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Grafite rasga elogios a Adriano, mas ainda sonha com o Mundial

Grafite rasga elogios a Adriano, mas ainda sonha com o Mundial

Atualizado: Sexta-feira, 19 Março de 2010 as 12

Uma convocação de emergência, uma participação bem razoável num amistoso, e a vaga no grupo da seleção brasileira que vai à Copa do Mundo pode cair no colo do atacante Grafite. Atualmente com 30 anos de idade, o ex-são-paulino foi eleito o melhor jogador da temporada passada na Alemanha e levou o Wolfsburg a um inédito título nacional. Apesar disso, Grafite só foi lembrado pelo técnico Dunga no apagar das luzes, no último amistoso antes da lista final para o Mundial. Ainda assim, o atacante só foi chamado porque Luis Fabiano foi cortado.

Nos 25 minutos em que esteve em campo no amistoso contra a Irlanda, Grafite deu o passe, de calcanhar, para o segundo gol brasileiro na vitória por 2 a 0. Dias depois, uma bomba: Adriano, até então nome certo na lista de Dunga, voltou a ter problemas extracampo. Ele teria inclusive sido repreendido pelo treinador da seleção por falta de empenho nos treinamentos no Flamengo. Estaria a porta da Copa se abrindo para Grafite?

- Dizem que disputo vaga com Adriano, mas ele está muito à minha frente - disse Grafite ao GLOBOESPORTE.COM, por telefone, direto da Alemanha.

O atacante do Wolfsburg avaliou como "pequenas" as suas chances de ir ao Mundial da África do Sul, mas não deixa de sonhar. Na entrevista, Grafite falou ainda sobre como foi seu primeiro contato com o grupo da seleção, contou detalhes curiosos sobre o pedido de liberação junto a seu clube, explicou por que o campeão alemão não repetiu o bom desempenho nesta temporada e, por fim, falou sobre o futuro. Confira a entrevista:

GLOBOESPORTE.COM: Como você foi recebido na seleção brasileira, o que achou do primeiro contato?

GRAFITE: Foi muito bom. Eu me senti muito à vontade, o pessoal me recebeu de braços abertos, os jogadores, a comissão técnica, com o Dunga e o Jorginho, parecia que eu já estava na seleção há muito tempo. Fiquei contente.

A convocação o pegou de surpresa?

Pegou. Até porque, pela temporada que eu fiz ano passado, eu estava num nível muito alto, muito bem. Eu achava, até pelas opiniões dos especialistas, que eu poderia ser convocado. Mas a convocação não veio, e fiquei um pouco chateado. A gente sabe que na seleção brasileira é muito difícil selecionar 23 jogadores de uns 100 que estão em boa fase, existe também a pressão da torcida e da imprensa para convocar os jogadores que atuam no Brasil, e eu fiquei realmente chateado, nunca estive nas convocações e já estava achando que não teria mais chances na seleção. Foi uma surpresa, sim, uma surpresa muito boa.

Dunga ligou para você? Como foi o momento em que ficou sabendo que estava convocado?

Tivemos um jogo aqui contra o Villarreal (quinta-feira, 25 de fevereiro, pela Liga Europa) e depois vi na internet que o Luis Fabiano havia sido cortado. Pensei: ‘O jogo (da seleção) é terça, Dunga vai chamar algum atacante aqui da Europa. Tem o Hulk, que ele chamou ano passado, também o Pato, que voltou de contusão bem...’ Eu até deixei o telefone assim meio de lado. Mas no sábado de manhã, Jorginho ligou. Conversamos, ele me perguntou se eu estava a fim, motivado, e eu respondi que para a seleção eu estava supermotivado. Ele então me falou que ia pedir autorização ao clube, porque a convocação deve ser feita com 15 dias de antecedência e já havia estourado o prazo. Eu pensei: "Se não me autorizarem, eu vou ter de quebrar tudo lá" (risos). Mas deu tudo certo, o clube me liberou, pude participar do jogo.

O clube se amarrou para liberá-lo (a convocação foi feita fora de prazo)?

A princípio o treinador só falou para mim que se o jogo fosse no Brasil, com 15, 16 horas de viagem, eles não iam me liberar. Mas como o jogo era em Londres, uma hora e meia de voo, não teria problema. Quando ele falou essa história do Brasil eu até dei risada, mas ele olhou para mim e disse "Estou falando sério". Eu pensei, mal sabe ele que se ele não deixasse eu ia quebrar tudo aqui (risos). O treinador, o próprio diretor, Dieter Hoeness, sabem que esse sempre foi meu sonho, que ir para a seleção ia fazer muito bem para mim e que eu voltaria ainda mais motivado para defender o clube.

Você deve ter acompanhado aí da Alemanha o problema do Adriano...

Acompanho sempre o que acontece no futebol brasileiro, vi o que aconteceu com o Adriano e a esposa, mas vi também que ele já voltou. Eu sempre leio o noticiário na internet e vi que o Dunga e o Teixeira alertaram, que ele precisa tomar cuidado, e tal, mas o Adriano é um grande jogador. Dizem que eu disputo uma vaga com ele, mas o Adriano está muito à frente de mim. Eu joguei 25 minutos pela seleção, enquanto ele tem um histórico, decidiu muitos jogos, Copa América e outros torneios. Ele tem um currículo muito bom. Essas coisas que têm acontecido com ele são sempre difíceis, porque quando se trata de Adriano tudo ganha uma repercussão muito grande, por ser a pessoa que é, o jogador que é, mas acho que isso não vai interferir na carreira dele. Tive a oportunidade de estar com ele agora, é um cara muito gente boa, vive dando risada, além de ser um grande jogador, claro. Ele tem qualidade e tem força para superar esse momento.

Você consegue se imaginar na Copa? É algo possível na sua cabeça?

Estou correndo por fora, se surgir uma oportunidade ali, Deus me livre de alguém se machucar, mas se surgir oportunidade vou estar pronto. Não sei o que o Dunga está planejando, a princípio são quatro atacantes, mas eu não sei... As minhas chances são pequenas de ir à Copa. Se eu já estivesse sendo chamado desde o ano passado, talvez tivesse mais chance. Naquela lista (do amistoso contra a Irlanda) havia 23 nomes, mais o Luis Fabiano, que estava machucado, e o terceiro goleiro... As minhas chances são pequenas, mas agora elas existem, né? Há algumas semanas elas não existiam. Talvez amanhã ou depois, se surgir uma dúvida na cabeça do Dunga, o meu nome possa pintar na cabeça dele. As chances são mínimas, mas vou seguir trabalhando no meu clube para terminar bem a temporada.

O que pensou na hora que ia entrar em campo contra a Irlanda. Talvez fosse sua única chance, ficou nervoso?

Eu só pensei em entrar e entrar bem, mas na verdade sempre o objetivo é entrar e marcar um gol. O Dunga me chamou e falou para eu ficar tranquilo, jogar como faço sempre no meu clube. Eu sabia que não adiantava eu querer fazer o que não estava acostumado, querer sair driblando três ou quatro. O importante era estar ligado. Com os jogadores que estavam lá, como Kaká, Robinho, Daniel Alves, todos de alta qualidade, facilita. A qualquer momento você pode receber a bola. O lance do gol teve uma boa triangulação, Kaká, Robinho e eu também, mas é isso, a gente tem de entrar tranquilo. É claro que é jogo da seleção, aquela camisa amarela dá sempre um frio na barriga, mas tem de ter tranquilidade. Sou jogador experiente, tenho quatro anos na Europa, 30 de idade, passei por grandes clubes no Brasil. Para ficar perfeito só faltou mesmo um golzinho. A impressão que deixei foi boa, e espero estar nas próximas convocações. Se não for para a Copa, depois mesmo, em amistosos, o que seja. O importante é estar participando.

Falando sobre sua vida no clube: o que houve com o Wolfsburg? Por que o clube não conseguiu manter o nível da temporada passada, quando foi campeão, apesar de ter mantido a base do time?

É verdade, continua praticamente o mesmo time do ano passado. Do chamado titular estão nove ou oito jogadores aqui ainda. Ali nós atingimos um nível muito alto, difícil de alcançar novamente. Há um relaxamento natural nas férias, tivemos um treinador novo (Armin Veh), que tentou implantar um novo esquema em relação ao ano passado, quando jogávamos saindo no contra-ataque. A gente estava acostumado a esperar o adversário atacar e responder com rapidez. Ganhamos muitos jogos assim. Mas esse ano os adversários estão nos esperando mais, e o treinador queria que a gente tocasse mais a bola. O meu rendimento e o do Dzeko caiu. Nós não recebíamos a bola de frente para tentar a finalização. Nosso time não tem essa característica. Fomos perdendo jogos em casa, fora, saímos da Champions e os caras tiveram que trocar o treinador (Lorenz-Gunther Kostner assumiu). Nos últimos cinco, seis jogos nossa equipe vem bem. Há cinco rodadas não perdemos no campeonato. Nós já sabíamos que ia ser difícil manter o nível do ano passado, mas não esperávamos que fosse ser tão difícil.

Você deve ter tido muitas propostas de outros clubes, não?

Meu contrato ia até 2011, mas no fim da temporada passada acrescentei mais um ano, portanto vai até 2012. Tive proposta do Panathinaikos, mas não chegamos a um acordo. Eu preferi ficar porque estamos (família) bem ambientados aqui e o que os gregos ofereceram era quase a mesma coisa do que ganho agora. Depois dessa convocação, meu telefone voltou a tocar, mas até agora são mais sondagens, nada oficial. Um clube russo procurou o Wolfsburg, interessado, mas a diretoria falou que não queria vender. A princípio fico aqui até o fim da temporada e a tendência é que continue na próxima.

Por: Rodrigo Sirico

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