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Sem citar Lula, Serra diz que suposta interferência no STF é 'indevida'

Sem citar Lula, Serra diz que suposta interferência no STF é 'indevida'

Atualizado: Terça-feira, 29 Maio de 2012 as 7:15

Fábio Matos, iG São Paulo

Em um jantar organizado pelo diretório paulista do PSDB para a arrecadação de fundos à pré-campanha do ex-governador José Serra à prefeitura de São Paulo, realizado na noite desta segunda-feira, no Buffet Baiúca, no bairro de Higienópolis (Zona Oeste da capital), as principais lideranças tucanas condenaram a suposta pressão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes para que o julgamento do mensalão não aconteça ainda este ano. Reportagem publicada na edição desta semana da revista Veja traz declarações de Mendes dando conta de uma suposta pressão de Lula durante uma conversa entre os dois no dia 26 de abril, no escritório do ex-ministro do STF e ex-ministro da Defesa Nelson Jobim.

Questionado, logo após discursar para os militantes do PSDB, sobre o episódio envolvendo Lula e Mendes, Serra evitou citar nominalmente o ex-presidente, mas foi enfático na crítica a qualquer interferência sobre o Poder Judiciário. “Qualquer pressão ou interferência é indevida. Eu não acredito, inclusive, que mude a orientação do STF, mas é indevida qualquer ingerência de qualquer tipo de quem quer que seja”, afirmou o ex-governador paulista. “O mensalão é uma coisa muito importante. Eu não estou fazendo nenhum juízo de valor, mas é muito importante que seja julgado, e eu tenho certeza de que o STF o fará, de maneira isenta e seguindo os critérios das leis da Constituição.”

Outra importante liderança do partido no Estado, o governador Geraldo Alckmin, também demonstrou certa cautela ao comentar o encontro entre Lula e Gilmar Mendes no escritório de Nelson Jobim. Mas defendeu a independência entre os Poderes da República. “Vamos aguardar as pessoas se manifestarem, o próprio ex-presidente Lula”, disse Alckmin. “Os Poderes devem ser harmônicos, mas independentes. Montesquieu (político, filósofo e escritor francês, 1689-1755) já defendia a tripartição dos poderes, a independência entre eles.” O governador de São Paulo foi o primeiro a discursar no evento do PSDB, que começou por volta das 20h, antes de o jantar ser servido aos participantes. Alckmin deixou o local rapidamente e seguiu direto para o Memorial da América Latina, onde foi um dos homenageados pela Universidade Zumbi dos Palmares. Outro homenageado foi o atual presidente do STF, Carlos Ayres Britto.

Outros tucanos

O ex-governador paulista, Alberto Goldman, foi mais contundente do que Serra e Alckmin nas críticas ao ex-presidente Lula. À reportagem do iG, o tucano chegou a comparar o comportamento do petista ao do ex-presidente e atual senador pelo PTB de Alagoas, Fernando Collor de Mello. “É um dos fatos mais graves da história política do Brasil. A falta de compostura do ex-presidente Lula está em um nível semelhante à falta de compostura do ex-presidente Collor em determinados momentos da história recente. É quase uma ameaça ao processo democrático”, afirmou Goldman.

“O Judiciário tem que ficar imune às pressões de qualquer ordem. É um fato gravíssimo. Isso merece um processo de ordem criminal”, prosseguiu o ex-vice-governador. Perguntado sobre as negativas peremptórias do ex-presidente Lula, por meio de um comunicado oficial, em que rechaça ter feito qualquer pressão sobre o ministro, Goldman demonstra ceticismo. “Estavam fazendo o quê lá? Trocando figurinhas, conversando sobre o tempo? O Gilmar não tem nenhuma intenção pessoal ou política em expor uma situação dessas”, disse o tucano.

O ex-secretário municipal de Cultura, Andrea Matarazzo, que abriu mão de sua pré-candidatura nas prévias do PSDB à prefeitura para apoiar Serra, também demonstrou preocupação com o episódio envolvendo Lula e Gilmar Mendes. “Acho que, se for como está relatado lá (na revista Veja), e acredito que seja, é uma coisa que vai contra os princípios democráticos e republicanos”, afirmou ao iG.

Também ao iG, o deputado federal Duarte Nogueira (SP), ex-líder do PSDB na Câmara, qualificou a notícia sobre a conversa entre Lula e Mendes como “chocante”. “A informação é chocante. Um ex-presidente da República interceder, na obstrução da Justiça, seja por qualquer razão, já é algo gravíssimo. O presidente Lula deve explicações ao povo brasileiro”, afirmou. “Todos os que estão citados devem uma explicação à nação. Num primeiro momento, o ex-ministro Nelson Jobim confirmou a reunião e agora está negando, o que é muito contraditório. O ministro Gilmar Mendes está com uma linha de coerência, porque, até agora, o que ele disse, ele sustenta. Não pode pairar sombra de dúvida se o presidente agiu ou não para obstruir a Justiça, para contaminar uma decisão do Judiciário ou sequer deixar o Judiciário realizar o seu veredicto.”

Por meio de nota oficial divulgada por sua assessoria nesta segunda-feira, o ex-presidente Lula negou que tenha feito qualquer pressão sobre Gilmar Mendes para que o julgamento do mensalão não fosse realizado este ano. "“Luiz Inácio Lula da Silva jamais interferiu ou tentou interferir nas decisões do Supremo ou da Procuradoria Geral da República em relação a ação penal do chamado Mensalão, ou a qualquer outro assunto da alçada do Judiciário ou do Ministério Público, nos oito anos em que foi presidente da República", diz o texto. No último sábado, Nelson Jobim também desmentiu o teor da conversa. "De forma nenhuma, não se falou nada disso. O Lula fez uma visita para mim, o Gilmar estava lá. Não houve conversa sobre o mensalão", disse o ex-ministro da Defesa de Lula e Dilma.

Cada convite para o jantar organizado pelo PSDB esta noite custou R$ 1 mil, e a expectativa era de que cerca de 250 a 300 pessoas participassem do encontro. Além de Serra, Alckmin, Matarazzo, Nogueira e Goldman, também estiveram presentes o secretário estadual de Energia de São Paulo, José Aníbal, pré-candidato derrotado por Serra nas prévias do partido; o presidente estadual do PSDB-SP, Pedro Tobias; o presidente da Assembleia Legislativa do Estado, Barros Munhoz; o deputado estadual Orlando Morando; o deputado federal Wanderlei Macris, entre outras lideranças tucanas no Estado.



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