Antonio Candido faz 'testemunho de afeto' sobre Oswald de Andrade

Antonio Candido faz 'testemunho de afeto' sobre Oswald de Andrade

Atualizado: Quinta-feira, 7 Julho de 2011 as 11:48

O professor, ensaísta e crítico literário Antonio Candido falou nesta quarta-feira (6) sobre a vida e obra de seu amigo Oswald de Andrade (1890-1954), durante a conferência de abertura da Flip 2011. A mesa, intitulada "Oswald de Andrade: devoração e mobilidade", contou também com a presença do compositor José Miguel Wisnik.

Candido subiu ao palco da Tenda dos Autores às 19h24, vestindo paletó bege, e foi aplaudido de pé pela plateia. "O que vou fazer não chega a ser uma palestra; é mais um depoimento. Vou falar de algo que só eu posso falar: como foi Oswald de Andrade. O que farei aqui é um testemunho de afeto."

O professor falou da intimidade do modernista, deixando de lado análises formais sobre sua obra. "Ele era muito suscetível à crítica. Era de um sarcasmo brilhante, esmagava a pessoa. De modo que despertava certo temor. Eu falo porque tenho experiência. Ele me malhou bastante."

Candido contou que a amizade entre os dois começou depois de ter publicado uma crítica negativa sobre um dos livros do escritor, em 1943. "Ele zangou e escreveu um artigo muito violento sobre mim. Mas depois nos encontramos em uma livraria e ele disse: 'ataquei você com violência e você respondeu com serenidade. Proponho que nos tornemos amigos'."

Outro momento marcante na trajetória de Oswald, lembrado pelo crítico como "patético", foi a briga com o amigo Mário de Andrade. "Foi ele que empurrou o Mário para frente. Depois brigaram feio. Mas o patético é que o Oswald passou o resto da vida querendo fazer as pazes com o Mário, e ele se recusava", disse. "Os dois se admiravam profundamente."

Candido disse que, quando Mário morreu, Oswald se "desesperou". Chamou o crítico para falar sobre sua admiração pelo amigo falecido. Segundo Candido, Oswald disse considerar Mário "a maior figura do modernismo brasileiro" e revelou que gostaria de ter escrito "Macunaíma" (1928).

"Oswald não sabia viver só. Precisava de carinho, aplauso, admiração. Ele queria apreciação do próximo. Gostava de estar cercado de gente, dava festas, era muito sociável. Era um homem que não tinha rancor."

José Miguel Wisnik falou logo depois, relembrando de seu período no curso de Letras, quando Oswald voltava a se tornar referência. Leu texto de Caetano Veloso em que o compositor baiano classifica Oswald como precursor da arte pop.

"A ideia de antropofagia é tão corrente que se diluiu. Se voltamos aos textos de Oswald, vemos que não se trata de livre associação ou devoração pela devoração." Para ele, antropofagia se trataria de uma escolha mais cuidadosa.

"Ele nos obriga a ler literatura de outros lugares. Temos que pensar que ele instalou outros critérios. É um autor extraordinariamente contemporâneo."

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