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Seleção troca carnaval de 2006 por protestos e deixa bola em segundo plano

Seleção troca carnaval de 2006 por protestos e deixa bola em segundo plano

Atualizado: Quarta-feira, 26 Maio de 2010 as 3:22

No lugar de sambistas e passistas, seguranças sisudos. Milhares de pessoas se acotovelando, mas só do lado de fora. Nada de invasores e malabarismos com a bola. Em campo, apenas os jogadores e o foco no trabalho físico. O contato com a bola foi mínimo, bem diferente de 2006. Com esse cenário, Dunga cumpriu a promessa de resgatar a seriedade da seleção brasileira no início da preparação para a Copa do Mundo e pagou o preço. Tornou-se alvo de protestos, ofensas e despertou certa antipatia. Mas sua primeira meta foi cumprida.

A passagem da seleção por Curitiba termina nesta quarta-feira e foi o oposto do que aconteceu há quatro anos em Weggis, na Suíça. O isolamento deu a tônica da etapa no CT do Atlético-PR. Em 2006, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) comercializou o período de treinos, vendeu ingressos e viu um verdadeiro carnaval. Após o fracasso na Copa, a falta de seriedade nos treinos foi apontada como uma das causas.

Dunga e CBF restringiram ao máximo o contato com o público desta vez. Nos dez turnos de trabalho, apenas dois contaram com a presença dos torcedores. E o acesso foi liberado sem aviso prévio, com pouco alarde. Em Weggis, os treinos foram um circo, como definiu o atacante Ronaldo, presente na época. Houve invasão de torcedores e muita festa dentro e fora de campo, além de jogadores nas noitadas em curtos períodos de folga. Os atuais convocados ficaram reclusos o tempo todo.

A situação em Curitiba foi bem diferente. A torcida tentou acompanhar a seleção desde sexta-feira, mas só teve sucesso na tarde de segunda e na manhã de terça. Cerca de 200 torcedores compareceram a cada atividade. No último treino, mais de duas mil pessoas se reuniram, mas foram barradas no portão.

A decisão gerou o segundo protesto em dois dias. Dunga foi o alvo preferido. Chamado de "bundão", ouviu gritos ofensivos que terminavam com "a seleção não precisa de você". A torcida ainda foi irônica e provocou entoando "Argentina, Argentina!".

"Estamos calejados com o que aconteceu em 2006. Aprendemos muito com as derrotas e com o que sofremos de lá para cá, mas não vejo nenhuma blindagem. É apenas uma forma de ter tranquilidade na hora de trabalhar", argumentou Gilberto Silva.

A conduta interna também teve linha distinta. Os jogadores se exercitaram com bola apenas uma vez em um rápido trabalho técnico. Os cinco dias de atividades foram voltados para avaliações, testes e treinos físicos. Na Suíça, logo no segundo dia de treinos, Carlos Alberto Parreira já comandou uma movimentação de ataque contra defesa usando o time titular. No quinto, a seleção fez seu primeiro coletivo.

"Embora a perna esteja inchada pelos trabalhos físicos que estamos fazendo, dá para ver que a bola é um pouco mais leve. Mas por enquanto treinamos pouco com bola, lá na África teremos mais tempo para nos adaptarmos", comentou Nilmar na última terça, quando questionado sobre o primeiro e único contato em Curitiba com a bola da Copa.

O acesso da imprensa também foi reduzido. Todo o oba-oba de Copa do Mundo de 2006 ficou bem distante. Transmissões ao vivo foram proibidas. As zonas mistas (entrevistas simultâneas com diversos jogadores) não aconteceram e, por enquanto, estão banidas.

Assim, as emissoras de televisão que em Weggis transmitiram e narraram até rodas de "bobinho" não puderam fazer nada além das entrevistas coletivas e das imagens de três treinos físicos. Gravações de programas dentro das dependências do CT do Atlético-PR também foram proibidas.

A nova conduta foi prejudicial para os patrocinadores, também alvos da rigidez da nova filosofia. Não houve bancadas promocionais e camarotes para convidados no CT. As empresas que desembolsam milhões para ver suas marcas expostas pela seleção tiveram que se contentar com imagens em entrevistas coletivas e em três treinos abertos à imprensa. Até a chegada a Curitiba foi discreta, por saída lateral do aeroporto.

Apesar da insatisfação manifestada de diferentes lados, a seleção preferiu ser criticada pelo rigor na cautela do que aceitar novamente a superexposição. Dunga foi convidado pela CBF para reconquistar a seriedade e o comprometimento dentro da seleção. E está disposto a enfrentar muita pressão para manter tal filosofia até o final com poucas concessões.

Por Alexandre Sinato, Bruno Freitas e Mauricio Stycer

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