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Raro entre boleiros

Raro entre boleiros

Atualizado: Domingo, 5 Dezembro de 2010 as 9:21

O capitão William em suas três conquistas: Série B, Paulista e Copa do Brasil

(Foto: Globoesporte.com)   O dia 5 de dezembro pode marcar (ou não) o título brasileiro do Corinthians. Mas uma coisa é certa, antes mesmo de a bola rolar: a partida deste domingo, às 17h, contra o Goiás, no Serra Dourada, em Goiânia, será a última do zagueiro William. Não com a camisa do Corinthians, mas sim no futebol profissional. Aos 34 anos, o capitão alvinegro dos últimos três anos se despede do esporte.

Raro entre os boleiros, o zagueiro, fã de Chico Buarque, leitos assíduo de livros de história e estudioso da economia, deixa o futebol para aprender inglês e trabalhar como consultor financeiro. A presença dele nos holofotes foi pequena. Apenas quando jogou em Grêmio e Corinthians, nos últimos cinco anos de carreira, mas o suficiente para que ele ficasse marcado como o capitão da retomada do orgulho.

- Foram três conquistas (Série B, Paulistão e Copa do Brasil), mas mais importante do que os títulos foi a recuperação do respeito pelo Corinthians. O time estava na pior página de sua história, em uma situação muito complicada, rebaixada à Segunda Divisão. Mas com a ajuda dos corintianos conseguimos dentro de campo retornar ao lugar de onde não tínhamos de ter saído – declarou o camisa 4.

William encerra sua carreira no clube que mais se identificou. No qual fez 160 jogos e anotou quatro gols (veja abaixo). Confira abaixo os principais tópicos da entrevista com ele.

Intercâmbio e mochilão

A partir de março do ano que vem, William vai realizar um antigo sonho: aprender inglês. Desde criança o zagueiro tem vontade de fazer um curso e aprender o idioma mais falado do universo, mas limitações financeiras e falta de tempo impediram uma dedicação a esse sonho, que agora está acompanhado de outro.

Depois que terminar os seis meses de intercâmbio (quatro em Londres e dois em Malta), William vai viajar por Europa, Norte da África e Ásia.

- Enquanto estiver estudando, vou conseguir viajar apenas pela Europa. Conversei com um amigo que está na Suíça e pretendo ir para lá. Penso em ir também para a Alemanha, Berlim e a região da Bavária, Escócia, Noruega, Dinamarca e Islândia. Depois de estudar, quero ir para o Norte da África e Ásia, que sempre tive vontade de conhecer. Penso em viajar para o Egito. China, Tailândia e Indonésia também são outros lugares que devo ir – contou o camisa 4 do Timão.

Consultor financeiro

Adquiri gosto por isso quando estudei na faculdade, justamente quando ganhava menos dinheiro no futebol" William William não esconde de ninguém que adora números. No Corinthians, aliás, era ele quem negociava com a diretoria o bicho dos jogadores, aos quais também ajudava com dicas de investimentos. Essas atividades foram uma espécie de estágio para a carreira que o zagueiro vai tomar depois que encerrar sua viagem.

Junto com um amigo, ele abriu a Redoma Gestão de Capital, uma empresa de consultoria financeira. Algo que queria fazer desde os tempos em que cursou ciências contábeis (William parou no último ano e esteve em três faculdades diferentes por conta das atividades como jogador de futebol).

- Adquiri gosto por isso quando estudei na faculdade, justamente quando ganhava menos dinheiro no futebol. A primeira coisa que aprendemos na faculdade é que você deve gastar menos do que ganha. Não foi possível fazer um pé de meia naquela época, mas eu tentava economizar. Eu só não abria mão de ter um bom plano de saúde, alimentação e moradia. Em um clube menor, você não tem tantas condições para se tratar se estiver com algum problema – falou o capitão.

Enquanto William falava com o GLOBOESPORTE.COM , no CT Joaquim Grava, em São Paulo, Ronaldo passou por perto. O primeiro cliente da Redoma?

- Esse é esperto e sabe cuidar bem do dinheiro (risos) – brincou o zagueiro.

  Cinco anos de “bônus”

Neste domingo, logo depois da partida com o Goiás, a carreira de William será oficialmente encerrada no futebol. Alguns acham cedo, mas na verdade era para ter sido bem antes. Ou melhor, cinco anos antes. Em 2005, depois de uma cirurgia, o zagueiro tinha colocado na cabeça que deveria se aposentar.

É muito difícil chegar em um grande clube. O futebol é muito difícil e é coletivo. Às vezes, o time não faz uma grande campanha e você não consegue nada" William - Em outubro de 2004 fiz uma operação no púbis e não sabia se voltaria a jogar normalmente. Então, já planejava encerrar a carreira em 2005 e viajar para a Inglaterra para estudar inglês. Depois, voltaria a Joinville para terminar a faculdade e trabalhar. Não vislumbrava a possibilidade de jogar em clubes grandes. Não tinha essa esperança porque estava com quase 30 anos e sei o quanto é difícil – falou.

Quem salvou William foi o Ipatinga. Depois de um contrato de risco, ele resolveu jogar mais um pouco e acabou, em sequência, no Grêmio e no Corinthians.

- Fui para Ipatinga nas férias e me convidaram para ficar. Fiz um contrato de risco, mas percebi que estava recuperado. O clube fez uma grande campanha e foi campeão. Foi uma reviravolta. O Ipatinga estava melhorando de condição e ofereceu um contrato melhor e, então, desisti de viajar – completou William.

Mas o zagueiro, hoje com 34, admite que demorou mesmo a explodir no futebol. Clubes grandes foram apenas dois. O Tricolor Gaúcho e o Alvinegro Paulista.

- É muito difícil chegar em um grande clube. O futebol é muito difícil e é coletivo. Às vezes, o time não faz uma grande campanha e você não consegue nada. Em 2002, nos classificamos para a fase final da Série C com o Ipatinga. Mesmo a equipe indo bem, não apareceu nada para ninguém, a não ser para um goleiro, que foi para o Criciúma. Eu fui uma contratação de risco para o Grêmio porque ninguém sabia o que eu poderia render exatamente – acrescentou o capitão.

Empresário e Fiel

No último treino, William fez a alegria dos amigos

(Foto: AE) William não tem empresário. Nunca teve. Sempre negociou por contra próprio. Até porque acha difícil confiar a alguém os seus interesses nesses casos. A não se aqueles que estão nos clubes grandes, mas como ele chegou tarde a esse ponto...

- O empresário precisa ser muito bom. E empresário bom não quer jogador de time pequeno. Eu vejo muito empresário picareta por aí e sempre fui muito arredio com essas coisas de porcentagem em contrato – falou o corintiano.

Mesmo que tarde, já depois dos 30, William conseguiu ser ídolo de uma torcida. Para os corintianos, ele é sinônimo de segurança na defesa. Especialmente quando joga ao lado de Chicão, seu parceiro desde 2008. Agora que vai parar, ele confessa que sentirá falta. Mas adotou uma estratégia para não sentir tanto.

- Estou parando nas férias. Todo mundo vai parar junto. Então, ainda não me sinto saudosista. Talvez, quando eles (jogadores) estiverem treinando lá em Itu na pré-temporada eu lembre. Estarei em Florianópolis e vou ficar tirando fotos pelo celular e mandando para eles (risos) – brincou o jogador corintiano.

Neste domingo, para marcar sua despedida, William promete chegar perto da Fiel, com ou sem título, e dar um adeus. Algo que ele queria ter feito no Pacaembu.

- Contra o Vasco, eu fiquei envergonhado de dar uma volta olímpica. Mas, no Serra Dourada, vou até a torcida depois do jogo para me despedir – finalizou.

Boa viagem, William!     Por Carlos Augusto Ferrari e Leandro Canônico São Paulo e Goiânia

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