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Perfil "estrangeiro" da seleção dificulta elo com a torcida, dizem especialistas

Perfil "estrangeiro" da seleção dificulta elo com a torcida, dizem especialistas

Atualizado: Sexta-feira, 14 Maio de 2010 as 9:07

O Brasil vai disputar a Copa do Mundo com uma seleção com 87% de jogadores que jogam fora do país. Dos 23 atletas convocados por Dunga, apenas três jogam no Brasil. Alguns jogadores, há oito, nove anos, tiveram filhos no exterior e fazem da seleção o principal vínculo com o país. Este caráter "estrangeiro" da seleção dificulta a criação de vínculos de identidade da torcida com o time, segundo especialistas ouvidos pelo G1.

O fenômeno da internacionalização da seleção brasileira começou timidamente em 1982, quando pela primeira vez jogadores que atuavam na Europa foram chamados para a Copa. Este número de "estrangeiros" foi aumentando ao longo dos Mundiais, até chegar a 20 na Copa de 2006, índice que se repete agora em 2010. Reflexos da globalização do futebol.

"O esporte mudou a sua organização no mundo contemporâneo. O atleta hoje não tem nação, ele faz seu vínculo com o clube que melhor lhe paga", indica a professora doutora Katia Rubio, da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP), especialista em psicologia do esporte. Segundo ela, a relação da torcida com os jogadores é de distanciamento. "Há uma falta de identificação da emoção do torcedor com o time. Vimos na convocação uma apatia absoluta da torcida com os "estrangeiros" convocados", destaca a professora, que acredita que será o torcedor o responsável por levar emoção à Copa.

Para Bernardo Buarque de Hollanda, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (RJ), "o atleta vê a Copa do Mundo como mais um compromisso proveitoso para seu interesse particular, e não como um momento de "serviço à pátria".

"É inegável, e legítimo, o apelo individual da Copa para um jogador que almeja se projetar, sobretudo neste momento de "futebolização do mundo"", diz ele, que acaba de lançar o livro "O clube como vontade e representação". "O importante é saber convergir, na cabeça do jogador, o interesse pessoal e o coletivo, como se tratasse da mesma coisa."

O cineasta José Carlos Asbeg, diretor do documentário "1958 - o ano em que o mundo descobriu o Brasil", que narra a conquista do primeiro título mundial da seleção, acredita que o sistema mercantilista do futebol brasileiro "vende o astro e compra o espetáculo".

"O Brasil continua com o mesmo modelo econômico de colônia, vendendo matéria-prima para depois comprar a manufatura. Nós vendemos os melhores jogadores do mundo e compramos a transmissão dos campeonatos chatíssimos da Alemanha e da Espanha. Quando teremos uma partida como aquele Santos e Santo André, por exemplo, num campeonato europeu? ", questiona.

Para Asbeg, a Copa do Mundo é a síntese do futebol mercantilista, que vive do dinheiro e não mais do espetáculo. Na visão dele, falta "arte" no futebol atual. Fazer um longa-metragem sobre a seleção brasileira atual seria impossível . "Fica difícil filmar dois toques, jogador que passa para trás, parece uma repartição pública", diz Asbeg.

"É diferente do que vimos em 1958. Quando Pelé dá balãozinho na final da Copa do Mundo com 17 anos de idade no zagueiro sueco, escreveu outro rumo do futebol. Garrincha deixava a bola parada e fingia correr para um lado não era para debochar, mas para mostrar que existia uma outra maneira de ultrapassar o adversário. Quando a bola vem alta e o jogador escolhe lançar as pernas acima da cabeça como se fosse um trapezista, ele cria um movimento melhor que qualquer coreógrafo. Isso é arte."

Cidadãos do mundo

Quando o zagueiro Lúcio deixou o Brasil para ir jogar futebol na Alemanha, em 2001, levanto a mulher e a filha, o país era governado por Fernando Henrique Cardoso, Michael Jackson anunciava uma turnê para celebrar 30 anos de carreira e o mundo via estarrecido o ataque às Torres Gêmeas no famoso 11 de setembro. Hoje, o Brasil vive o final do segundo mandado do presidente Lula,Michael Jackson vivou mártir após morrer no ano passado, e o exército americano ainda procura Osama Bin Laden, apontado como mentor do ataque de 2001.

Nesse período, Lúcio foi campeão do mundo na conquista do penta em 2002, teve outros dois filhos, trocou a Alemanha pela Itália e virou capitão da seleção brasileira. Nove anos depois, ele é o jogador do time de Dunga que está há mais tempo longe do país. Lúcio fala alemão e italiano fluentemente. Gilberto Silva, há oito anos longe de Minas Gerais, seu estado natal, é fluente em inglês. Elano está há cinco anos fora e já passou por Ucrânia, Inglaterra e Turquia. E o astro Kaká, há sete anos na Europa, é uma lembrança vaga entre os torcedores do São Paulo, que o viram surgir para o futebol há quase uma década.

"A internacionalização do futebol redimensiona a figura do ídolo", destaca Buarque de Hollanda. "Hoje o jogador não é um ídolo exclusivamente nacional, não apenas os brasileiros cultuam Pato, Ronaldinho, Luís Fabiano. Mas esta mudança não deve ser vista necessariamente de maneira negativa, é o curso da história e da sociedade."

Heróis ou anti-heróis?

Sem os jogadores clamados pela torcida, como Neymar, Ganso e Ronaldinho, a torcida vai ter dificuldades em encontrar na seleção, na visão dos acadêmicos, um jogador que encarne o símbolo do "herói nacional".

Autora do livro "Heróis Olímpicos Brasileiros", Katia Rubio vê na composição do grupo escolhido por Dunga uma tendência do treinador de chamar os holofotes para si. "O Dunga vai buscar a liderança externa, para que o foco fique sobre ele, e não sobre os atletas", avalia. A figura do herói, neste caso, se dilui em nome do coletivo.

"Os técnicos que preferem um time "desencantado", isto é, sem aura e sem magia, como nos acostumamos a cultuar", avalia Buarque de Hollanda. "Em virtude disso, a posição do Dunga se torna ainda mais visada - espécie de anti-herói em potencial, caso o time venha a frustrar as expectativas de vitória do povo. É o ônus de tentar ir contra a 'opinião pública'. Scolari, por exemplo, bancou isso, ao não convocar Romário. Só a conquista do penta o redimiu."

Os especialistas acreditam, no entanto, que apesar de tudo a torcida vai torcer para o Brasil na hora em que a bola rolar. "A Copa mobiliza todo mundo", avalia Rubio. "Quando jogo começa, o brasileiro vai torcer, independentemente do jogador que estiver em campo. Asbeg acha que o Brasil tem chances de ser campeão do mundo seguindo a filosofia de Dunga. Mas lança uma questão: "Será que não ficaremos com a dúvida de que teríamos vencido igualmente com jogadores mais talentosos capazes de nos fazer levantar da cadeira e bater palmas?"

Por Paulo Guilherme

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