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Rubinho recorda Áustria-2002: 'É a única coisa que não faria de novo'

Rubinho recorda Áustria-2002: 'É a única coisa que não faria de novo'

Atualizado: Quarta-feira, 25 Agosto de 2010 as 9:27

Kyalami, África do Sul, 14 de março de 1993. Um promissor piloto brasileiro fazia sua estreia na Fórmula 1 nesta corrida pela equipe Jordan. A participação não duraria muito: apenas 31 das 72 voltas da prova, por causa de uma quebra no câmbio. Após 18 temporadas, nem mesmo ele poderia imaginar que ainda permaneceria na categoria, correndo em alto nível. E no próximo fim de semana, Rubens Barrichello chega ao seu 300º GP em um local de boas lembranças para ele: Spa-Francorchamps, na Bélgica, onde fez sua primeira pole da carreira, em 1994. O piloto conversou com o GLOBOESPORTE.COM durante o Barrichello Kart Day, evento que promove com jornalistas especializados desde 2009. Tranquilo, ele não deixou de falar sobre nenhum assunto, inclusive os mais incômodos. Em meio a outra polêmica na Fórmula 1 sobre o jogo de equipe da Ferrari, o brasileiro foi sincero e relembrou o episódio mais polêmico de sua carreira: o GP da Áustria de 2002, quando deixou Michael Schumacher passar na reta de chegada e cedeu a vitória ao alemão após receber uma ordem da Ferrari pelo rádio do carro.

- Muitas coisas passaram na minha cabeça naquele momento. Achei que, deixando de vencer aquela corrida, ganharia outras dez, 20 no futuro. Como a equipe fez uma coisa tão feia como aquela, eu teria o troco em outras situações no futuro. Não aconteceu. Vi, na segunda-feira seguinte, que tudo aquilo era uma grande jogada. Só fiquei lá porque não tinha um carro melhor na Fórmula 1. É a única coisa que não faria de novo na vida - diz Rubinho. Após 18 anos na Fórmula 1, o que mudou em você?

Rubens Barrichello: Mudei muito, como tudo na vida. Mudaram as opiniões, a maneira de observar os problemas. Aliás, este é o real item que me mantém na Fórmula 1, a apreciação perante os problemas. Você acha que eles existem mesmo e que amanhã vai ser melhor, mas na verdade, será do jeito que terá de ser. O que importa é modo como você encara a vida e o que você vai aprender de tudo isso. É por isso que estou há tanto tempo na Fórmula 1, com tanta vontade. A ultrapassagem sobre Michael Schumacher no GP da Hungria é um exemplo disso?

Ela mostrou que ainda existe essa vontade. Não é porque era o Schumacher. Não foi vitória nenhuma, foi um décimo lugar. Comemorei a conquista de um ponto em cima de um cara que tem uma história muito mal falada no Brasil. O negócio é lutar por qualquer coisa, sorrir! A motivação para pilotar vale muito nessa Fórmula 1 tão aguerrida, com tempos tão próximos. Do contrário, é hora de ficar em casa.

Você e Schumacher chegaram a ser amigos na época da Ferrari?

Era uma pessoa com quem eu trabalhava junto. Tinha interesse em tê-lo por perto para que a situação na equipe fosse boa. Mas nunca fomos amigos, éramos apenas colegas de trabalho e dividíamos o mesmo papel. É uma pessoa até engraçada fora das pistas, tem um bom humor. Mas a partir do momento em que vi que o cara não fazia questão de ter amigos e que precisava de pessoas babando ovo, não me interessei mais.

Como era o modo de trabalho do alemão na equipe?

Ele era extremamente competitivo e foi competente na organização. Tudo ficava do lado dele. Eu ficava no autódromo até mais tarde, mas as pessoas faziam um trabalho excelente para ele. O Michael teve a competência de chamar as pessoas certas para a equipe e devolver a confiança com um excelente desempenho na pista. Qual o momento nestes 18 anos que você julga ser mais importante na carreira?

A Fórmula 1 sempre foi um sonho. Tive a sorte de pilotar com Ayrton Senna na mesma pista. Não tinha nada de "tinha de ser melhor". Mas você cai na realidade quando deixa de assinar com uma equipe porque as condições não eram boas e a Jordan te colocou na categoria. Acabou que, em 1996, eu já não era o piloto querido. Fiquei no meio de um buraco negro. Não sabia o que fazer. Minha sorte é que a Stewart apareceu no momento certo. Renasci na equipe e prometi que não cometeria os mesmos erros. Já tinha quatro anos de experiência. Estou aqui hoje por causa daquele momento na Stewart.

Você se arrepende de algo que fez em sua carreira na Fórmula 1?

Acredito que a história está escrita, mas você pode mudar rumo de seu destino com decisões tomadas em momentos cruciais. Gostaria de escrever da mesma forma, mas acabei tomando uma decisão após oito voltas de um longo bate-papo longo com a Ferrari na Áustria, em 2002, porque fui ameaçado. Uma palavra crucial me fez pensar: "Será que tenho de pensar mesmo nessa situação?" "Será que não vou mais pilotar pela equipe?" Tantas coisas passaram na minha cabeça naquele momento e achei que, deixando de vencer a corrida, ganharia outras dez, 20 no futuro. Como a equipe fez uma coisa tão feia como aquela, eu teria o troco em outras situações no futuro. Não aconteceu. Vi, na segunda-feira, que era uma grande jogada. Só fiquei lá porque não tinha um carro melhor. É a única coisa que não faria de novo na vida. Só fiquei lá porque não tinha um carro melhor. Conversei com todas os outros times, mas a Ferrari era muito superior naquela ocasião. Após passar por isso, qual sua opinião sobre o jogo de equipe? O que você acha do caso da Ferrari, Felipe Massa e Fernando Alonso no GP da Alemanha deste ano?

Gostaria de não ver mais aquilo, mas a ordem de equipe sempre existirá em uma temporada em que o time esteja brigando pelo título a duas provas do fim. Mas essa ordem apenas na sexta corrida do ano precisa ser modificada, não deveria existir. É realmente ridículo. De novo a gente vê coisas que aconteceram no passado. Estou interessado em saber o que vai acontecer. Só que será muito tarde, a punição deveria ter sido decidida na hora. Não acredito nessa coisa de juiz comprado, nunca vi na Fórmula 1. Mas todos os pilotos sabem que, se não estiverem mais em condições, precisam ajudar a equipe. Eles têm isso claramente em seus contratos, mas só perante algumas situações. Não na sexta prova do ano.

Você passou por seis equipes - Jordan, Stewart, Ferrari, Honda, Brawn GP e Williams - na Fórmula 1. Em qual delas você teve um melhor relacionamento?

Eu me senti em casa em todas, mas criei um ambiente muito legal na Williams. Tenho mecânicos bons e um ótimo engenheiro. Nunca fiquei tão feliz na vida em ver um sorriso como aquele do Frank Williams (na ultrapassagem sobre Schumacher na Hungria). Ele é um lutador. Quero encerrar minha carreira lá. A equipe merece ganhar novamente. Eu mereço ganhar novamente. Se surgir um carrinho melhor, estou bem preparado. Em 18 anos, a Fórmula 1 teve várias mudanças de regulamento. Qual delas foi a pior para sua adaptação? E para a categoria?

Acho que a mudança mais difícil foi quando peguei o o pneu Michelin na Honda, em 2006. Era muito diferente para meu estilo de pilotagem. Quando ele esfriava, parecia que estava andando no gelo. Era complicado, mas depois de cinco ou seis corridas, aprendi. Para a Fórmula 1, não teria trazido os pneus sulcados. Foi o grande erro da categoria, porque perdemos muita aderência mecânica. Até mandei uma carta para o Max Mosley (presidente da Federação Internacional de Automobilismo na ocasião) dizendo que uma suspensão minha quebrou em um teste e o carro começou a rodar. Pensei que não seria uma pancada grande, mas acabou sendo muito forte porque o pneu tinha tanta aderência. Mas é errando que se acerta. Existem pessoas falando que com tanque cheio a corrida será melhor, mas sou da opinião de que não existe certo ou errado. O que é certo para você pode não ser para mim. Temos de dar opiniões construtivas para melhorar.

Você mudaria algo nas regras da F-1 atual?

Tenho credibilidade para falar, mas neste caso é cada macaco no seu galho. Como piloto, tenho de estar pronto para qualquer tipo de regra. O regulamento sempre vai mudar. A Fórmula 1 quer ultrapassagens, mas que elas não sejam fáceis para os pilotos. Na Indy, por exemplo, há muitas trocas de posições, mas você não pode fechar a porta.

O que acha da entrada dos novos circuitos e do abandono dos mais tradicionais?

O prazer se encerra no momento em que o perigo aparece. Todo piloto quer adrenalina dentro desta margem. Não dá para encontrar tudo em todas as pistas. Disseram que a pista de Abu Dhabi parecia legal, mas a corrida foi chata. Se a corrida tivesse sido realizada no início do ano, os carros não estariam evoluídos e veríamos mais ultrapassagens. O piloto sempre vai querer uma curva Eau Rouge (de Spa-Francorchamps), mas hoje ela é feita de pé embaixo até mesmo na chuva. A Associação dos Pilotos (GPDA) ajudou muito para melhorar a segurança das pistas.

Você foi comandado por Jean Todt na Ferrari. O que acha da gestão dele na FIA?

Tivemos algumas divergências, é claro. Mas a Ferrari, sem o Jean Todt atrás da mesinha dele organizando a equipe, jamais será igual. O time tem suas dificuldades porque o Jean era um comandante. Então, quanto a isso, a FIA está em boas mãos. Mas é uma questão polêmica demais para responder. A Fórmula 1 é tida como um meio complicado. Dá para fazer amizades lá?

Sou um bonachão que gosta de tirar sarro, graças a Deus! Entrevistaram o Bruno Senna outro dia e ele disse que o mais louco de nós brasileiros era eu. E a equipe de TV veio atrás de mim e pediu para que eu fizesse uma loucura (risos). Tenho amigos sim, mas na hora em que fecho a viseira, não tem para ninguém. Você vê seu maior inimigo na pista. Mas, fora os brasileiros, eu me dou bem com o Mark Webber, que é um baita cara legal, e o Sebastian Vettel. Após os anos na Honda e na Brawn, o Jenson Button também continua sendo um grande amigo.

O campeonato deste ano está muito equilibrado. Tem algum palpite para o título?

Os seis primeiros ainda têm chances, ainda está muito disputado. Não há discussão que a RBR tem o melhor carro, e ainda vai demorar um ano para alguém igualar.Por causa disso, acho que ganha alguém da equipe austríaca.

Como você vê o futuro após a F-1? Pensa em alguma data para a aposentadoria?

Não penso em números. É impressionante, parece que estou te enrolando (risos). Estou chegando na 300ª corrida com muito orgulho. Vai ser uma grande comemoração. Minha meta é ser campeão e tirar o melhor proveito de mim e do carro enquanto sou eficiente. E com esse meu pique de hoje... (risos). Mas continuo enquanto tiver tesão de correr. Gosto da Stock Car, tenho amigos correndo. Vejo o (Luciano) Burti se divertindo. Não acho que conseguirei ficar muito tempo fora de um carro de corrida, mas quando parar vou querer descansar um pouco, com certeza.

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