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13 anos depois, aposentado mata o 2º assassino do filho em SP

13 anos depois, aposentado mata o 2º assassino do filho em SP

Atualizado: Segunda-feira, 8 Março de 2010 as 12

Em sua obra "Ensaios" (1625), no capítulo sobre a vingança, o filósofo britânico Francis Bacon classifica o ato de revanchismo como "uma espécie de justiça selvagem" que "põe a lei fora do seu ofício". Para ele, a atitude de se vingar só iguala o homem ao seu inimigo.

Agnaldo de Souza Lima, 62, não pensou nessas vãs filosofias nas duas vezes em que cruzou com os homens que mataram com sete facadas seu filho mais velho, há 13 anos. Na primeira vez, no dia da morte do filho, matou Rodrigo de Paula, 18, com três tiros, e feriu Milton Batista do Nascimento, então com 24 anos.

Nascimento foi preso e condenado. Lima respondeu em liberdade por assassinato, alegou legítima defesa e forte estado emocional. Foi absolvido. Na segunda vez, em 23 de dezembro do ano passado, Lima matou Nascimento, que cumpriria a pena no mês passado.

Nascimento e o filho L.N., 11, brincavam em um playground a poucos metros da casa paupérrima da família no bairro Cidade Aracy, periferia de São Carlos, quando Lima apareceu e o matou com dois tiros. O menino viu tudo.

As versões para o esse crime são conflitantes. Tudo começou em 4 de agosto de 1996. A casa de Lima estava cheia de convidados para o aniversário de cinco anos de seu neto Jhonatan quando ele recebeu a notícia de que seu filho José Roberto, pai do garoto, envolvera-se em uma briga no bar da família.

Ao chegar lá, encontrou o rapaz com uma faca cravada no peito e saiu na perseguição dos criminosos, que, segundo seu relato, estavam sujos de sangue e drogados. O ex-comerciante conta que, ao se aproximar, foi reconhecido e ameaçado. Atirou, então, cinco vezes. Rodrigo caiu morto com três tiros. Nascimento foi atingido no abdômen e de raspão no braço. Acabou preso em flagrante e condenado.

Em entrevista à Folha na Penitenciária 2 de Itirapina, onde aguarda julgamento, Lima, que ainda hoje chora ao falar do filho, nega que tenha matado por vingança. Diz que foi legítima defesa porque Nascimento queria se vingar por quase ter sido morto e pelos anos que passou na cadeia.

O filho de Lima, Lino José, 39, confirma que muitos vizinhos vinham alertá-los das ameaças de Nascimento. No entanto, conta que ninguém na casa sabia que o pai tinha comprado outra arma. Diz ainda que o pai estava tenso nos dias que antecediam o último crime.

"Ele sabia que o Nascimento ia sair. Acompanhava pela TV e, toda vez que anunciavam os indultos, a gente viajava para Minas. Dessa vez não fomos porque o carro tinha problemas." Lima disse que o encontro com Nascimento foi um acaso. "Ele acenou com a mão e eu parei o carro. Desci e o cumprimentei. Não o reconheci. Ele então me disse que nós tínhamos contas a acertar, e começou a me bater. Eu peguei a arma e atirei. Ele ia me matar."

Em depoimento ao juiz Antonio Benedito Morello, da 1ª Vara Criminal de São Carlos, o garoto L.N., filho de Nascimento, nega que tenha havido luta corporal entre seu pai e o acusado. O menino e sua mãe, Silvia Ferreira Araújo, 34, também negam que o morto falasse em vingança.

"Ele dizia que iria arrumar um trabalho e cuidar dos filhos, que nasceram quando ele estava preso", diz Silvia. O juiz Morello, o mesmo que julgou e absolveu Lima há 13 anos, dessa vez negou o pedido de liberdade provisória, por uma questão de ordem pública. O contrário poderia, diz ele, "sugerir impunidade e levar familiares da vítima ao mesmo comportamento".

Lima, que deve ir novamente a júri popular, se diz arrependido. "Nunca imaginei que mataria um pessoa. Não sei como isso foi acontecer." No filme "Kll Bill", Tarantino explica: "A vingança é como uma floresta, onde é fácil perder o rumo e esquecer por onde entramos."

Por: James Cimino e Marlene Bergamo

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