia em que os filhos do Canindé sairão de casa está cada vez mais próximo. Cientes disso, Guilherme e Henrique estão prontos para dizer adeus, mas vão levar um pouco da Lusa com eles.

- O pessoal daqui é o que vai deixar mais saudade. Todos falam que não há time como a Portuguesa. Vamos sentir falta desse ambiente bom – diz Guilherme.

- Até me sinto bastante português. Tenho um carinho enorme por este clube. Crescemos aqui e vai ficar marcado na nossa carreira – completa Henrique.

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