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'Nunca imaginei que um dia sairia do Flu', diz 'Conca'

'Nunca imaginei que um dia sairia do Flu', diz 'Conca'

Atualizado: Segunda-feira, 15 Agosto de 2011 as 1:26

“Ni hao”, “xiexie” e “xebin”. Essas três palavras formam o extenso vocabulário de Darío Conca em mandarim. Afinal, dizer oi, obrigado e pedir um refrigerante é tudo o que um jogador argentino, adotado pelo Brasil, pode precisar para viver bem logo ali do outro lado do mundo. Há um mês, o ídolo do Tricolor carioca desembarcou na China, com a cara, a coragem e o bolso cheio. Em Guangzhou, encontrou uma estrutura digna de rei. Torcida, festa, camisas com sua caricatura, vestiários cobertos de mármore, casa de luxo, jatinho, motorista, tradutor... É assim que, mesmo entre milhões de pessoas de olhos puxados, já é capaz de se sentir em casa e driblar com categoria as diferenças culturais. O que não elimina, porém, o coração partido em deixar uma torcida apaixonada para trás: “Eu nunca imaginei que um dia poderia sair do Fluminense.”  

Dias antes de completar o primeiro mês na China, o ídolo tricolor recebeu o GLOBOESPORTE.COM à vontade no sofisticado sofá da sala de sua nova casa, decorado com uma manta feita de pele de cordeiro. Localizada em um calmo e luxuoso condomínio em uma área afastada do centro de Guangzhou, a mansão de Conca tem cinco quartos, paredes com estampas floridas, peças decorativas de ferro e enormes quadros. Nada disso escolhido pelo jogador. “Só compramos a televisão, a máquina de lavar e a cama, porque as que eles usam aqui são muito duras”, explicou a noiva Paula Araújo, grávida de dois meses do primeiro filho do casal.

Durante quase uma hora de papo, “Concá”, como é chamado no sotaque chinês, falou em bom "portunhol" sobre suas primeiras impressões da China, a dolorosa decisão de deixar o Fluminense e as dificuldades de comunicação no Oriente. Mesmo frisando que ainda sonha em vestir de novo a camisa do Tricolor carioca, o argentino contratado pelo Guangzhou Evergrande por cerca de R$ 15 milhões, com um salário de quase R$ 2 milhões por mês, disse viver um momento especial, ainda mais agora com a notícia de que em breve será o Papai Conca.     GLOBOESPORTE.COM: Como foi tomar a decisão de deixar a apaixonada torcida tricolor e vir para a China?

Conca: Foi difícil, não é fácil. Em 2010 tinha acontecido o título brasileiro. Tinha acontecido o melhor ou um dos melhores anos da minha carreira. Mas tinha que pensar também que tenho família. Era uma oportunidade boa. Falei com a minha mulher, com minha família, minha mãe, meus irmãos, meus amigos para saber se eles estavam do meu lado. Comentei que fiquei na concentração pensando: “Não acredito que eu vou sair.” Eu nunca imaginei que um dia poderia sair do Fluminense. Mas saí tranquilo, porque fiquei três anos e meio em um clube onde sempre fui respeitado e deixei amigos lá. Não só jogadores, como empregados do clube: massagistas, roupeiros, fisioterapeuta, doutor, nutricionista, faxineiro, todo mundo. Fiquei triste por ter deixado, mas feliz porque apareceu uma oportunidade boa. Não vim aqui só para passar o tempo, pensando que tenho dois anos e meio e voltar. Vim aqui para dar o meu melhor, fazer o meu trabalho, porque devo respeito a quem me contratou. Fiquei feliz por ter sido escolhido, ainda mais porque cheguei aqui e descobri que vou ser pai.

Mas você ainda pensa em voltar a jogar pelo Fluminense?

Eu falei que quero voltar. Um dia quero voltar e vestir aquela camisa tão bonita do Fluminense. Por tudo que vivi lá, por todas as glórias, pelo carinho, sabe? Eu quero voltar. Mas devo respeito porque, no momento, pode ter um treinador que não precise de um meia, precise de um zagueiro, de um goleiro, lateral. Então, vou respeitar essa decisão. Mas que um dia quero voltar a vestir a camisa do Fluminense, isso com certeza. Mas tenho que ter respeito, não posso pensar: “Vou voltar de qualquer jeito.” Vou voltar se o Fluminense quiser que eu volte. Não vou pressionar para me contratar. Mas sempre penso que um dia gostaria de vestir mais um pouquinho aquela camisa.     Depois de um mês na China, quais são as primeiras impressões?

Eu achei que fosse encontrar uma coisa totalmente diferente. Gente para cá, para lá, confusão. Já tinha pesquisado na internet, perguntado para as pessoas... via as imagens daqui. Mas aqui tem tudo. Restaurante mexicano, italiano, brasileiro. Não esperava que tivesse isso tudo. É uma cidade muito grande e bonita.

Qual é a sua maior dificuldade até agora? A comunicação?

A comunicação é minha maior dificuldade. Até no campo. Você quer passar alguma coisa e não consegue. Fica só olhando. Eles não são muito de falar. Não é que nem no Brasil, na Argentina.

Como eles te chamam aqui?

Concá. (risos)

E o que você já aprendeu a falar?

Praticamente nada. Só “ni hao (oi)”, “xebin” (Sprite) e “xiexie (obrigado)”. E mais nada. Quando preciso de alguma coisa, ligo para o tradutor e ele salva a gente. Quando a gente quer sair para comer sozinho, liga para ele. Porque eu também não falo nada em inglês. Agora que estou tentando aprender algumas coisas. E o treinador é coreano. Ele fala com o tradutor dele, que passa para todo mundo em mandarim, e aí o nosso tradutor passa para a gente em português.

Quase um telefone sem fio, né?

É bem engraçado.

Já deu tempo para conhecer a cidade?

Quando eu cheguei, tive só quatro dias de folga. Tinha que resolver coisas de casa, de visto. Tem gente que demora, né? Mas eu sou mais rápido. Fiz tudo na correria, em duas semanas. Aqui é ruim porque você depende de outras pessoas, do tradutor. Mas eles me ajudaram.

Apesar das dificuldades, está gostando da vida aqui?

Estou gostando, adorando. É muito tranquilo, o pessoal respeita. Estou feliz agora. Não tenho nada do que reclamar. Mas é bem diferente em relação ao Brasil e à Argentina. Eles enchem o estádio e batem palma. A bola passa perto e eles batem palma. É diferente de tudo o que a gente tinha visto. Quando entra no campo, para aquecer, jogando em casa ou fora, você cumprimenta a torcida. E, quando acaba o jogo, é a mesma coisa, independentemente do resultado. Você dá uma volta no estádio cumprimentando o torcedor e batendo palma. É bem bonito.

O que muitos brasileiros dizem é que aqui também não existe muita pressão. Você também sentiu isso?

Não tem tanta cobrança de ter que ganhar de qualquer jeito. É claro que todo mundo quer ganhar, ninguém gosta de perder. Mas eles entram no estádio para se divertir. Não tem aquela pressão. Você pode fazer o melhor de você. Não é como em outros países. É legal, sabe?

O treinamento dos chineses também é diferente?

É, o treinamento é diferente. Treina mais e o treino é mais forte também. Mesmo com bola eles dão muito ritmo no treino, querem chegar rápido no gol. Mas eles estão melhorando cada vez mais. Agora, está bem mais parecido. Nosso time tem alguns jogadores que estão na seleção, tem dois ou três que estiveram na Europa. Estou feliz agora. Diferente, mas você aprende outra experiência.

Mas você sente falta de algumas coisas, não?

Sentir falta, sempre vai sentir. Isso tanto quando eu saí da Argentina quanto quando deixei o Brasil depois de quatro anos. É muito tempo. Você se acostuma um pouco e sente falta.

O que imagina que será mais difícil em sua adaptação?

Uma vez eu falei com os outros brasileiros que no ônibus, no vestiário, no avião, eles ficam tranquilos. Não tem aquela festa, aquelas brincadeiras. Não tem essas coisas. Eles entram no vestiário e ficam tranquilos, diferente. Isso é cultura, um país diferente. A gente tem que tentar passar algumas coisas nossas que são boas e tentar se acostumar. Tem que respeitá-los do jeito que eles são também, porque tratam bem a gente. Você não vê diferença. No treino, a gente não fala muito com eles, mas eles sempre respeitam, passam do lado e te cumprimentam.

O que você achou da recepção dos chineses? Da torcida, do clube?

Já tinham me passado mais ou menos que seria assim. Mas, quando eu cheguei no aeroporto, o presidente estava me esperando, havia algumas pessoas do clube e muitos torcedores. Não achei que fosse ser assim. Nunca tinha acontecido isso. Eu me surpreendi um pouco. Foi bonito. Quando cheguei, já tinha algumas coisas, como camisas. É legal.

Acha que também tem uma diferença grande de estrutura?

Tem algumas diferenças, mas hoje o nosso CT tem dois campos bonitos, vestiário bonito. Lá dentro tem hidro, tudo. Eles têm essa preocupação de ser luxuoso, bonito. Para mim não, que estou aqui perto, mas os outros brasileiros têm motorista, que busca cada um para ir ao treino, para o jogo. Em tudo o que podem ajudar eles ajudam. Precisa continuar melhorando, precisa, mas eles têm tudo e têm vontade para melhorar. Estão querendo chegar forte daqui a uns anos.

Você falou que sente falta da festa, das brincadeiras. Já encontrou lugares para se distrair?

Não, porque a gente chegou há 20 dias. Agora que está acabando a correria de procurar apartamento, comprar coisas, mandar trazer telefone. Estou de motorista também, porque a carteira de motorista do Brasil não serve aqui. Então, não tive muito tempo para ficar calmo, pensar em sair para comer. Às vezes, a gente sai para o shopping. Mas aqui tem de tudo, tem churrascaria, lugares para se divertir. Tem parque de diversões, Hong-Kong a duas horas, uma praia. Tem muito lugar para conhecer que vale a pena. Se a Paula aguentar, agora que está com o filhinho aí...

E o filhinho vai ser chinês?

É, vai ser chinês. A gente ainda não sabe se vai nascer aqui ou em Hong-Kong. Agora tem que ver se vai ser argentino ou brasileiro. A Paula é brasileira, mas ele não pode ter as duas nacionalidades. Então, vamos ver. Temos que entrar em negociação.          

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