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Homem forte do COL garante boa Copa e avisa: 'Somos os melhores'

Homem forte do COL garante boa Copa e diz: Somos os melhores

Atualizado: Quarta-feira, 2 Maio de 2012 as 9:02

No sétimo andar de um edifício localizado na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, Ricardo Trade, diretor executivo de operações do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014, toma conhecimento de todos os movimentos dos setores do COL - sejam as obras dos estádios, a parte operacional da competição e a escolha dos centros de treinamentos. Tudo passa pelas mãos do dirigente, que tem como estratégia muito mais delegar funções do que abraçar todas as missões que compõem a organização do torneio. Ele não tem a fama de alguns de seus companheiros de trabalho, especialmente Ronaldo e Bebeto. Mas a discrição é alarme falso: ali está, sentado junto a uma mesa cheia de papéis, pastas e planilhas, o homem forte do comitê.

Em uma pausa entre as viagens às cidades-sede da Copa e reuniões no COL, Trade atendeu o GLOBOESPORTE.COM. Em uma sala de tamanho médio, com uma placa com a palavra "presidente" na porta, o dirigente ainda despachava com um dos membros do comitê antes de iniciar a entrevista. Revelou que uma delegação da Noruega estava no país visitando futuros centros de treinamento, um em Santa Catarina e o outro no Paraná - atividades normais nos últimos meses entre os países que sonham disputar o torneio em 2014.

No bate-papo, que durou cerca de 30 minutos, o dirigente assegurou que tudo relativo ao Mundial é monitorado pelo COL e pela Fifa. Naquele dia, inclusive, os responsáveis por vários setores das cidades-sede estavam realizando, no mesmo prédio onde Trade trabalha, reuniões com membros da entidade máxima do futebol para passar um "feedback" dos preparativos dos estádios, da parte de segurança e de outros pontos da realização da Copa.

Para ter mais experiência na organização do evento, o diretor, que foi um dos responsáveis pela operação para a realização do Pan-Americano de 2007, no Rio de Janeiro, pediu ao ex-presidente do COL e da CBF Ricardo Teixeira para acompanhar de perto a organização da Copa do Mundo de 2010. Na África do Sul, o dirigente pôde observar funcionários da Fifa antes e durante a realização do torneio. Tudo para ter mais parâmetros para coordenar a organização do Mundial no Brasil.

Na entrevista, Trade revelou o que o incomoda na gestão da competição, comentou sobre a saída de Ricardo Teixeira do comando do COL e deu importância à presença de Ronaldo e Bebeto no Conselho de Administração do Comitê Organizador da Copa.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

GLOBOESPORTE.COM: O senhor é responsável por algumas das áreas mais decisivas em um dos eventos mais importantes na história do país. Como se sente?
RICARDO TRADE: Não acho que seja uma das áreas mais importantes. É uma das várias áreas importantes. Mas estou no emprego dos meus sonhos. Amo estar onde estou. É uma responsabilidade grande, que a gente só cumpre com algumas premissas: ter uma boa equipe de trabalho, e é isso que estamos montando; ter condições para ter esta equipe trabalhando; e ter uma boa relação com os governos, porque não conseguimos fazer nada sozinhos. Sem o governo federal, sem os governos dos estados e sem os municípios, a gente não faz nada. O evento vai acontecer na cidade deles, na sede deles, no estado deles. Não posso chegar lá e simplesmente dizer que minha operação de transportes vai ser um sucesso, porque estamos trabalhando bem aqui. Tenho que planejar com as cidades, com as estruturas locais. Esta é a tônica do nosso trabalho. Com isso, a gente ganha uma tranquilidade para dizer que esta tarefa dura e árdua se dilui, porque a gente a divide com os municípios e com os estados, com o governo federal por trás. Não vejo problema, não. Acho muito bacana o que estamos fazendo. Com certeza, vai ser uma operação de sucesso.

O senhor trabalha quantas horas por dia?
(Risos) Consigo trabalhar dentro do meu normal, umas nove horas diárias. Estou me cuidando, fazendo atividade física, e no restante do tempo eu cuido da família. Consigo isso porque delegar é uma função importante. Ter sua equipe tomando conta te deixa colocar a cabeça no travesseiro e não ficar acordando de madrugada, assustado. As equipes estão andando. Se você não está trabalhando à noite, sabe que tem gente sua tomando conta, por exemplo, de uma viagem. Claro, as pessoas vão relatando. O celular não para. Sempre sabemos o que está acontecendo. Mas a equipe faz a diferença.

E como funciona essa equipe?
É uma estrutura bem simples. Nós não inventamos a roda. É uma estrutura que vem de outras Copas do Mundo, de experiências em outros eventos grandes. A gente tem a presidência, com três diretorias abaixo dela: a de comunicações, liderada pelo Rodrigo Paiva, a de planejamento, suporte e operações, que a Joana Havelange lidera, que cuida de uma série de áreas, como RH, planejamento, marketing, recursos humanos, compras, toda a estrutura física do escritório, e temos a minha área de operações. Ainda temos a área financeira, ligada a mim e à Joana. Na minha área, há uma série de ações: transporte, segurança, hospedagem, limpeza, alimentação, campos de treinamento, centros de treinamento, equipe de operação do estádio. Toda a parte de segurança dentro do estádio também. Fora dele, claro, é responsabilidade dos governos. Dentro, é segurança privada, e nós vamos tomar conta. Temos ainda, dentro do estádio, uma série de ações. Por exemplo: como vão comer os voluntários? É uma área nossa. Fazer recrutamento, seleção, treinamento de voluntários... São cerca de 80 mil voluntários que queremos ter em nossa base de dados para ter 18 mil trabalhando, 1,2 mil em cada cidade. Temos as principais áreas de tecnologia, algo pesadíssimo, de televisão, que também é pesadíssima. Temos toda essa parte, que é muito grande, muito forte, mas que recebemos com tranquilidade, porque temos gente gerenciando cada uma dessas áreas.

Na logística de uma Copa do Mundo, o que é mais complicado? O que incomoda mais?
Não sei. Lidar com 12 governos estaduais, 12 cidades, 12 administrações e planejar 12 operações em conjunto, talvez seja a coisa mais complicada. Nos Jogos Pan-Americanos, tratamos com uma cidade, um estado, e operamos 29 instalações. Foi complicado, mas tratamos apenas com um ente governamental. No caso da Copa, temos que ter pontas em cada uma dessas cidades. Essa distância talvez seja a parte mais difícil. Por outro lado, tem uma questão mais tranquila, que é termos um ou dois jogos hoje e depois termos um intervalo de dois ou três dias. No Pan, são seis ou sete atividades por dia. Não tem um dia para respirar. Acho, também, que a questão do transporte é muito sensível. Lidar com isso não é fácil. Além de ter que cuidar dos clientes que temos que cuidar, as equipes, os árbitros, a mídia, temos que fazer com que a cidade continue operando normalmente, sem prejudicar seu cidadão. E temos que operar os torcedores. Eles não são nossa responsabilidade. São responsabilidade da cidade. Mas temos que fazê-los fluir na cidade. Eles têm que chegar ao estádio. Nosso sonho é poder ir ao estádio, levar os filhos de transporte público, ter um lugar reservado, sentar no seu lugar e ele ser respeitado, ter uma boa alimentação, ter preços legais, ter uma visão boa do campo, ver uma grama bonita. São pontos que levamos muito em consideração.

A organização do COL no Brasil é mais barata do que foi na África do Sul, em 2010, e na Alemanha, no torneio disputado em 2006?
Não. Não é isso. Não tem como comparar. Cada modelo tem uma forma. Nosso modelo foi escolhido de uma forma em que não temos problema de operação. Temos dinheiro para sobreviver tranquilamente. Aqui é privado. Recebemos o dinheiro da Fifa, e a Ernst & Young assina conosco. É uma empresa contratada pela Fifa, que nos baliza aqui. Isso nos dá dinheiro suficiente para a operação. Nós fazemos o orçamento junto com a Fifa. Sentamos juntos e dizemos que precisamos de determinado número de seguranças para um jogo tal, que preciso de tantos seguranças, de tantos carros, de tanto em combustível para o avião que vai transportar as delegações. Isso somos nós quem fazemos, junto com a Fifa. E é um exercício interessante, porque podemos entender a Copa do Mundo de cabo a rabo. A Fifa nos dá esse dinheiro com toda a tranquilidade. Por outro lado, não temos receita de marketing, não vendemos propriedades, não vendemos assentos. Isso dá uma tranqüilidade para quem quer apenas operar e entregar bem. Temos obrigação de entregar, sem nos preocuparmos se vamos ter recursos para isso ou não.

O senhor é abastecido de informações e tem um conhecimento que poucos brasileiros têm sobre o real andamento da estrutura para a Copa do Mundo. Na sua opinião, devemos ficar preocupados ou otimistas dois anos antes de começar o torneio?
Extremamente otimistas. Às vezes, as pessoas me contêm, porque sou otimista por natureza, mas é que temos informações do andamento das coisas. As obras, por exemplo, dos estádios não são nossa responsabilidade. Mas há estádios muito avançados, que vão surpreender a todos nós. A entrega de alguns vai ser antes do prazo previsto em contrato. Outros ainda geram algum tipo de preocupação, mas estão sendo trabalhados. Preocupação, no caso, é estar no amarelo. E o que é estar no amarelo? É estar nos trilhos. É não ter folga para 40 dias de chuva, 70 dias de greve, seja lá o que for, porque pode impactar a entrega. Mas aí você vai falar: “E as obras de infraestrutura?”. Também não são de nossa responsabilidade, mas o país precisa de obras de mobilidade urbana para melhorar nosso dia-a-dia. A Copa é catalisadora de investimentos. Os Jogos Olímpicos, também. São obras que poderiam chegar daqui a um tempo, mas têm tempo certo para entregar. O brasileiro tem que ter otimismo, sim. Temos controlado. Não vejo problema de realização da Copa. Em todas as Copas do Mundo, se diz que não está pronto, que não vai entregar. Aconteceu até na Alemanha. Sempre há imprevistos, dificuldades, que fazem parte de democracias. Se teve algum indício de que o valor não está certo, tem que ir lá, discutir, ver até onde vai. É da democracia. Se tem uma greve, faz parte da democracia. O trabalhador tem o direito de fazer. O que fazemos é monitorar, ver se está sendo tudo feito de forma certa. E é muito legal, porque o que mais me impressiona é falar com todos e ver que todo mundo está disposto, seco de vontade de fazer, querendo entregar uma Copa sensacional. As administrações sabem da importância do evento para a cidade e o estado deles. Gente, é só colocar a mão na consciência. Vocês acham que algum estado ou algum prefeito vai deixar escapar uma Copa que já ganhou? Vai ficar pronto.

Mas não existem sedes que preocupam? Cito o caso de Natal, por exemplo...
Não preocupa em termos de existir um prazo para se parar muito. Mas o prazo de construção para que o estádio fique pronto, e não é uma obra complexa, não me preocupa. As pessoas também me perguntavam sobre Porto Alegre. Não me preocupava. Quer dizer, preocupava o momento político, de não acertar. Sempre dissemos que era o estádio do Inter. A construtora estava dialogando conosco. Falava com eles quase todos os dias. Falava com o ex-presidente Ricardo Teixeira, com o presidente Marin, com o presidente da Andrade Gutierrez, com o prefeito de Porto Alegre, com o presidente do Inter, que, aliás, foi uma pessoa fantástica, um parceiro enorme na escolha da cidade e na definição do contrato. A partir do momento em que você assina o contrato e as máquinas entram, dá mais tranquilidade. Mas é uma obra simples. É a mais simples de todas, porque é só reforma.

Mas ficou quase um ano parada...
Ficou, ficou. Mas temos um ano e meio, porque o estádio não está na Copa das Confederações. Temos um tempão para entregá-lo em dezembro de 2013. Tem tempo tranquilo para a obra. Não estou dizendo isso de orelhada. Quem diz são os engenheiros e arquitetos que temos espalhados por aí.

A mudança na presidência do COL alterou o trabalho de vocês?
Não. Não alterou. Não mudou nenhum quadro funcional nosso. O presidente Marin faz reuniões semanais conosco, despacha como o presidente Teixeira despachava. Estamos mantendo o ritmo de trabalho, sem nenhum problema. Por exemplo: eu me reuni no sábado com o Marin. (NR: O encontro de Ricardo Trade com o presidente do COL, José Maria Marin, aconteceu horas após a reunião do dirigente com o mandatário da Fifa, Joseph Blatter. Os dois conversaram em um hotel na Zona Sul do Rio de Janeiro)

Qual a importância de Bebeto e Ronaldo para o Comitê?
Eles são fundamentais. O Bebeto esteve aqui hoje (no mesmo dia da entrevista). Ele é um cara muito interessante de tratar, um cara que passa coisas boas. E o Ronaldo é um garoto maravilhoso, sensacional. Eu não os conhecia. Eles foram meus ídolos. São pessoas com exemplo de superação, que agregam valor a nosso trabalho. No dia-a-dia, discutimos com eles uma série de coisas. O Bebeto estava aqui e ficou me perguntando sobre obras em tal e tal lugar. Demonstrou interesse. Já acertou participações em eventos nossos. Por exemplo, ele foi ao Maracanã outro dia e agora vai a Brasília para falar de segurança no trabalho para os trabalhadores das obras nos estádios. Temos acidentes demais. O Bebeto vai lá e mostra que o Zico chamou a atenção dele quando ele não estava usando caneleira num treino do Flamengo. O Zico disse: “Usa, ou você vai se arrepender quando for mais velho”. Ele mostra exemplos claros. Acho que é importante essa credibilidade que eles têm, de passar uma série de mensagens boas. E mostramos a eles que estamos trabalhando diariamente, que existe essa entrega. Se eles podem ver isso, acabam passando isso para fora com muito mais credibilidade do que eu. Eu não tenho essa exposição pública. Sou um gestor. Se você ouvir isso do Bebeto e do Ronaldo, é algo que traz uma imagem boa para nós. E eles trazem opiniões importantes.

Tem algum tipo de crítica que te incomoda?
Tem, mas faz parte do processo democrático. A função da população e da mídia é de cobrar. A imprensa é o órgão que cobra e que vai ser o vigia de tudo que está ocorrendo. O que me incomoda é pensar que em toda e qualquer ação tem má fé. Isso me incomoda pessoalmente. Mas é algo meu, não do Comitê, que está muito tranquilo, com dinheiro privado. Mas isso incomoda. Por que desconfiar sempre das pessoas? E mais: acho que a gente não pode ficar pensando que somos os piores. Não somos. Somos muito bons. Esse nosso pensar pequeno às vezes me incomoda um pouco. Nós somos bons. Eu te digo: eles fazem muito bem lá fora, mas nós fazemos melhor. Porque na hora em que bate cabeça, nós somos muito bons. Eu sei que somos bons. Quando falo “nós”, é a população, são vocês, que trabalham nesta área. Não tem ninguém que nos bata. Somos os melhores. Não quero comparar com nenhum país, mas somos bons, e às vezes não nos achamos tão bons. Somos bons, e vamos entregar. Temos que melhorar em serviços no aeroporto, no táxi, no transporte público, e isso faz parte. Até porque somos zero em receber turistas. Se você comparar nossas belezas naturais com o que podemos receber de turistas, talvez tenhamos um gancho interessante para a Copa do Mundo. A Copa pode deixar isso de legado. As pessoas podem ver que o Brasil não é só Rio de Janeiro e São Paulo. Manaus, Pantanal e Cuiabá têm turismo ecológico. Fortaleza é maravilhosa. Recife é maravilhoso. São cidades sensacionais. Quando as pessoas da Fifa vão lá, voam de helicóptero, andam pela cidade, ficam impressionadas com a pujança.

Se somos tão bons assim, podemos fazer a melhor das Copas?
Não costumo dizer isso. Até li um texto do Tostão dias atrás, em que ele disse que não vamos fazer a melhor Copa, mas vamos fazer uma Copa muito boa. O presidente Ricardo Teixeira, quando estava aqui, costumava dizer que faríamos a melhor Copa possível. Eu acho que é isso. Não é ficar comparando. Mas se levarmos em conta organização e capacidade de celebração, somos imbatíveis. Se juntar a capacidade de celebração, que ninguém tem, podemos fazer a diferença. Se atendermos bem, se tivermos bons estádios, bom transporte, segurança para todo mundo, pode ser assim. Fazendo tudo isso e celebrando, podemos fazer uma das melhores Copas do Mundo da história.

Algum país já manifestou preferência por lugar para ficar?
Já, sim. Eles estiveram aqui várias vezes. Citando alguns: Estados Unidos, Inglaterra, Noruega, Holanda, Alemanha. Uns dez já vieram. Alguns assinalaram alguma preferência. A Holanda quer ficar no Rio de Janeiro. A Austrália foi a Belo Horizonte. Vários foram ao interior de São Paulo, casos de Inglaterra e Estados Unidos.

As seleções tendem a ficar agrupadas em alguma região do país, caso do interior de São Paulo, ou isso pode ser evitado?
Na verdade, não tem como ser evitado ou não. Fomos atrás dos centros de treinamento no país. Duzentos e vinte e quatro se inscreveram. Visitamos todos eles, fizemos uma análise muito criteriosa de cada um deles, analisando até o tipo de grama em laboratório. Vimos dimensões do campo, o que tem nos quartos. Montamos um catálogo de centros de treinamento, e ele deve ter em torno de 60 campos. Temos a obrigação de fornecer às equipes 64 opções, mas talvez a gente forneça em torno de 80. Aí os países escolhem estes campos. Hoje, muitos estão baseados no eixo São Paulo-Minas. Mas dos 27 Estados da federação, 25 estão participando. Isso leva a Copa do Mundo não apenas para as cidades-sede, mas para 270 municípios, o número de participantes do último seminário em Vitória. É um sinal de que a Copa está se espalhando. Mas são os países que escolhem.
Algum país deu sinal de levar em consideração a colonização nos Estados? O Rio Grande do Sul, por exemplo, gostaria de ter Itália ou Alemanha lá, por causa da colonização.
Não deram indícios, não. Vai do trabalho de cada um. Além de ser uma escolha das equipes, entra o mérito de cada Estado, ou cada cidade, de serem vistas e escolhidas. Mas são escolhas de técnicos. O técnico é quem escolhe. Ele quer um clima legal, um campo legal. Ele vai colocar o time dele lá para treinar. Não é uma escolha muito política.

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