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Um trio 'muy amigo' dá o toque de criação ao Brasileiro

Um trio 'muy amigo' dá o toque de criação ao Brasileiro

Atualizado: Terça-feira, 21 Setembro de 2010 as 4:27

Já se foi o tempo em que os gringos desembarcavam em terras brasileiras, tal como os xerifes nos filmes de faroeste, só para defender a área. Os zagueiros mandavam, mas na primeira década em que foi disputado o Campeonato Brasileiro. Os anos de 1970  tiveram um elenco de respeito. Destaques para o chileno Figueroa (Inter), o paraguaio Reyes (Fla), o argentino Ramos Delgado (Santos) e os uruguaio Ancheta (Grêmio) e Forlán (São Paulo). Depois,  os uruguaios Dario Pereyra (São Paulo) e Hugo de León (Grêmio) e o paraguaio Gamarra aumentaram a lista.  Atacantes foram poucos: os argentinos Doval, da dupla Fla-Flu, e Fischer (Botafogo. E meia, aquele camisa 10 pensador? Os uruguaios Pedro Rocha (São Paulo) e Rubem Paz (Inter). No século 21, tudo mudou. A porteira abriu: o argentino Tevez (Corinthians) ganhou o Prêmio Craque Brasileirão em 2005. O sérvio Petkovic (Vitória--Vasco-Fla-Flu) e o chileno Valdivia (Palmeiras)  deram aquele toque a mais de classe. Este ano, a vez é de Montillo (Cruzeiro), Conca (Fluminense) e D'Alessandro (Inter). Todos argentinos. O trio hermano disputa, palmo a palmo, o título desejado de campeão brasileiro e também de melhor jogador. Darío Leonardo Conca, 27 anos, nascido em Buenos Aires, dá as cartas no Fluminense, que ocupa a vice-liderança, com 42 pontos ganhos, desde 2008. No clube, é quase uma lei que a bola passe pelos seus pés para chegar com precisão aos homens de frente. Ano passado, foi o vencedor do prêmio Craque da Torcida do Brasileirão. Este ano, está em quarto lugar no Troféu Armando Nogueira, com média 6,15, atrás do único brasileiro 'intruso' no meio dos hermanos, o corintiano Bruno César, com 6,33.

Um ano mais novo que Conca, Walter Damián Montillo chegou ao Brasil com o campeonato nacional pegando fogo e já conquistou os cruzeirenses. Depois de levar o Universidad de Chile à semifinal da Libertadores, com atuações soberbas, como nos confrontos em que a equipe chilena eliminou o Flamengo, o meia, nascido em Lanús, mostrou o cartão de visitas logo na estreia com a camisa celeste, no empate de 2 a 2 com o São Paulo, dia 15 de agosto. De lá  para cá, bastaram oito partidas, quatro gols e um repertório vasto de grandes jogadas para que o Cruzeiro chegasse ao terceiro lugar e o meia conquistasse a torcida e a liderança do Troféu Armando Nogueira. Está com média 7,31.

Na cola de Montillo está Andrés Nicolás D'Alessandro, com média 6,71. O mais velho do trio tem 29 anos e muita história para contar com a camisa colorada. O argentino de Buenos Aires a vestiu pela centésima vez na partida contra o Vasco, no último domingo. No Inter desde 2008, seus lançamentos e dribles, chamados de "la boba" - uma puxada rápida com a bola para trás e seguidamente para frente -, já conduziram o time à conquista da Copa Sul-Americana (2008), do Campeonato Gaúcho (2009) e da Libertadores (2010). A meta agora, antes de decidir o Mundial de Clubes, em Abu Dabhi, nos Emirados Árabes, no fim do ano, é ajudar o time, em 4º lugar na tabela, com 38 pontos ganhos, a alcançar a liderança e o título, sonhado desde 1979, ano da última volta olímpica em Brasileiros. Hoje, os três meias argentinos brilham em solo verde-amarelo em tempos que os grandes craques brasileiros na posição povoam a Europa. Mas dois deles não têm sido lembrados nas convocações para a seleção de seu país. Se D'Alessandro tem passagens com a camisa alviceleste desde as divisões de base, Conca e Montillo ainda esperam por uma oportunidade. Mas os hermanos acompanham o desempenho da dupla no Brasileirão?

- Conca saiu da Argentina muito jovem, com 19 anos, quando ainda não era considerado titular no River Plate. Cresceu como jogador, se destacou, mas acabou não voltando, por algumas circunstâncias. Há algumas informações sobre ele, sim, principalmente quando se cogitou a naturalização dele para jogar pela Seleção Brasileira. Como financeiramente a Argentina não oferece vantagens, muitos jogadores se afastam e só retornam ao fim da carreira mesmo - afirmou Navuel Trasmonte,  jornalista do diário "Olé".

O caso de Montillo, segundo Trasmonte, é diferente.

- Ele esteve durante muito tempo no San Lorenzo, que é um clube grande daqui, mas não houve acordo para ficar. Parece-me que optou pelo lado financeiro e foi para o Universidad de Chile. Nós o vemos como um bom jogador, mas aqui na Argentina talvez não atuasse com destaque nos maiores clubes. No Brasil, há um pouco mais de espaço por haver mais opções Se a Argentina dá de ombros para o trio, as torcidas de Flu, Cruzeiro e Inter não estão nem aí. E os números dos três meias mostram que a voz do povo tem razão: os três estão com impressionante índice de passes certos. Vantagem para D'Alessandro, com 87% - Montillo tem aproveitamento de 84,8%, e Conca, 84,7%. 

Nas assistências, Conca, o que mais jogou - 23 partidas -, dá de goleada: foram 14, contra duas de cada "hermano". O camisa 11 do Flu é de longe também o mais caçado em campo: sofreu 67 faltas - contra 19 de D'Alessandro e 15 de Montillo. Em compensação, cometeu 23 infrações - o colorado fez 7, e o cruzeirense, 10. Mas bola na rede é com o celeste: marcou quatro gols em oito jogos. "El Cabezon" balançou a rede duas vezes em dez partidas,  e o tricolor, apenas uma.

Richarlyson destaca Montillo, já Renato Abreu não vê diferença para os brasileiros

A fase do trio é tão boa que até adversários se rendem. Caso de Richarlyson, que não poupou elogio aos rivais.

- Dos três, Montillo foi quem mais me surpreendeu. Não o conhecia, mas é incrível a maneira como se encaixou no Cruzeiro. Ele não é tão bom tecnicamente como Conca e D'Alessandro, mas é muito dinâmico. Tem uma visão de jogo que impressiona e um chute de fora da área perigoso. No momento, é o melhor jogador do campeonato - disse.

O volante são-paulino, tricampeão brasileiro em 2006-07-08, conhece bem os outros dois meias argentinos não só de Campeonatos Brasileiros. Conca foi seu adversário na Libertadores de 2008. Com D'Alessandro travou duelo este ano mesmo, nas semifinais. Foi batido pelos dois.

- O Conca é o jogador que qualquer treinador gostaria de ter. Extremamente técnico, ainda impressiona na parte tática porque joga em várias posições. Pode colocar um atacante na cara do gol a qualquer momento. O D'Alessandro  tem muita qualidade. É impressionante como sabe valorizar a posse de bola. Sabe quando tem que dar o passe, driblar, e, como poucos, irritar o adversário. É aquele que, mesmo apagado, em um lance define uma partida - afirmou o jogador são-paulino.

Houve, porém, quem não concordasse, como Renato, do Flamengo.

- Eles são iguais aos meias brasileiros em todos os aspectos. Poder de reação, qualidade técnica... Mas o momento dos clubes é muito importante. Conca, Montillo e D'Alessandro estão em equipes em situação muito melhor do que a nossa. Prefiro jogar com o Kleberson, com o Diogo ou qualquer meia do Flamengo.

Roger, companheiro de Montillo no Cruzeiro, também minimizou o bom momento dos argentinos. Para ele, a diferença é que o momento econômico do Brasil é melhor, o que favorece na hora de contratar talentos do país vizinho.

- Não tem diferença. Independentemente da nacionalidade, eles são talentosos. O Brasil tem essa cultura de trazer argentinos. A situação financeira do Brasil é melhor. Por isso, tem a capacidade de trazer jogadores bons de lá. Se a economia argentina estivesse boa, muitos brasileiros iriam se destacar lá também - disse.

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