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Assista aos interrogatórios de Mizael e Evandro gravados pela Justiça

Assista aos interrogatórios de Mizael e Evandro gravados pela Justiça

Atualizado: Terça-feira, 28 Dezembro de 2010 as 10:25

Imagens gravadas da audiência do caso Mércia Nakashima, em outubro deste ano, mostram como foi o interrogatório dos dois acusados de assassinar a advogada em maio. A Justiça colocou uma câmera de vídeo em frente dos réus e registrou o que eles responderam e suas reações às perguntas feitas pelo juiz Leandro Jorge Bittencourt Cano, pelo Ministério Público, pelo seu assistente, além das indagações de seus advogados.

Na cópia das cenas, obtida pelo G1 , é possível ver momentos de tensão, como bate-boca entre os responsáveis pela acusação, os acusados do crime e seus defensores. O advogado e policial militar reformado Mizael Bispo de Souza e o vigia Evandro Bezerra Silva prestaram depoimento no último dos quatro dias de audiência no Fórum de Guarulhos, na Grande São Paulo, em 21 de outubro. Também foram ouvidos e gravados os depoimentos das testemunhas da acusação e da defesa.

saiba mais Justiça nega liberdade a Mizael e Evandro ‘Sou inocente’, diz Mizael, em e-mail repassado por seu advogado Justiça decreta prisão de Mizael e Evandro por morte de Mércia   Assista nos vídeos trechos da gravação do que ocorreu no interrogatório de Mizael, que durou cerca de duas horas, e no de Evandro, que levou pouco mais de uma hora. Nas imagens, eles negam envolvimento no assassinato de Mércia e alegam inocência. O ex-namorado da vítima começou sendo interrogado pelo juiz. Leia abaixo a reprodução de trechos dos depoimentos:

Juiz - Foi o senhor que matou Mércia Nakashima?

Mizael - Nunca excelência, jamais.

Juiz - Como era seu relacionamento com Mércia Nakashima?

Mizael - Meu relacionamento com ela era bom. E quando nós éramos namorados sempre foi ótimo. Depois, terminou, a gente continuou saindo numa boa, mas era bom. Respeitoso, de amizade.

Juiz - O senhor amava Mércia Nakashima?

Mizael - Quando nós namorávamos a amava, depois afastamos e passei a esquecê-la porque não era mais oficial, uma coisa séria, né?

Apesar de negarem o crime, o juiz decretou a prisão preventiva de Mizael e Evandro mais de um mês após essa audiência, em 7 de dezembro, quando também determinou que os dois sejam levados a júri popular para serem julgados pelo assassinato de Mércia. Em sua sentença, o juiz Bittencourt Cano escreveu que há elementos de que os réus ameaçaram testemunhas e tentaram forjar provas e também há “indícios suficientes de autoria” do crime, que são “evidenciados pelas provas oral e documental”. Foram relacionados 12 indícios da participação deles no sequestro e homicídio da vítima.

Desde a decretação da prisão, Mizael e Evandro estão escondidos e são procurados pela Polícia Civil. As defesas dos réus entraram com pedidos de habeas corpus no Tribunal de Justiça de São Paulo para que eles respondam ao crime em liberdade. Os advogado alegam que os acusados jamais ameaçaram alguém e que não há indícios do crime contra eles.

Nesta segunda-feira (27), a desembargadora Angélica de Almeida, do Tribunal de Justiça de São Paulo, decidiu manter, em caráter provisório, o decreto de prisão preventiva para os dois. Com a decisão, o advogado e policial militar reformado Mizael e o vigilante Evandro continuam sendo procurados pela Polícia Civil.

Palmeiras e foto da filha

Num raro momento de descontração na audiência gravada em outubro, o juiz Bittencourt Cano fala sobre a sua torcida para um time de futebol de São Paulo. Ele dá dicas de que é corintiano. Na sequência, Mizael comenta no microfone: “Então estou ferrado, eu sou palmeirense”.

Em outra situação, a câmera grava Mizael mexendo no bolso da camisa e retirando a foto de sua filha. Ele olha para ela e, em seguida, a guarda.

Mizael, ex-namorado e ex-sócio de Mércia, é apontado pela Promotoria como o mentor e executor do crime. Ele é acusado de matar a advogada porque não aceitava o fim do relacionamento. Evandro é acusado de ajudar Mizael na execução ao ajudá-lo na fuga. A vítima foi morta em 23 de maio deste ano após sair de carro da casa dos avós em Guarulhos. O veículo dela foi encontrado submerso em 10 de junho numa represa em Nazaré Paulista, no interior de São Paulo. No dia seguinte, foi achado do corpo de Mércia. A perícia constatou que ela foi baleada, desmaiou e morreu afogada dentro do automóvel, que foi empurrado para o fundo das águas.

No mesmo vídeo, Mizael e o promotor Rodrigo Merli Antunes discutem quando o representante do Ministério Público pergunta ao réu qual o motivo dele não usar mais um telefone celular que usava antes do crime:

Promotor - Qual a relação entre o senhor ser suspeito e passar a parar de usar o telefone?

Mizael – Porque eu andei recebendo trotes, inclusive do Ministério Público...

Promotor – Trotes?

Mizael – Trotes, tá! Trotes, ameaças.

Promotor – Do Ministério Público?

Mizael – Inclusive.

Promotor – Ah! Doutor Mizael, pelo amor de Deus...

Assassino atira mal

Em seguida, o promotor pergunta se Mizael é destro ou canhoto e em qual mão ele sofreu a descarga elétrica. O ex-namorado de Mércia mostra a mão direita, na qual perdeu um dos dedos, e responde que, apesar de ter sido aposentado por invalidez na Polícia Militar depois desse acidente, atira muito bem. A resposta do réu foi para rebater a conclusão da perícia de que, apesar de Mércia ter sido baleada dentro do carro, o tiro não foi fatal e advogada morreu afogada na represa:

Mizael – O problema é a mão direita, mas eu convido o senhor para qualquer estande de tiro para fazer teste comigo porque eu atiro muito bem com essa mão [mostra a direita] (...)

Promotor – Eu sei muito bem disso...

Mizael – Mas a minha ex-namorada, ela foi morta por uma pessoa que atira muito mal, inclusive a 40 centímetros [de distância].

Discussão

Depois ocorre um bate-boca entre um dos advogados de Mizael, Ivon Ribeiro, e o promotor, momentos após Rodrigo indagar o acusado sobre o conhecimento dele em armas. Para conter os ânimos, o próprio réu decide intervir, pedindo calma a seu defensor. O juiz Leandro faz o mesmo e solicita que o advogado e o promotor ajam com cortesia entre eles. Leia trechos abaixo:

Promotor - Eu sou o titular da ação penal, doutor. Eu posso conversar com a autoridade a hora que eu quiser e posso requisitar a diligência que eu quiser, entendeu? E ele tem que fazer, só isso.

Advogado - Como o senhor fez ontem?

Promotor - Fiz e assumo publicamente.

Advogado - O senhor foi desleal.

Promotor - O senhor só divaga. Faça pergunta objetiva (...) Vá estudar, meu filho.

Mizael - Vamos nos concentrar no processo. Deixa isso aí de lado.

Juiz - Doutores, doutores, eu peço a gentileza, vamos conduzir essa audiência com elevação e urbanidade.

Durante o seu interrogatório, Mizael revela que já foi aluno do assistente de acusação, o advogado Alexandre de Sá Domingues, durante um curso preparatório em direito. A afirmação do réu surge no momento em que ele é indagado pelo ex-professor sobre a lei de desarmamento e o porte de arma.

Evandro

Na vez de Evandro ser interrogado, o juiz o informou que a Promotoria ofereceu ao vigia a delação premiada, que garante a redução da pena do réu, no caso de condenação, se ele confessar o crime. O vigilante, no entanto, negou o benefício ao dizer que não participou da morte de Mércia. Afirmou ainda que foi torturado por policiais de Sergipe, onde chegou a ser preso, para confessar que Mizael matou a advogada por ciúmes e que ele ajudou o ex dela a fugir. Também afirma que o delegado Antonio de Olim, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), é mentiroso.

Defesa avalia audiência gravada

Procurado para comentar o assunto, o advogado Samir Haddad Júnior, que defende Mizael, afirmou que achou válida a gravação da audiência do caso Mércia, mas fez ressalvas.

“Um dos princípios do processo é a publicidade, mas do jeito que foi gravado não adiantou nada. Acho que valeria ter passado ao vivo. No júri, se houve um júri, não me oponho a gravação. Acho que quanto mais transparência mais garantia que todos vão se comportar de forma correta. A televisão dá uma burilada no comportamento da pessoa. O desempenho do Mizael foi bom. Ele começou negando que fosse o autor do crime e não perdeu o controle em nenhum momento”, disse Haddad Júnior.

O G1 não conseguiu localizar o outro defensor de Mizael, Ivon Ribeiro, e o advogado de Evandro, José Carlos da Silva, para falarem. A reportagem deixou recados em seus telefones celulares, mas até a conclusão desta matéria não havia obtido retorno.

Outras prisões

Não é a primeira vez que Mizael e Evandro têm a prisão decretada pela Justiça. O mesmo juiz chegou a determinar a preventiva deles em 3 de agosto. O advogado chegou a fugir e depois conseguiu a liberdade por conta de um habeas corpus do TJ-SP. O vigia chegou a ser preso em 9 de julho. Dias depois, o vigilante revelou numa carta ao G1 que foi torturado por policiais para confessar um crime que não cometeu. Os desembargadores revogaram a prisão de Evandro em 9 de agosto.

E-mail

No dia 10, em entrevista ao G1 por e-mail intermediada por sua defesa, Mizael lamentou não poder sair de seu esconderijo para participar da formatura escolar da filha mais nova em Guarulhos, na Grande São Paulo. O advogado e policial militar reformado também voltou a alegar inocência.

  Kleber Tomaz Do G1 SP

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