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Ginasta sul-africana supera barreiras e quer repetir os feitos de Daiane

Ginasta sul-africana supera barreiras e quer repetir os feitos de Daiane

Atualizado: Terça-feira, 6 Julho de 2010 as 9:46

A vida de Jennifer Khwela sempre foi marcada pela superação. O parto prematuro, de 28 semanas, comprometeu o desenvolvimento dos pulmões. A falta de oxigenação no cérebro fez com que seu QI fosse afetado, e estudar se tornou um grande problema. Se o aprendizado era lento no banco da sala de aula, fora dela a menina sul-africana de então 9 anos aprendia sozinha, na mobília de casa, a dar suas piruetas. Tentava imitar as ginastas que viu na TV durante as Olimpíadas de Sydney-2000, entre elas a brasileira Daiane dos Santos. Meses depois, acabou sendo descoberta por Gail Adamson, que procurava talentos na Carrington Heights Primary School. A técnica viu em Jennifer um diamante, que passou a ser lapidado por sua filha, Julie.

Este ano, a autoestima mudou de nível. Jennifer, que já tinha sido a primeira negra a conquistar um título nacional na ginástica, venceu a prova de salto na etapa de Doha da Copa do Mundo. Levou para casa a primeira medalha de ouro da história da modalidade daquele país num torneio oficial da Federação Internacional.

- Eu não tive a chance de conhecer outro esporte e achei que seria divertido dar umas piruetas. Depois do ouro em Doha, foi muito bom voltar para meu país, ver meus familiares e amigos. Eu me senti uma estrela. Aquilo me fez querer treinar ainda mais para conseguir medalhas em outras competições. Também quero muito disputar os Jogos Olímpicos de Londres - disse ao GLOBOESPORTE.COM.

O fôlego que faltou horas depois de seu nascimento num hospital em Durban, hoje sobra. Do alto de seu 1,45m, Jennifer em ação no solo e no salto faz lembrar o vigor físico, os movimentos de Daiane. E é no exemplo da brasileira, primeira negra a vencer um Mundial, que mira a sua treinadora.

- Acho que Jennifer poderia ser uma campeã mundial seguindo os passos de Daiane, mas o mais provável é que consiga isso no salto do que no solo. Ela é muito parecida com a Daiane e tem problemas para fazer aterrissagens limpas, porque tende a quicar no solo, e o novo código de pontuação penaliza fortemente as aterrissagens sem controle - afirmou Julie.

A força que ainda precisa ser ajustada é uma marca de Jennifer também na vida. Para seguir evoluindo, ela treina durante quatro horas e meia. Além de ter de repetir e repetir séries, também precisa ajudar a técnica a montar e desmontar os aparelhos, de segunda a quinta-feira, já que aproveitam um espaço cedido. Nas sextas e sábados, têm de viajar até Pinetown para treinar devido à falta de horário na academia. Mas nada disso é capaz de enfraquecer a jovem sul-africana, que enfrentou dificuldades muito maiores antes descobrir que poderia ter um futuro diferente.

O carinho que não recebeu dos pais foi dado pela avó. Coube também a ela sustentar quatro netos com o salário de doméstica e de uma bolsa por invalidez. O pai de Jennifer fugiu logo após o seu nascimento, quando a menina teve complicações por ser prematura, e a família não contava com um plano de saúde. Foi criada numa casa com dez pessoas. A tia-avó costumava trabalhar como enfermeira, mas precisou se aposentar. A mãe teve três filhos de pais diferentes.

- Foi muito difícil crescer com minha avó, mas fico feliz que ela tenha cuidado de mim porque minha mãe mora comigo, mas não cuida. Somos uma grande família, e minha avó e minha tia-avó me ajudaram muito.

Mas agora ela pode retribuir. O dinheiro do prêmio ganho em Doha foi maior do que a renda de toda a família durante um ano. Boa parte dele foi investido para ser usado apenas no futuro. Depois que deixar a ginástica, Jennifer pretende estudar computação.

- Ela tem tirado um proveito enorme da ginástica, tendo exposição e recebendo a educação que nunca teria. Agora sabe que é possível alcançar resultados em nível mundial, tem mais fé em si mesma e no programa de treinamento. Infelizmente o nosso governo não investe em esportes que não têm participação da massa.

Ainda assim, a treinadora não perde a esperança. Sonha com o dia em que África do Sul irá descobrir que há atletas que podem ser tão admirados quanto os Bafana Bafana.

- Não estou tão certa de que a realização da Copa do Mundo de futebol trará benefícios para os outros esportes. Acho que o maior deles será com relação ao turismo no nosso país e o aumento da exposição que um evento como esse pode dar. As pessoas vão aprender que nós não vivemos numa selva e não passeamos de elefante! Tenho a esperança de que, no futuro, a ginástica será beneficiada.

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