MENU

A carícia que destrói a inocência

A carícia que destrói a inocência

Atualizado: Terça-feira, 14 Abril de 2009 as 12

Pais, juízes e psicólogos começam a encarar a tragédia do abuso sexual de crianças

Para quem imaginava que a conversa sobre abuso sexual de crianças era assunto de americano indignado diante de megaescândalos como o que envolveu Michael Jackson, uma notícia: começam a despontar sinais de que o problema é sério também no Brasil. Surgem entidades voltadas especialmente para a defesa das vítimas. Psicólogos engordam suas carteiras de clientes abrindo grupos de terapia específicos para tratar seqüelas dessa violência que sempre houve, mas a maioria das pessoas não era capaz de enxergar e muito menos denunciar. O que os americanos fizeram, na sua obsessão por discutir em público os temas mais espinhosos, foi mostrar que o abuso sexual de crianças não era um fenômeno tão raro. Mesmo enfrentando a dor da exposição pública, pessoas conhecidas como a atriz Mariel Hemingway e a apresentadora de TV Oprah Winfrey admitem ter sido abusadas quando meninas. Feito o alarde, pais, juízes e terapeutas brasileiros já discutem o assunto, tomam providências, punem ou tratam os culpados.

Foi-se o tempo em que educar um filho era uma rotina que se resolvia em casa e na escola da esquina, com a ajuda da tia e da avó. Desde que a mulher saiu para conquistar um lugar no mercado de trabalho, a educação de meninos e meninas foi entregue a babás, creches e irmãos um pouco mais velhos. Sempre se soube de casos de abuso sexual no passado. Tudo indica que, com as dificuldades que a vida atual impõe às famílias, o problema aumentou muito. Os números são reveladores. O Serviço de Advocacia da Criança, SAC, entidade ligada à Ordem dos Advogados do Brasil, fez uma pesquisa a partir de processos registrados em 1988, 1991 e 1992 para chegar à seguinte cifra: das 20 400 denúncias de maus-tratos à criança que chegam anualmente ao conhecimento da Justiça, 13% referem-se a situações de abuso sexual, o que resulta em 2 700 novos casos a cada doze meses. A julgar pelo que ocorre em outros países, a realidade deve ser muito pior. O Centro Nacional da Criança Abusada e Negligenciada, em Washington, aponta uma média de 100 000 novos casos registrados a cada ano nos Estados Unidos. Estima-se, no entanto, que apenas uma a cada cinco ocorrências de abusos seja levada aos tribunais, o que elevaria o número de crianças atingidas à casa dos 500 000. Mas os dados mais graves aparecem quando se analisa o perfil do abusador. Ele está dentro de casa.

Muito diferente de um assaltante, que sempre é um estranho à espreita para atacar no momento oportuno, o abusador é, na maioria das vezes, alguém muito próximo. 'Mais do que conhecido, ele é uma pessoa especial, em quem a criança confia e de quem ela gosta', diz o psiquiatra Claudio Cohen, coordenador do Centro de Estudo e Atendimento Relativos ao Abuso Sexual, Cearas, da Universidade de São Paulo. Uma pesquisa nacional aponta que 62% dos abusos sexuais acontecem dentro da família, sendo as meninas as principais vítimas - 83% dos casos. No total de casos, pais e padrastos são os maiores agressores, respondendo por 50% das ocorrências. Dessas, em cada quatro casos, três são cometidas pelo próprio pai e uma pelo padrasto. Há diferença na faixa etária entre as meninas agredidas. Enquanto os pais abusam principalmente de filhas adolescentes entre 13 e 15 anos, os padrastos agridem as enteadas entre 7 e 15 anos. Tios e outros parentes respondem por 12% dos abusos, e estranhos à família (vizinhos e amigos), por 38%. Diante desses números, é fácil compreender por que o abuso de crianças é um assunto difícil de ser encarado por qualquer pessoa. Está envolvido, ali, um dos mais sagrados tabus das civilizações - o incesto, que diferencia o homem dos animais e garante o equilíbrio fundamental a uma pessoa.

Clarão na Memória - Para as vítimas infantis, o abuso é um pesadelo - um dos piores que se possa imaginar. Mas não é tão fácil identificá-lo como se poderia imaginar. Não há quem não goste de apertar, beliscar carinhosamente e dar beijos estalados numa criança saudável, bonita e, acima de tudo, querida. Carinho é bom, ajuda a desenvolver a personalidade, aumenta a auto-estima de meninos e meninas. Ninguém pode ser acusado de abuso por causa disso. Em muitas famílias, é comum pais e filhos tomarem banho juntos. Isso nada tem de errado, ao contrário. Também não há nada demais quando os netos sentam no colo do vovô para assistir à televisão. Todas essas práticas são importantes para o enriquecimento afetivo tanto de crianças como dos próprios adultos. Por isso, uma atitude importante a se tomar em relação ao assunto é entender que toda desconfiança é, à primeira vista, exagerada, ainda que já se conheçam alguns traços de comportamento que podem ajudar pais e mães a prestar mais atenção ao problema.

'O que define o abuso sexual não é o ato em si, que na maioria das vezes dispensa a relação sexual completa entre o adulto e a criança, mas a intenção com que é praticado', diz Cohen. Segundo ele, as carícias são prevaricadoras se funcionam como fonte de prazer sexual para quem as pratica. Fácil falar. Difícil é saber do que se está falando. Às vezes, é até difícil lembrar. Há cinco anos, a profissional liberal carioca T.L., 40 anos, diz ter tido um clarão na memória que mudou sua vida. Instada pela irmã, ela começou a remexer o passado e lembrou-se de que o padrasto costumava fazer um carinho diferente nas duas. Com a revelação, T.L. voltou no tempo e pulou dos 35 anos para os 8: no quarto de sua casa da infância, um homem de cerca de 40 anos, bem-sucedido e que se tinha casado com a mãe de T.L, abraçou-a com força, de modo sensual, enquanto lhe dizia: 'Você está gostando! Você está gostando!'

Por quase trinta anos, T.L. apagou essa lembrança de sua vida. 'Eu me esqueci para continuar a viver', diz ela hoje. Consciente de que havia sido vítima de abuso sexual, T.L. resolveu há cinco anos criar o primeiro grupo brasileiro de Sobreviventes de Incesto Anônimos, SIA, filiado a uma rede de entidades do mesmo tipo, com sede em Baltimore, nos Estados Unidos. O SIA foi criado nos anos 80 como uma organização não governamental nos moldes de Alcoólicos Anônimos. Hoje, há mais de 1000 grupos de 'sobreviventes' espalhados em todo o mundo, que dipõem até de uma conferência na Internet para a troca de experiências (o endereço eletrônico do SIA é recoverywvnvm.wvnet.edu.).

A secretária paulista M. L. M. nunca teve por que desconfiar do carinho que o seu segundo marido demonstrava pela filha Cristina. (Todos os nomes de crianças desta reportagem foram trocados.) Sentia-se feliz por ver a menina relacionando-se tão bem com o padrasto. Os dois conversavam longamente, ele era compreensivo, jamais levantou a voz para Cristina ou a ameaçou com palmadas. Parecia uma família unida. M. não sabia, porém, que na sua ausência o comportamento do preparador químico era outro. Cristina tinha apenas 4 anos de idade quando o padrasto começou a acariciá-la de maneira nada paternal.

Durante oito anos, Cristina guardou segredo. O padrasto pedira-lhe um pacto de silêncio, que ela seguia, confiando que era uma forma de relacionamento comum entre pais e filhos. Aos 12 anos de idade, quando as meninas ficam mais curiosas sobre sexo, trocando confidências com as amiguinhas, Cristina percebeu que os carinhos do padrasto não eram normais. 'Comecei a sentir muito nojo dele', lembra a criança, que passou a rejeitar qualquer tentativa de aproximação do marido da mãe. Foi o suficiente para enfurecê-lo.

Doces e Trocados

Começaram as ameaças. 'Ele dizia que, se eu contasse a alguém, seria o fim da família.' O terror aumentou. Acuada, Cristina era obrigada a 'namorá-lo', como ele dizia. A criança ficava doente: suava frio, sentia náuseas e quase desmaiava. A tortura durou meses. Um dia, a menina procurou uma 'tia' da escola, a professora que cuidava de sua classe, e pediu socorro. Irada, a educadora chamou a mãe, M., e comunicou-lhe o que ouvira de Cristina. O padrasto confessou suas loucuras. 'Foi obra do diabo', disse. A mãe perdoou o marido, que, embora tenha confessado, ainda hoje sofre processo na Justiça. Abandonada pela mãe depois de atacada pelo padrasto, Cristina saiu de casa. Com 14 anos, casou-se. 'Foi para sair debaixo das garras dele', diz ela.

Há um traço que chama a atenção no perfil de quem comete abuso sexual. 'Em geral, é um homem tímido, aparentemente incapaz de maltratar uma mosca, desprovido de agressividade no trato social, sem iniciativa', define o psiquiatra Cohen, que já tratou de centenas de abusadores. Isso explica em parte por que, em busca de prazer sexual, esses homens não recorrem à prostituição: 'Mesmo uma prostituta ou um garoto de programa é capaz de assustar o agressor de crianças. Trata-se de pessoas consumidas pela idéia de inferioridade, que só conseguem exercer um mínimo de sedução e autoridade diante de meninos e meninas', afirma Cohen.

Isso torna a sedução relativamente fácil. Às vezes, bastam doces e trocados. Numa tarde de setembro do ano passado, o guarda metropolitano T. L. G. resolveu investigar o que poderia ser apenas um boato sem nenhum fundamento. Há meses, ele vinha recebendo reclamações dos moradores das redondezas do cemitério do Tremembé, Zona Norte de São Paulo, a respeito de um homem, já idoso, que costumava passear com crianças por ali. Segundo as denúncias, ele estaria se aproveitando sexualmente dos pequenos. G. ficou de sentinela no cemitério até que, por volta das 3 horas da tarde, M. G. G., de 65 anos de idade, cruzou os portões com André, de 8 anos. Os dois caminharam até o túmulo de um parente de G.. Lá, sentaram-se. Espreitando-os de longe, o guarda municipal viu que as denúncias tinham mesmo fundamento e fez a prisão em flagrante.

Não era a primeira vez que aquilo tinha acontecido. André explicou que freqüentemente passeava com o 'tiozinho' por terrenos baldios, cemitérios e parques. Por causa de um contraste comum aos grandes centros urbanos, André mora numa favela instalada no coração de um bairro de classe média na Zona Sul da cidade. Assim, G., funcionário administrativo do Fórum da Infância e da Juventude (ironicamente, trata-se de uma instância da Justiça encarregada exatamente de julgar casos de abusos contra crianças), é seu vizinho. Apenas mora numa casa mais confortável, em companhia da mãe octogenária.

Agressor e vítima se conheceram na porta da escola de André. 'Ele dizia que gostava de ver a gente brincar', conta o menino. Aposentado de suas funções públicas, G. sempre foi um homem trabalhador e respeitado na vizinhança. Tímido, magro e muito gentil, não despertaria suspeita nem no melhor perito policial, muito menos em uma criança. 'Saía com ele porque me dava bala, chocolate e, às vezes, 1 real para comprar o que eu quisesse', conta André.

'Eu achava estranho'

Da mesma forma que se deve esquecer a idéia de que o abusador seja um desequilibrado de olhar sôfrego, deve-se deixar de lado também a versão segundo a qual entre esse tipo de criminosos se contam apenas pobres-diabos, desempregados, moradores de cortiços ou favelas. 'O abuso acontece em todas as classes sociais', diz Álvaro Villaça, diretor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, especializado em direito da família. Foi numa família em que a mulher era empresária de marcas e patentes e o marido, um bem-sucedido joalheiro, todos morando num confortável apartamento no bairro paulistano de Higienópolis, de classe média alta, que a pequena Lúcia, hoje com 9 anos de idade, passou a pior etapa de sua vida.

Seus pais haviam-se separado logo depois do nascimento da menina, e, quando ela completou 5 anos, a mãe resolveu casar-se de novo, desta vez com um homem trinta anos mais velho. Foi o início da tragédia. Como a empresária trabalhasse em ritmo frenético, o padrasto se incumbiu de tarefas como levar e trazer Lúcia da escola. Só que, em vez disso, a colocava na sua cama, tirava-lhe a roupa e passava a acariciá-la. Tudo como se fosse uma grande brincadeira.

'Eu achava estranho, mas era gostoso. Ele me dava beijos no pescoço e na orelha. Eu sentia cócegas. Ficávamos brincando a tarde inteira', conta Lúcia. Mas o contato foi ficando cada vez mais sério. Lúcia começou a se assustar à medida que as ousadias do padrasto aumentavam. 'Ele deitava em cima de mim. Ficava com medo. Ele era pesado', descreve. Lúcia começou a evitá-lo. Nervoso, o padrasto resolveu mudar de tática, transformando as tardes, até então prazerosas, em verdadeiras sessões de tortura. Ameaçava-a dizendo que mataria toda a família, inclusive a irmã menor de 2 anos de idade - que a tudo assistia -, se ela se recusasse a acompanhá-lo ou contasse isso a alguém.

Lúcia passou a ficar quieta em casa, quase muda. Todos estranharam. Até que, há um ano, quando foi passar o final de semana na casa da avó, deixou escapar: 'Não sei por que a mamãe ri tanto quando fica com o papai no quarto. Eu sei que dói'. Foi o suficiente para a abertura de um processo contra o genro. Apesar de um relato pormenorizado da criança, a Justiça não conseguiu provar o abuso. O padrasto não deixou marcas de seus atos. Lúcia continua virgem, mas ainda sofre com o passado. Tem pesadelos durante a noite. Não sai desacompanhada, nem para ir até a padaria. 'Gostaria de matá-lo', diz a menina, hoje.

Provas Difíceis

O relato do caso de Lúcia evoca um dos problemas mais graves em casos de abuso sexual. 'É um crime difícil de ser provado, principalmente quando não deixa marcas físicas', diz Francisco José Parahiba Campos, juiz da Vara da Infância e da Juventude do Fórum de Pinheiros, em São Paulo. E isso não é uma situação incomum. Sobram exemplos de meninas que, mesmo depois de anos de abusos, permanecem virgens. Como todo abusador denunciado tende a dizer que só estava fazendo carinho, e que isso não é crime, cabe à criança, através de seu testemunho, provar que houve mais. Mas é difícil.

Primeiro, exige-se que ela exponha para pessoas estranhas algo que certamente gostaria de esquecer. 'Na tentativa de provar o abuso, a criança é obrigada a passar por uma maratona de humilhações. O interrogatório começa na família, passa por delegado, advogado, assistente social, psicólogos e só acaba no juiz', diz Jefferson Drezett, diretor do Hospital Pérola Byington, em São Paulo, que atende apenas a mulheres vítimas de abuso sexual.

Depois, há o drama de que toda criança pode, ao menos em teoria, ser influenciada em seu depoimento, tanto no sentido de culpar como de inocentar seu agressor, mesmo que não seja essa a intenção da pessoa encarregada de ouvi-la. Dependendo de como são feitas as perguntas, pode-se induzir uma menina ou menino à construção de fantasias que podem ser confundidas com memórias de fatos ocorridos realmente. Nos Estados Unidos já se produziram milhares de estudos que tentam aprimorar as técnicas de entrevista. O principal espinho é como estabelecer com clareza que houve uma intenção libidinosa numa carícia, a partir, unicamente, do depoimento da vítima. Há também o fato de que a criança em geral está dividida entre sentimentos de natureza oposta. Culpa e erotismo, ou pecado e carinho, respingam em todos os depoimentos de vítimas de abuso que foram ouvidas nesta reportagem.

'Era uma confusão enorme na minha cabeça, porque eu sentia culpa, raiva e prazer ao mesmo tempo', relata a psicóloga carioca I. M., 35 anos. Dos 8 aos 13 anos, ela foi acariciada lascivamente por um tio que, na época, tinha 30 anos e morava num apartamento vizinho, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ele procurava seduzi-la sob vários pretextos. Quando I. estava com 9 anos, apareceu uma verruga enorme em seu joelho. Era uma vergonha tal que ela se recusava a vestir short ou biquíni, mesmo morando tão perto da praia. Um dia, o tio disse-lhe que conhecia um remédio miraculoso, mas que só o daria se ela o deixasse passar em seu corpo. 'Eu não sabia o que fazer. Queria o remédio para acabar com o meu complexo, mas não queria que meu tio passasse a mão em mim. Acabei deixando', diz a psicóloga, hoje organizando um grupo de terapia com vítimas de abuso.

Nos primórdios da psicanálise, o vienense Sigmund Freud preocupou-se tanto com abuso sexual que chegou a elaborar uma teoria, segundo a qual todas as crianças seriam iniciadas sexualmente através de uma agressão, praticada por um adulto. O próprio Freud, mais tarde, abandonou sua tese, absurda, a partir da constatação de que não teria como demonstrá-la - sua própria biografia desmentia a hipótese. Mas Freud nunca abandonou a visão, hoje tida como acertada, de que a criança possui todos os sentimentos de um adulto, a começar pelos impulsos sexuais. A diferença é que, na infância, esses desejos ainda estão difusos pelo corpo em formação, não se concentrando nos órgãos genitais. Uma simples cócega, portanto, é fonte de prazer para a criança, e isso explica o porquê do 'consentimento' que tantas vezes se verifica nos casos de abuso. Ao contrário do que ocorre no estupro, que é o sexo à força, o abuso sexual é uma forma de violência psíquica na qual não ocorrre, na maioria das vezes, a agressão física. É um envolvimento programado, ainda que deixe traumas, em geral para toda a vida. 'Trata-se de uma agressão conquistada', diz Dalca Ferrarine, psicóloga do Centro de Violência do Sedes Sapientiae, em São Paulo.

Fantasias

Não é raro o abuso sexual acontecer debaixo dos olhos de pais e mães, que têm razão de se considerar zelosos. Um estudo realizado pelo pesquisador Robert Barry, da Universidade de Colúmbia, em 1985, a partir dos registros de departamentos da polícia americana, apontou que 70% dos casos de abuso se repetem sucessivamente ao longo de pelo menos um ano. Há casos nunca descobertos pela família. Em outros, pais relapsos ou acovardados diante de um choque tão profundo fazem o possível para não enxergar o mal, mesmo quando denunciado. Com mais freqüência do que se imagina, as mães protegem seus maridos, até quando não resta a menor dúvida de que suas filhas sofriam abusos. A psicóloga I. M. lembra-se de ter contado à mãe o que o tio fazia. 'Ela sempre desdenhava de mim. Dizia que tudo não passava de fantasias infantis', acusa. 'As pessoas tendem a fazer vista grossa, porque é muito doloroso reconhecer a tragédia que se abateu sobre a família.'

Quando as vítimas quebram o silêncio, uma denúncia de abuso sexual ostuma causar terror e pânico. 'É como se o lobo mau se tivesse soltado', diz Lia Junqueira, do Serviço de Advocacia da Criança, o SAC, que lida freqüentemente com abusadores na condição de defensora das vítimas. J. A. P., de 33 anos, deixou a população de Novo Hamburgo, no interior gaúcho, estarrecida com suas denúncias. Ele acusou um padre da cidade, cujo nome não é citado nesta reportagem porque o processo não está concluído pela Justiça, de ter abusado de sua filha Mariana, de apenas 5 anos de idade. O sacerdote sempre fora amigo da família. No mínimo duas vezes ao dia, passava pela casa da família para visitá-los. Não era raro ficar também para as refeições. A mulher, não se importava de ter um pouco mais de trabalho na cozinha. O que ela estranhava era a preferência do padre pela pequena Mariana.

Há seis meses, a cisma da mãe se confirmou. A. flagrou um diálogo revelador entre o padre e Mariana: 'Ele prometia à menina nunca mais colocar a mão dentro da calcinha dela'. Nas investigações de sua vida pregressa descobriu-se que o mesmo religioso fora expulso de outra paróquia, em outra cidade gaúcha, acusado de ter abusado de três meninas. Afastado, o sacerdote mandou uma carta de desculpa à família, mas ao mesmo tempo esquivou-se da responsabilidade pelos seus atos. Segundo ele, a menina é que lhe teria pedido que fizesse o que fez. O exemplo de outro pároco condenado em Minas Gerais mostra o quão rigorosa pode ser a lei quando se comprova uma acusação. Em dezembro do ano passado, o padre catarinense B. B., de 35 anos, foi condenado a passar os próximos treze anos e meio atrás das grades. Ele foi acusado - e condenado - pelo crime de abuso sexual contra dois meninos (um de 11 anos e o outro de 10), moradores no pequeno distrito de Brumal, a 112 quilômetros de Belo Horizonte. 'Ele passava em casa várias vezes atrás de meu filho para levá-lo a passear de automóvel', diz a mãe de Paulo, um dos garotos agredidos.

Não é difícil imaginar o que acontece com uma criança vítima de abuso sexual. Ela passa pelo trauma de se descobrir traída por uma pessoa que fora capaz de seduzi-la e mesmo lhe dar alguma forma de prazer. Quando isso acontece com um adulto ou mesmo um adolescente, o indivíduo, mais formado, já está preparado para conviver com a realidade de que todos estamos sujeitos a um percalço na vida, mesmo muito desagradável e difícil de suportar. É diferente quando se trata de crianças, inocentes como elas são, ingênuas, mesmo quando querem parecer maliciosas. Com a afetividade quebrada, às vezes destruída, tanto meninos como meninas enfrentam um drama comum, um horror que pode acompanhá-los por toda a existência. Desenvolvem uma tendência a ficar emocionalmente infantilizados. Tornam-se medrosos, dependentes e exibem uma forma de timidez própria de quem pode ser dominado com facilidade. Muitos desenvolvem instintos sádicos, que podem ficar na fantasia ou ir além dela.

Não é raro que meninos vítimas de abuso acabem se tornando agressores quando atingem a idade adulta. Em 1993, o cantor americano Michael Jackson foi acusado de ter abusado de um menino de 13 anos. Segundo sua irmã La Toya, ele teria sido molestado sexualmente pelo pai. Michael Jackson investiu perto de 30 milhões de dólares em indenizações à vítima para escapar de um julgamento. Pais calorosos geram filhos calorosos, enquanto pais desconfiados costumam ter filhos igualmente retraídos. É assim porque as pessoas carregam, na idade adulta, as lições afetivas que tiveram na infância. Por isso, crianças agredidas e traumatizadas têm mais facilidade para reproduzir esse comportamento mais tarde - a diferença, então, é que os papéis estarão invertidos. 'O abuso não é uma forma de amor, mas de ódio', diz o psiquiatra Claudio Cohen. 'Quando um adulto abusa de uma criança, ele está colocando sua raiva para fora.' As meninas vítimas de abuso sexual também carregam traumas imensos, mas, em geral, reagem de outra forma. É mais difícil, para elas, se relacionarem com homens na fase adulta, não apenas para namorar mas até mesmo na escola e no ambiente de trabalho.

No mundo inteiro se começa a prestar mais atenção a um problema vizinho, que é a erotização da infância. No final do ano passado, uma celeuma eletrônica de grandes proporções tirou a rede de dados Compuserv do ar na Alemanha. Descobriu-se que circulavam pelos computadores do país fotos de meninos e meninas sendo usados como objetos sexuais. As autoridades exigiram que os provedores dos acessos à rede fossem identificados, já que a pornografia infantil é crime. Diante da recusa em fornecer os nomes, a Compuserv foi desplugada.

Essa preocupação é útil como prevenção, quando a denúncia e as providências são feitas com seriedade. Mas - aí está envolvido um mundo muito delicado - também é grande o risco de sensacionalismo e da irresponsabilidade. O cineasta americano Woody Allen e a atriz Mia Farrow encerraram doze anos de casamento numa sórdida briga na Justiça. Depois da separação, detonada pelo romance dele com a filha adotiva dela, a coreana Soon-Yi, Allen foi acusado pela mulher de abuso sexual. Segundo Mia, ele se teria aproveitado da filha adotiva Dylan, de 7 anos. Os advogados da atriz não conseguiram provar nada contra ele.

Uma investigação conduzida com espalhafato a partir das denúncias da mãe de um aluno da Escola de Educação Infantil Base, em São Paulo, arrasou com a reputação de três casais. Segundo as acusações, eles teriam promovido orgias sexuais com um grupo de crianças do colégio. Dois meses depois de ser expostos à execração pública, de perder a escola, depredada pela fúria da vizinhança, a Justiça declarou-os inocentes. Um crítico de costumes poderia apontar em tais excessos a prova de que a questão do abuso é um falso debate. Não é. Os diretores e professores da escola foram vítimas de uma chacina moral. Deve-se tomar todo o cuidado para evitar histerias tenebrosas como essa da Escola Base. Mas o drama do abuso sexual existe e é sempre bom saber o que pode acontecer - até para que se possa evitar. As crianças agradecem.

Silêncio quebrado

Até muito recentemente, o abuso sexual de crianças era tratado como assunto proibido na sociedade. Nos Estados Unidos, não é mais assim. Não são raros os casos de filhas que vão aos tribunais para acusar pais e padrastos, em sessões dramáticas e dolorosas. De cinco anos para cá, o tema também alcançou celebridades do cinema e da TV, em denúncias divulgadas em tom de estardalhaço pela imprensa. Algumas celebridades provaram sua inocência na Justiça. Outras preferiram pagar uma indenização para não se sentar no banco dos réus. Mesmo sem pedir nada, algumas vítimas se sentiram melhor depois de tratar de seu sofrimento em público.

Quando o cineasta Woody Allen assumiu que havia trocado a atriz Mia Farrow por sua filha adotiva Soon-Yi, em 1992, Mia acusou-o de abusar da menina mais nova, Dylan, de 7 anos. A denúncia não foi comprovada, mas a Justiça proibiu Allen de ver Dylan. Em 1993, Michael Jackson foi acusado de fazer sexo oral à força com Jordan Chandler, um fã de 13 anos cujo grande sonho era conhecê-lo. O astro desembolsou próximo a 30 milhões de dólares para que a família do garoto retirasse a queixa contra ele.  Depois de atuar no filme Lipstick, em que fazia o papel de uma vítima de ataques sexuais, a atriz americana Mariel Hemingway, neta do escritor Ernest Hemingway, confessou que ela própria, em sua infância, havia sofrido o assédio de um amigo da família.

O ator alemão Klaus Kinski, de Fitzcarraldo, morto em 1991, lançou em 1988 uma autobiografia em que insinuava ter mantido relações incestuosas com a filha, a atriz Nastassia Kinski, de Paris, Texas. Ela negou e a publicação do livro foi suspensa. 'Não dá para esquecer.' Com essas palavras, a apresentadora de TV Oprah Winfrey, a mulher mais rica do show biz americano (fortuna de 200 milhões de dólares), revelou diante das câmaras que foi vítima de abusos praticados por primos adolescentes.

Tentando ouvir

Provar o abuso sexual de uma criança é difícil, porque ela ainda não verbaliza com facilidade seus sentimentos. Assim, terapeutas americanos desenvolveram testes indiretos, principalmente com uso de objetos lúdicos, para tentar chegar o mais próximo possível da verdade. A criança é levada a uma sala cheia de brinquedos onde há réplicas de armas de fogo, lápis de cor, papéis, aquarela e uma família de bonecos (pai, mãe e filhos) com órgãos e características sexuais bem definidos. A forma como a criança coloca-se diante dos brinquedos, como mexe com eles, pode dar pistas sobre a ocorrência de abuso. Também se pede que o menino ou menina faça desenhos a respeito de sua casa, família, amigos, à procura de pistas. 'Mesmo com indícios, a certeza só vem depois de algum tempo de terapia', diz Raul Goraiyeb, psiquiatra, chefe do Centro de Atendimento Psiquiátrico à Criança da Universidade Federal de São Paulo.

Como tudo no campo das emoções, porém, há sempre uma dose de imponderabilidade. Até que ponto uma criança pode estar desenhando algo que viu na TV? Como discernir a fantasia de memórias reais? É um campo fértil para falsas denúncias. O executivo americano Gary Ramona, que havia sido acusado pela própria filha de 23 anos de abuso sexual durante a infância, recebeu uma indenização de 500 000 dólares por danos morais. O júri do condado de Napa (Califórnia) considerou que as memórias de Holly Ramona sobre a suposta agressão paterna foram-lhe induzidas por sessões de psicoterapia associada ao uso do chamado 'soro da verdade'. Mas o estrago na reputação do executivo já estava feito. Ele perdeu o emprego de 300 000 dólares anuais, a casa de 1 milhão de dólares, seu casamento se desfez e ele se separou dos três filhos.

veja também