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Preparador físico vai comandar o Fluminense interinamente

Preparador físico vai comandar o Fluminense interinamente

Atualizado: Terça-feira, 15 Março de 2011 as 10:59

Vitórias, cobranças, título e alguns mistérios. A passagem de Muricy Ramalho pelas Laranjeiras foi curta e intensa. Em 11 meses de trabalho, o treinador levou o Fluminense à conquista do Campeonato Brasileiro após 26 anos de espera. Mas sempre deixou claro que a estrutura ultrapassada do clube estava longe da ideal. Mas não foram apenas essas constantes reclamações que levaram o técnico a pedir o boné. Os problemas recentes na política interna do clube, com um novo grupo chegando ao poder e a sempre presente ingerência de Celso Barros, aliados a propostas do Santos e da seleção mexicana, também acabaram influenciando na decisão. Constantemente preocupado com a imagem e com a ética, Muricy deixou o Tricolor por onde menos queria: a porta dos fundos. Esse, ao menos, é o sentimento deixado em boa parte dos corredores das Laranjeiras.     Os jogadores só foram comunicados da decisão do treinador após o Fla-Flu do último domingo. No vestiário, o clima era de velório. Atônitos, muitos não acreditavam no que estava acontecendo. À torcida, o técnico nem ao menos se dirigiu. Após o clássico, ele deixou o Engenhão sem dar entrevistas. Uma postura muito diferente da esperada pela diretoria e da pregada por Muricy durante sua carreira. Meses antes, o treinador não assumira a Seleção Brasileira e afirmara que "não poderia largar o Fluminense e deixar para trás o esforço do patrocinador, do presidente, e o apoio da torcida". No clube, a história é contada de outra maneira. Com uma proposta salarial inferior e sem a garantia de dirigir o Brasil na Copa do Mundo de 2014, Muricy mudou de ideia após dar uma resposta positiva ao convite de Ricardo Teixeira. Para não fechar portas na CBF, pediu que o Fluminense resolvesse a situação. E assim foi feito, com o Tricolor não liberando o treinador. Dessa vez, porém, a missão de dar exemplo para os filhos, como ele mesmo prega, aparentemente foi esquecida.     A rescisão foi tratada diretamente entre Muricy e Celso Barros, presidente da patrocinadora do clube, sem o conhecimento de Peter Siemsen, mandatário do Tricolor, que se irritou com o episódio. Como já é normal no futebol do Fluminense, o técnico tinha contrato com o clube e com a Unimed. Este último, porém, com valores muito maiores, já que a empresa pagava praticamente todo o salário de aproximadamente R$ 600 mil mensais. O empresário do treinador, Márcio Rivellino, chegou ao Rio de Janeiro no início da semana passada para resolver outros assuntos e tomou conhecimento do desejo do técnico.

Rivelllino procurou então Celso Barros, que já não estava mais satisfeito com o trabalho de Muricy e por vezes o criticava no camarote da patrocinadora do Flu no Engenhão. Aliás, era tradição o jantar entre a diretoria e o técnico da vez no camarote após os jogos. Mas Muricy nunca apareceu. Como a vontade de ambos era a mesma, Celso até abriu mão da multa rescisória. Peter só foi saber da situação na sexta-feira. Já era tarde demais.

Em sua justificativa oficial após o anúncio do pedido da demissão, Muricy culpou, principalmente, a falta de estrutura do clube. Este foi apenas um dos fatores que o levaram a sair. Na verdade, o técnico já tinha perdido a esperança de manter um trabalho de alto nível até o fim de seu contrato, que terminaria em dezembro de 2012. Após o título, ele sugeriu uma visita ao CT do São Paulo, em Cotia. A ida foi cancelada porque Peter teve outro compromisso, ainda referente à campanha eleitoral. Alternativas também foram levantadas pelo clube. Cerca de R$ 800 mil serão usados para reformar quatro campos, alojamentos e vestiários no CT das categorias de base, em Xerém. Alugar o CT do Tigres, também em Xerém, foi outra opção dada ao treinador. Ambas foram recusadas por causa da distância. Além de insatisfeito com o local para treinos, Muricy começou a perder a paciência quando problemas que não eram de sua alçada passaram a estourar na sua cabeça, como quando o zagueiro André Luis faltou a um treino. O técnico pediu uma punição e não foi atendido. Em contrapartida, o jogador foi afastado do elenco, o que acabou forçando o clube a negociá-lo.

- Não me meto nos problemas políticos do clube. Acredito que o jardineiro tem de cuidar apenas do jardim, o roupeiro apenas da roupa e o treinador tem de cuidar do time - costumava dizer.

A vontade de morar no Rio já não era mais a mesma. Certa vez, Muricy pensou em trazer a esposa, Rosely, para residir na cidade. Desistiu. Os resultados tampouco ajudaram, e o Fluminense corre o risco de ter um primeiro semestre desastroso. Eliminado pelo Boavista na semifinal da Taça Guanabara e em situação delicadíssima na Libertadores, o time poderá ter de apostar todas as suas fichas na Taça Rio. Muito pouco para quem terminou o ano levantando a mais cobiçada taça do país. Os sintomas da insatisfação logo apareceram. Diferentemente do ano passado, em 2011 o estilo rabungento voltou a predominar. Nas entrevistas, os destratos com os profissionais de imprensa voltaram. A relação com o elenco também já não era a mesma. Sempre turrão, Muricy começava a desagradar a alguns jogadores.

Nos bastidores das Laranjeiras, a proposta do Santos é apontada como fator preponderante para a saída do treinador. E ela sempre é citada com o adjetivo irrecusável ao lado. Mas quem fez parte da negociação para levar o treinador para o Fluminense em 2010 garante que Muricy ainda vai demorar algumas semanas para assumir outro trabalho. No ano passado, as negociações começaram quando Cuca ainda era o treinador da equipe. Aos dirigentes, Muricy pediu sigilo total para manter a boa imagem.

O tão falado convívio com o ex-vice-presidente Alcides Antunes também é cercado de mistérios. Desentendimentos aconteciam, como em todas as relações. Não foram poucas as vezes em que Muricy reclamou do fato de que o dirigente não fazia o que lhe era pedido. Por vezes, Alcides deixava de aplicar punições pedidas pelo treinador. Em outras, sequer levava à diretoria as solicitações do departamento de futebol. A exoneração do dirigente foi oficializada no sábado, quando Muricy já havia tomado sua decisão. Foi talvez a última cartada de Peter Siemsen para mostrar ao treinador que o futebol tricolor passaria por mudanças e tentar fazê-lo mudar de ideia. Para a torcida tricolor, infelizmente, a tentativa foi em vão.

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