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Reverência, emoção e habilidade: o provável adeus do maestro tricolor

Reverência, emoção e habilidade: o provável adeus do maestro tricolor

Atualizado: Sexta-feira, 1 Julho de 2011 as 12:32

A habilidade de sempre, mas com sorrisos cada vez mais escassos. Na partida que pode ter marcado sua despedida do Fluminense após três anos e meio, contra o Atlético-PR, Darío Conca mostrou a dedicação que lhe é característica, teve lampejos de habilidade, só que não conseguiu disfarçar o abatimento pela iminente transferência para o Guangzhou Evergrande, da China. A vibração efusiva a cada gol e a alegria constante a cada jogada deram lugar a uma feição reflexiva e, em alguns momentos, até desligada do que acontecia no gramado. Fruto da mistura de emoções natural causada pela negociação milionária e pelo carinho do torcedor.

Bastou o Fluminense pisar em campo para os pouco mais de cinco mil tricolores se agarrarem àquela que parece ser a última esperança para manter o argentino nas Laranjeiras: a comoção pautada na relação de carinho mútuo entre ambos. Gritos de “Fica”, “Fica, por favor. Você é ídolo tricolor” e “P... que p..., é o argentino mais amado do Brasil” foram ouvidos durante os 90 minutos, independentemente do que acontecia na partida. Em campo, Conca ouviu os apelos e nitidamente ficou tocado.

Já com a bola rolando, o apoiador não conseguiu demonstrar o futebol que o levou ao posto de melhor jogador do último Brasileirão. E o motivo não era somente o fato de atuar mais avançado, deslocado de sua posição de origem. O camisa 11 parecia travado. Errava passes incomuns e em determinados momentos caminhava de cabeça baixa, como se refletisse sobre tudo que o espera no futuro breve.

Conca acena para a pequena torcida tricolor no Engenhão (Foto: Alexandre Cassiano / Ag. O Globo)  

A movimentação de um lado para o outro não era suficiente para que participasse efetivamente da partida. Capitão tricolor, ele buscou entendimento em diálogos com Souza e recuou um pouco mais no fim do primeiro tempo. A estratégia deu certo. Foi justamente quando o meia mais esteve com a bola, e o Flu, consequentemente, abriu dois gols de vantagem.

No primeiro, aos 40, foi Conca quem deu o passe para Souza, que encontrou Mariano na área. O lateral cortou para dentro e chutou de canhota: 1 a 0. Dois minutos depois, o argentino foi importante sem sequer tocar na bola. Em arrancada de Ciro, cortou a área em diagonal e puxou a marcação, ajudando a abrir o caminho para o primeiro gol do atacante. Ao término do primeiro tempo, olhar fixo para as escadas que levam ao vestiário e caminhada sem ser incomodado nem por colegas nem pela imprensa.

Na volta para o segundo tempo, o ritual foi o mesmo. Passos firmes, em linha reta, sem parar para falar com ninguém. Com a boa vantagem no placar, o Fluminense deixou de ser tão incisivo no ataque e jogava com inteligência. Quando a bola passava pelos pés de Conca, eram sempre toques curtos, rápidos, tabelas visando o gol. As arrancadas costumeiras foram raras. Entretanto, foi em uma delas que o camisa 11 viveu seu auge na noite.

Sozinho, o argentino se viu obrigado a levar o Tricolor ao ataque. E não titubeou. Partiu em disparada até se ver cercado por quatro adversários. Driblou um, dois, viu a porta fechada, girou, se esquivou das faltas e recuou a jogada para o meio-campo. O lance não levou perigo, não foi perto do gol, mas levou os tricolores ao delírio.

A essa altura, com 3 a 0 no placar, o torcedor não queria mais saber de futebol. A missão era clara: reverenciar o ídolo. Os gritos de “Fica” voltaram a ganhar força, seguidos até mesmo de uma ameaça: “Ê, ê, ê, se vender o Conca a porrada vai comer”. Nem o gol do Atlético-PR abalou os cantos de idolatria.

E foi assim até o jogo acabar. Neste momento, a emoção foi geral e evidente. Em campo, Conca acenava e reverenciava o torcedor. Das arquibancadas, as respostas vinham em alto e bom som. Companheiros, como Mariano, e rivais, como o carrasco de 2008 Guerrón, fizeram questão de abraçá-lo. Curiosamente, a camisa tricolor não saiu de seu corpo do término de nenhum dos dois tempos. Não teve troca desta vez, como se a recordação fosse obrigatória.

Em mais uma caminhada ao vestiário, talvez a última com a camisa do Fluminense, os microfones surgiram como obstáculos intransponíveis. Muitos. Mas ele, como de costume, driblou todos e saiu de cena em silêncio. Assim Conca permanecerá até que o acordo com o clube chinês esteja no papel. A expectativa é que nos próximos dias tudo se resolva.

Se a presença no Fla-Flu do próximo dia 10 é improvável, Conca não seguirá para o Oriente sem se manifestar em entrevista coletiva para os tricolores. Este, sim, será o adeus. Ou, quem sabe, o até breve.          

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