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Por um ano menos 'espetacular': Matias, mais seguro, quer vida nova

Por um ano menos 'espetacular': Matias, mais seguro, quer vida nova

Atualizado: Quinta-feira, 3 Março de 2011 as 8:44

Espetacular coisa nenhuma. O que Wilson Matias mais quer em 2011 é ter a regularidade que se exige de um primeiro volante, é ter a segurança como substituta da dúvida, é ter a compreensão da torcida. O jogador começa o ano disposto a exorcizar o apelido que o persegue desde que Fernando Carvalho, na época vice-presidente de futebol do Inter, disse que o clube estava fazendo uma contratação espetacular com a chegada do volante.

Matias sofreu com isso. Ele não entende como um primeiro volante, do tipo marcador, pode ser espetacular. E nem faz questão de ser. O que ele quer mesmo é encontrar solidez dentro de campo. E é aí que entra Bolatti. Com ele a seu lado, o terreno de caça aos oponentes fica mais dividido do que nos tempos de vizinhança exclusiva com Guiñazu, famoso por suas escapulidas ao campo de ataque.

Wilson Matias está convicto de que terá um ano melhor em 2011. Ele admite que a última temporada não foi das melhores, mas escancara otimismo em entrevista exclusiva concedida nesta quarta-feira, no Beira-Rio.

Lembro que você, em uma entrevista no Beira-Rio, disse que tinha certeza de que esse ano seria melhor do que o último. E ficou claro que você falou aquilo porque realmente pensa isso. Não foi da boca para fora. De onde você tira essa certeza?

Eu, como cristão, tenho fé em Deus. Ele nunca vai desamparar um filho. A certeza é de um trabalho que inicio querendo reverter uma situação, uma imagem que todos têm a meu respeito. Cheguei, era o espetacular, não virei o espetacular. Não me sinto espetacular. O Fernando se expressou mal. Foi uma carga que ficou em mim. As pessoas perguntavam: “Cadê o espetacular?”. Mas quero deixar claro que sou um volante, não sou um jogador que vai lá e faz três, quatro gols. No México, fazia isso por temporada, mas jogava mais na frente. Sempre fui um jogador de marcação. As pessoas confundiram a interpretação do Fernando Carvalho.

Que imagem você gostaria que as pessoas tivessem de você, já que você não gosta dessa de espetacular?     De um jogador que se entrega, que ajuda o coletivo. Um dos volantes às vezes tem que ser crucificado. Em todos times de ponta, é difícil ver um jogador de defesa que seja fora da média. De 100, se destacam dois. Às vezes, o segundo volante faz tudo, leva o nome, mas ninguém vê o trabalho do outro, que tem que marcar para ele ter a confiança de subir. Tem que ser a imagem de um jogador que vai morrer pelo time, fazer de tudo para a individualidade aparecer. Temos jogadores de muita qualidade, como o D’Alessandro, e as pessoas não veem nossa parte defensiva. Tem todo um processo de nós defendermos lá atrás. É um trabalho coletivo, e aí o individual aparece.   Se você começou o ano com o desejo de melhorar em relação ao ano passado, depreende-se que você não ficou muito satisfeito com o que aconteceu em 2010. Por que isso?     Depois que o Sandro saiu, tive uma sequência maior, mas sei que não joguei no nível em que comecei esse ano. O jogador precisa de autocrítica. Não tenho medo de assumir quando faço as coisas. Não joguei no nível que deveria. O jogador precisa assumir quando não está bem. Mas nunca deixei de trabalhar. Pensar que pode melhorar dá mais motivação nessa briga interna.     Foram só cinco jogos na temporada até agora, mas você acha que essa mudança já começou? Você acha que seu rendimento melhorou?     Eu me sinto mais confiante, sinto que o treinador me dá mais oportunidade de sair, mesmo marcando. A primeira função é marcar, mas quando tenho a bola, posso sair. Com tudo que aconteceu no ano passado, ele me manteve no time. Tenho que retribuir dentro de campo.   Você se considera um primeiro volante, aquele volantão clássico, ou acha que é mais um segundo volante?  

Saí do Brasil jogando como segundo volante. Sempre joguei assim. Joguei um ano ou um ano e meio no México de primeiro volante, e aqui voltei a jogar assim. É uma mudança. Ficava na dúvida, e quando tinha essa dúvida, não sabia se saía ou se ficava. Agora, com a mentalidade de ser o primeiro volante, o volante clássico, que rouba e toca, começo a evoluir.

Tenho essa clareza de que ele quer que eu seja primeiro volante, mesmo tendo a liberdade de sair. Se perdermos a bola, tenho que estar ali. Temos muita qualidade do meio para a frente, mas não podemos ter tudo, ser bom atacante e bom defensor. Tem que ter uma mescla, um balanço. Estou me readaptando como primeiro volante. Pude assimilar o que o treinador quer. No ano passado, ficava nessa dúvida. Acho que fui melhor quando joguei de segundo volante, especialmente contra o São Paulo, quando joguei com o Glaydson e fiz um gol.

Com o Guiñazu, já não posso ter essa liberdade. Ele tem uma característica de saída. Ele veio para o Inter jogando mais de meia do que de volante. Já assimilei isso. Fiz uma análise, conversamos, e não tenho por que ficar na dúvida. Hoje, tenho segurança de saber que se errar, não será pela dúvida. Todo ser humano erra. Com o Bolatti, dá para ver que ele é mais segundo volante. Ele sai mais. Tenho que assimilar que sou o primeiro. Tem muita gente que joga. Se todo mundo jogar, quem é que vai marcar?     Existe uma visão no clube de que você rendeu melhor quando tinha um outro volante a seu lado. Agora, o Bolatti entrou no time. Você acha que será beneficiado pela entrada dele?     Sem dúvida. É um jogador muito inteligente. Vai ter momentos do jogo em que estarei melhor do que ele e poderei sair, porque ele vai saber ficar. Ele tem uma característica de também jogar como primeiro volante. No ano passado, eu não tinha essa segurança de ir. Ele tem muita qualidade. Essa mescla está sendo boa. Acho que é por isso que estamos jogando juntos. O Celso aprovou, e o time está ganhando. Quando o time ganha, é porque alguma coisa está certa. Não é por acaso.     Você se sente mais seguro com esse esquema?  

Sim, me sinto mais seguro. Posso jogar e marcar, mas sei que, acima de tudo, sou o primeiro volante.

Quando bate aquela vaia para você no Beira-Rio, o que você pensa?     Eu penso que preciso manter a concentração no jogo e errar o menos possível. Tenho que entender que a torcida é muito emotiva. Se o time não está ganhando, com ídolos que não estão jogando, o atleta que está chegando vai ser cobrado, porque não tem uma passagem gloriosa pelo time. Se tem um título, é completamente diferente. É algo normal. Em nenhum momento, me abati. Não vou me abater pelas vaias. Cheguei aqui porque mereci. Nunca tive medo de coisas novas. Foi por isso que vim para o Inter. Estava em um lugar muito cômodo. Era respeitado, sempre elogiado, e agora tem crítica e vaia, mas isso me motiva mais. Quero mostrar para as pessoas que me vaiam que elas estão equivocadas. As pessoas têm esse direito.

Mas acha que é injusto?

Acho que às vezes é muito injusto. Todos os jogadores erram. Ninguém erra por errar. A torcida tem que ter paciência. Procuro sempre fazer o melhor pelo time.

Como você acha que será seu futuro próximo no Inter? Qual sua previsão?

Vou ter sucesso. A pessoa precisa ter pensamento positivo. Quem trabalha, não tem razão para pensar negativo. Tenho que continuar fazendo o que estou fazendo, melhorando a cada dia.

Você falou da diferença entre um jogador que tem uma grande conquista no clube e outro que não tem. É isso que te falta? Falta um título expressivo como titular?

Sem dúvida. Quando o jogador consegue um título assim jogando, as pessoas olham de forma diferente. Em time grande, é assim. O jogador vive de conquista. Não existe jogador bom que não ganhou nada.    

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