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Abrigos no Rio não têm água nem vaso sanitário

Abrigos no Rio não têm água nem vaso sanitário

Atualizado: Quarta-feira, 14 Abril de 2010 as 12

Primeiro, a água e a lama levaram quase todos os bens materiais que possuíam. Agora, eles temem perder também uma das poucas coisas que lhes restou: a dignidade. Cerca de 50 moradores do bairro Novo México, em São Gonçalo, cujas casas caíram ou estão condenadas, foram levados para um condomínio popular em Guaxindiba pela prefeitura do município, no domingo à noite. E o que encontraram lá os revoltou: a maioria dos 96 imóveis não tem condições de ser habitada. Não há luz, água, torneiras, vasos sanitários e fechaduras.

- Só o que tem aqui são as paredes. Tive que pedir um vaso sanitário emprestado para poder ir ao banheiro. É uma situação humilhante demais. Eles (funcionários da prefeitura) bateram na nossa porta, entramos em um ônibus e nos trouxeram para este fim de mundo. Não tivemos escolha: era isso ou ficar num local prestes a ruir - disse o pastor Francisco Quirino do Carmo, de 59 anos.

Risco de desabamento

A casa dele, no Novo México, foi interditada por correr o risco de desabar. Mas, mesmo assim, a mulher e quatro filhos do casal continuam lá. Francisco não quer levá-los para Guaxindiba:

- Não há condições de eles morarem aqui. Não podemos cozinhar nem ir ao banheiro direito. Tomar banho, nem pensar. Estou sujo há dois dias.

A adolescente Jéssica Araújo da Silva, de 14 anos, passa por outro drama. A casa cedida para ela e para a mãe morarem está trancada com um cadeado. Dentro, entulhos e um cachorro que ninguém sabe a quem pertence.

- Estou dormindo com uns amigos que também estão aqui. Se era para ficarmos nessa situação, por que nos trouxeram para cá? - perguntou a menina.

A dona de casa Juciléia Santos Sardanha, de 27 anos, teve que fazer um gato na energia para conseguir iluminar o imóvel onde está com os filhos Camile, de 1 ano, e Júnior, de 3. Os outros três filhos ela não teve como levar ao local.

- Eles estão espalhados nas casas de parentes. Esses pequenos precisam de atenção constante e, infelizmente, tive que trazê-los. É duro - disse Juciléia.

Em nota a assessoria de imprensa da Prefeitura de São Gonçalo admitiu que as casas do condomínio popular “ainda não estão liberadas para ocupação”. Segundo o informe, “a área, atualmente, encontra-se em processo de estruturação”. A nota diz ainda que “algumas vítimas do temporal tiveram a opção de serem levadas para a localidade, por período momentâneo, até que outras residências adequadas estejam prontas para recebê-los”.

Quem ficou tem medo das invasões

Além das precárias condições das casas, os moradores do Novo México contaram que também foram surpreendidos por invasores nos imóveis quando chegaram ao local. O assistente técnico Sebastião Luís Pereira, de 40 anos, contou que um homem morava no imóvel que, segundo os funcionários da prefeitura, ele deveria ficar:

- Não deixo a casa vazia. E se ele voltar? Um absurdo ter que passar por isso. Será que não poderiam ao menos ter se certificado de que as residências estavam vazias antes de nos trazerem para cá?

Sebastião quer o título de posse do imóvel para evitar problemas no futuro.

- Temos que ter algum documento - disse.

O servente de obras Agnaldo Luís Santos Sardanha, de 31 anos, vive o mesmo dilema. Ele já não vai trabalhar há dois dias, com medo de que o antigo morador de sua casa volte:

- Vou acabar perdendo o emprego desse jeito.

A assessoria de empresa da prefeitura informou que “com relação ao título de posse, a questão está sendo estudada e analisada, a fim de que nenhum gonçalense saia prejudicado”.

Depoimento:

Francisco Quirino de 59 anos, pastor

"Não tem nada, nada, nada aqui. A caixa d’água foi retirada, por isso nem que eu queira posso armazenar alguma pelo menos para tomar banho. A porta não tranca, porque não tem fechadura. Então, se qualquer um quiser entrar, não encontrará a menor dificuldade. Tive que pedir um vaso sanitário emprestado para ir ao banheiro, mas a solução também não foi boa quando jogo água para limpar, ela vaza e acaba se espalhando pelo chão. É isso o que as autoridades têm a oferecer para quem perdeu tudo?"

Comissão do Urubu aprova apartamentos

Se o novo destino dos moradores do Novo México levou à frustração, o de 250 famílias do Morro do Urubu, em Pilares, deixou aliviada a comissão que visitou ontem um conjunto habitacional do Programa de Arrendamento Residencial (PAR), do governo federal, em Realengo. No local, há oferta de transporte e comércio. O grupo apelidou o local de Urubulengo.

- Em vista do que tinha, é muito melhor. Morava de parede-meia com uma vizinha - disse Alessandra da Silva Lopes, de 22 anos.

De acordo com o subprefeito da Zona Norte, André Santos, os imóveis têm cerca de 60 metros quadrados e estão em fase de acabamento.

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