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Os bastidores da trégua entre Zico e Romário no evento "Jogo das Estrelas"

Os bastidores da trégua entre Zico e Romário no evento "Jogo das Estrelas"

Atualizado: Segunda-feira, 28 Dezembro de 2009 as 12

No vestiário, antes da partida, Zico foi recepcionar Romário. Era o primeiro encontro dos dois após a reaproximação. O Galinho apertou a mão do Baixinho, deu-lhe um tapa nas costas e agradeceu a presença na sexta edição do ''Jogo das Estrelas'', neste domingo, no Maracanã. Depois, cada um foi para um canto aguardar o início do evento. O maior ídolo do Flamengo ficou conversando com Júnior, Andrade, Adílio, Nunes e outros amigos. O herói do tetracampeonato da seleção brasileira bateu um papo com Bebeto e brincou com o neto de Galinho, Felipe. Mas o clima estava descontraído, e um craque não parecia estar incomodado com a presença do outro. Enquanto isso, Adriano chegou. Em cima da hora, mas ainda em tempo de pegar a camisa 9 e entrar em campo.

Zico e Romário se abraçam. O primeiro capítulo da história de paz entre dois ícones do futebol brasileiro Apenas o primeiro passou foi dado, e a relação entre Zico e Romário ainda vai demorar a ser sólida. Os problemas no passado foram muitos, e as feridas estão sendo fechadas aos poucos. Mas a trégua entre os craques está selada. A reaproximação aconteceu por acaso, meio que por uma obra do destino. A Suderj queria fazer um jogo especial no fim do ano para marcar o fechamento do Maracanã para as obras da Copa do Mundo de 2014. Assim, resolveu procurar o Galinho e propor que a sua tradicional partida beneficente reunisse os ''Amigos de Zico'' contra um combinado formado pelas seleções campeãs mundiais de 1994 e 2002.

Estrela da conquista nos Estados Unidos, Romário seria convidado para jogar na seleção. Ficaria de um lado, e Zico, do outro. A reaproximação começou em setembro por de Jorginho, auxiliar do técnico Dunga. Antigo companheiro de Zico no Flamengo, o ex-lateral é muito amigo do Baixinho. O convite para participar da festa foi feito por um dos filhos do treinador do Olympiacos (Grécia), Bruno, há algumas semanas num encontro casual em restaurante do Rio de Janeiro. Zico, ao chegar ao Brasil na última quarta-feira, para as festas de fim de ano, selou a paz ao ligar para Romário e agradecer por ele aceitar participar da partida beneficente, mas afirmando que os dois jogariam na mesma equipe.

''Com a idade, ficamos mais maduros, e os conceitos mudam. Quando somos mais novos, fazemos muita coisa impensada. O Bruno falou primeiro comigo, e depois o Zico ligou. O fato de ele ter feito isso foi muito bacana. É lógico que tinha de aceitar, e é uma honra jogar ao lado dele. É muito bom depois de 11 anos voltarmos a nos falar. O que aconteceu fica para trás. A partir de hoje começa uma nova relação'', disse Romário, antes de entrar em campo no Maracanã.

Anfitrião da festa, Zico foi o primeiro a aparecer em campo, com o neto Felipe no colo. Logo atrás veio o Imperador. Romário, vestindo a camisa 11, estava no fim da fila. Antes de a bola rolar, surgiu no gramado a taça do hexacampeonato brasileiro. Ela foi entregue a Zico, que correu para perto da torcida rubro-negra. Adriano também participou da comemoração. Romário ficou parado no meio-campo, apenas observando.

Após alguns minutos de nostalgia, com veneração dos torcedores não apenas a Zico, Adriano e Andrade, mas também para outros rubro-negros, como Adílio, Bebeto, Nunes, Júnior e Zinho, o árbitro entregou a bola nas mãos do Galinho. Ao lado do Baixinho, os dois deram o toque inicial da partida. E ocorreu o momento que todos os torcedores esperavam. Zico e Romário juntos. Duas gerações de craques e ídolos juntas. O entrosamento veio naturalmente, com facilidade.

As tabelas foram surgindo, e ainda havia Adriano para ajudar. Em uma delas, Romário tocou para o Imperador, que foi derrubado na área. Pênalti. O Baixinho nem se apresentou para cobrar, e o Galinho, educadamente, deu a bola para Adriano, o ídolo do Flamengo do momento. Mas a torcida começou a gritar ''Zico'', e o atual camisa 10 rubro-negro rapidamente devolveu a gentileza. O eterno dono da camisa 10, então, se apresentou e bateu com categoria, deslocando o goleiro Carlos Germano. Romário e Zico se abraçaram na comemoração. Naquele momento, a partida estava empatada em 1 a 1.

Bastaram 20 minutos para a dupla se entender e começar novamente o show. A partir daí, o que se viu foram toques bonitos, rápidos, de pura genialidade. De letra, Romário deu um lindo lançamento para Zinho. Zico deixou Adriano na cara do gol, mas o Imperador perdeu. Depois foi a vez de Romário, com um toque de cobertura, fazer Adriano ficar frente a frente com Carlos Germano. Mas o ex-goleiro do Vasco defendeu. Após perder dois gols incríveis, o Imperador recebeu o carinho de Romário e, depois, de Zico.

Romário, Adriano e Zico: Imperador foi um coadjuvante de luxo para os protagonistas Galinho e Baixinho O segundo gol surgiu em uma tabela das principais estrelas da festa. O Galinho recebeu, deu um drible sutil em Gonçalves e deslocou Carlos Germano com categoria. Explosão no Maracanã após mais uma obra de arte daquele que é o maior artilheiro da história do estádio, com 333 gols. Veio o intervalo. E com ele novas declarações de paz entre os dois jogadores.

''Infelizmente fomos de gerações diferentes. Um ataque com Zico e o Bebeto também seria incrível na seleção. É um prazer jogar mais uma vez ao lado de um dos maiores jogadores do futebol mundial de todos os tempos'', disse Romário.

Rasgação de seda também do outro lado

''Não preciso nem falar muito sobre o Romário. O Johan Cruijff (ex-jogador holandês e técnico de Romário no Barcelona), que foi um dos grandes jogadores que conheci, disse que ele é o 'Gênio da pequena área'. Lá ele entende como poucos. Nós vamos embora dessa vida, e as pendências ficam. O importante é o coração. O meu está aberto, já tirou todas as pendências. Aprendemos a aceitar as críticas com o passar dos anos. Às vezes, nos deixamos levar por coisas que não falamos. Eu acredito que isso tudo termina um dia. É bonito vê-lo aqui'', disse Zico.

Veio o segundo tempo, e Zico e Romário continuaram o show. O Baixinho fez o terceiro gol no seu melhor estilo. Recebeu na área e tocou com calma na saída do goleiro. O quarto também foi dele, de pênalti. A torcida pediu para Romário cobrar e depois gritou o seu nome. Mas o quinto é que foi especial. Romário passou para Zico, que chutou na saída do goleiro. No placar Flamengo 5 x 5 Amigos de Zico (assista aos gols no vídeo ao lado). Logo após fazer o seu terceiro na partida, o Galinho deixou o campo. Aplaudido de pé pelos torcedores e por Romário.

''Se eu tivesse jogado com o Zico, com certeza teria marcado dois mil gols'', brincou Romário, que encerrou a carreira com 1.002.

Fim de jogo, Zico voltou para o campo, e os dois se abraçaram. Depois cada um seguiu para um lado. A paz, no entanto, está selada. O Galinho não vai retirar a ação que move na Justiça (já em fase de execução) contra o Baixinho, por causa de uma caricatura sua segurando um papel higiênico estampada na porta de um banheiro da boate de Romário, em 1998. Mas o tempo parece curar as feridas. Aos 56 anos, Zico deu o primeiro passo para a reaproximação. Aos 43, Romário, que a cada dia ganha mais cabelos brancos, está mais calmo e passou a valorizar mais a razão do que a emoção. Quem ganha é o futebol brasileiro.

Imagem: Uol

Por Thiago Lavinas

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