MENU

Tradição renascida: Uruguai sai da sombra e se reaproxima dos títulos

Tradição renascida: Uruguai sai da sombra e se reaproxima dos títulos

Atualizado: Sábado, 23 Julho de 2011 as 10:58

É como se os uruguaios tivessem feito um pacto com esses deuses exigentes do futebol: ganhar uma alegria eterna, marcada na pele dos brasileiros naquela tarde de 16 de julho de 1950, em troca de anos de sombras, de decepções, de sonhos minguados diante da dor de uma população cujo tamanho é inversamente proporcional à paixão pela bola. Se foi assim, a conta parece estar zerada. O Uruguai renasce para o futebol, resgata sua tradição secular no contato com o couro e, o mais importante, se reaproxima dos títulos - eles podem reaparecer neste domingo, na decisão da Copa América, contra o Paraguai Os cerca de 3,5 milhões de habitantes do Uruguai viram a nação que lhes serve de lar beliscar conquistas nos últimos anos. Parece pouco, mas representa um bocado para o orgulho charrua. De multicampeões na largada do século passado, os uruguaios passaram a coadjuvantes. Agora, tentam repetir pelo menos parte de sua história - marcada por um bicampeonato mundial e duas conquistas olímpicas.

Há uma sucessão de dados. Na Copa do Mundo: semifinalista depois de 40 anos. Na Copa América: chance de ser campeão depois de 16 anos. Nas Olimpíadas: retorno à disputa, passados inacreditáveis 84 anos da última participação. Libertadores: retorno à decisão depois de mais de duas décadas.

Os títulos, é verdade, ainda não voltaram a ser realidade. Mas o crescimento já ajudou a resgatar parte do orgulho futebolístico do país.

- Vou te dar um exemplo perfeito. Em 1970, para vocês, brasileiros, ganharem a Copa do Mundo, precisaram eliminar o Uruguai nas semifinais. Lembro que os jogadores retornaram ao país, depois daquela derrota, e não foram tratados nada bem. No ano passado, o Uruguai também parou nas semifinais. E o país os recebeu com festa – observou Jorge Fossati, ex-treinador da seleção uruguaia. Os uruguaios redescobrem o gosto da vitória no futebol. E contam com um futuro promissor. Desde que foi bicampeão olímpico, o país não conseguiu retornar aos Jogos. Aconteceu agora, graças ao time sub-20, o primeiro do continente a garantir classificação matemática para o torneio do ano que vem, em Londres – o título do Sul-Americano acabaria nas mãos do Brasil, que goleou o Uruguai, já classificado, por 6 a 0 na última rodada.

Entre os ainda mais jovens, nova esperança. No recém-realizado Mundial Sub-17, o Uruguai foi até a final. Perdeu para o México, mas fez boa campanha no caminho até lá. Paciência: aplicou 3 a 0 no Brasil nas semifinais.

- Vamos ver como será até 2020. É aí que teremos uma noção do que essa geração foi capaz. É difícil ter um prognóstico agora. Nossa esperança é de que esses jovens se mantenham. Mas não adianta querer que tudo mude de um dia para o outro – opinou Hugo de León, lendário ex-zagueiro uruguaio.

Pablo Forlán, o pai de Diego Forlán, principal craque da atual seleção uruguaia, se anima com o novo momento da Celeste. Com a experiência de quem disputou duas Copas pelo país (1966 e 1974), ele vê o povo mais confiante.

- Nosso futebol é histórico, mas precisa dessa reorganização. Sem dúvida, as pessoas estão mais confiantes, gostando mais. Isso tudo é pelo que o futebol faz. É o futebol do Uruguai que está fazendo as pessoas confiarem na seleção – afirmou. Mas o renascimento uruguaio ainda precisa alcançar o estágio de fortalecimento dos clubes do país. Se na Seleção Brasileira é mais do que comum ver uma base formada por atletas que atuam no exterior, o processo é ainda mais forte no Uruguai. Um exemplo claro: dos 11 titulares que iniciaram a vitória de 2 a 0 sobre o Peru, pelas semifinais da Copa América, só um atua no país, e por pouco tempo – o zagueiro Coates.

- A maioria dos jogadores não joga no país. Nas seleções de jovens, muitos logo, logo vão sair também – apostou Fossati.

Fortalecer os clubes é um desafio para o Uruguai. Sempre fortes na Libertadores, os vizinhos amargaram distância do título. Em 2011, veio o Peñarol para oferecer uma luz à esperança charrua. Os carboneros eliminaram o Inter nas oitavas de final e avançaram até a decisão, quando foram batidos por um Santos visivelmente superior.

A visão entre os uruguaios, porém, é de que o sucesso do Peñarol na Libertadores foi exceção. Não há dúvidas de que os clubes precisam se fortalecer – o que, consequentemente, fortaleceria o futebol no país.

- A Federação até que é bem estruturada, mas os clubes não fazem o mesmo. Tomara que esse momento faça com isso passe a ser melhor nesse futebol que os clubes dizem ser profissional – opinou De León. A maior união nacional em torno da Celeste não é ocasional, na visão de Jorge Fossati. Com a experiência de quem treinou a seleção antes de Oscar Tabárez, ele aponta que mudou a mentalidade no país. O envolvimento, segundo ele, passou a ser maior – e, assim, foi eliminado o vício empresarial em torno da equipe nacional.

- Tinha muita coisa errada na mentalidade dos diretores, dos clubes. A seleção não era o time de todos. Cada um queria sua vantagem. E o torcedor reagia de outra forma. Dizia que os jogadores não tinham fome de glória, que só jogavam pelo dinheiro. Hoje, a coisa mudou completamente. Dá para sentir que é uma nova etapa. Os torcedores estão com uma mentalidade diferente. Os diretores perceberam que aquilo que é bom para o clube também é bom para a seleção. Acho que foi uma mudança geral, que também envolveu a imprensa. Todos pararam de ver a seleção como um lugar de negócios – afirmou o atual treinador do Al-Sadd, do Qatar.

Fossati treinou a seleção uruguaia de 2004 até a eliminação na luta para chegar à Copa da Alemanha, com queda para a Austrália, nos pênaltis, na repescagem. A demissão dele confirmou uma rotina que viria a ser quebrada com Tabárez. Ele está desde 2006 no cargo. O último a ficar na função mais tempo do que ele foi Juan López, de 1946 a 1955 – depois, Omar Borrás ficou os mesmos atuais cinco anos de Tabárez, de 1982 a 1987.

- Essa continuidade é fundamental. E foram realizados pelo menos 12 amistosos internacionais preparatórios para a Copa América. Eu não consigo lembrar de algo assim ter acontecido antes – completou Fossati.

A decisão

Neste domingo, em Buenos Aires, o Uruguai tenta deixar de apenar beliscar os títulos. Tenta agarrar pelo menos um. Em Montevidéu, Pablo Forlán estará de olho no desempenho da Celeste, especialmente de seu filho.

- Estamos confiantes, mas precavidos. O Paraguai é um time combativo, que luta até o final. Mas isso nós também fazemos – afirmou o Forlán pai, ex-jogador do São Paulo.

veja também