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Bilhete único aumenta viagens e causa confusão em Guarulhos

Bilhete único aumenta viagens e causa confusão em Guarulhos

Atualizado: Quinta-feira, 27 Janeiro de 2011 as 8:09

Poder utilizar mais de um ônibus municipal com apenas uma tarifa durante um período de duas horas era uma conquista desejada pelos moradores de Guarulhos, na Grande São Paulo. Entretanto, desde a implantação do bilhete único na cidade, no início de janeiro, a população sofre com as mudanças nos itinerários, a obrigação de pegar mais de uma linha em trajetos antes feitos diretamente, o aumento do tempo de viagem e a falta de informação.

O problema no bilhete único é assunto recorrente. Nos pontos de ônibus, é difícil não ouvir alguma reclamação espontânea. Os moradores dos bairros mais distantes são os mais afetados. A cozinheira Vanessa Siqueira, de 27 anos, teve seu trajeto diário aumentado em cerca de uma hora com as mudanças. Ela sai de Cumbica e vai para o Centro de Guarulhos todos os dias. Antes, pegava apenas uma condução e levava cerca de 40 minutos. Agora, é obrigada a pegar duas e demora uma hora e 40 minutos.         “Pego um ônibus da minha casa até o Parque Cecap e aqui fico esperando 40 minutos a outra condução. Passo boa parte do tempo esperando no ponto. Para mim ficou horrível”, disse ela na manhã desta quarta-feira (26). Ela começou a sair mais cedo de casa, mas ainda assim tem problemas – na manhã de quarta, conseguiu pegar o segundo ônibus por volta das 8h50 – sendo que teria que entrar no trabalho às 9h.

“Criaram mais linhas, mas não adiantou muita coisa, atrapalhou muita gente. E no início foi confuso, eu tinha que pagar três conduções, porque não sabia onde fazer o bilhete”, reclamou a jovem. Segundo ela, antes havia mais opções de coletivos em seu bairro.

No Parque Cecap funciona um terminal de transferência. Passageiros de bairros mais afastados desembarcam ali para pegar ônibus para outros pontos da cidade. “O problema é que agora você é obrigado a usar o bilhete único. Em São Paulo você não é obrigado”, contou Julia Teles, de 23 anos. “Não achei uma boa, as pessoas estão confusas, meio atrapalhadas com esse sistema. A população não foi avisada. Faltou uma divulgação melhor. Mesmo assim, piorou a situação”, disse o comprador Eduardo Donadello, de 35 anos.

Novo sistema de transporte

A implantação do novo sistema veio com uma mudança no conceito do transporte da cidade. As linhas antes concorrentes que seguiam dos bairros para o Centro foram desmembradas e novos trajetos foram criados. “Foi feita uma racionalização do sistema de transporte, em que há um sistema estrutural, que faz um atendimento entre bairros de maior concentração e onde tem maior demanda e nas vias principais, e um sistema alimentador nos bairros”, explicou Suzana Nogueira, diretora de planejamento da Secretaria de Transportes de Guarulhos.

Com isso, foram criadas ligações entre os principais bairros – trajetos que antes tinham que passar pelo Centro da cidade. Quem vai de bairros mais afastados ao Centro, entretanto, precisa de dois ônibus. “Antes, a pessoa tinha que pegar uma única linha. Hoje, a pessoa tem uma opção de linhas articuladas em rede. Do bairro ela pega uma alimentadora até a estação. Na estação ela pode ir para o Centro por diferentes vias”, explicou Suzana.

Dúvidas

Mesmo no Centro da cidade as dúvidas e insatisfações são muitas. O motorista Roberto da Silva Ramos, de 33 anos, reclamava do novo sistema com outros passageiros que aguardavam em um ponto na Avenida Esperança quando a reportagem do G1 chegou ao local. “Disseram que ia ter bilhete para vender no carro e não tem. Não temos informação sobre onde comprar, os motoristas não sabem de nada. Eu ainda não fiz, estou pagando duas conduções por vez”, contou ele. Ao lado dele, a dona de casa Suzete Ribeiro, de 47 anos, reclamava que o trajeto da Ponte Alta até o Centro, antes feito em um ônibus em 40 minutos, agora deve ser feito em duas linhas, e chega a durar uma hora e meia. “Tenho que sair uma hora antes de casa”, contou.         Mesmo quem não paga a passagem também está insatisfeito. A reclamação da professora aposentada Vanda Rosa, de 56 anos, é a mesma de todos os outros passageiros ouvidos pela reportagem. “Antes saía da Vila Rio de Janeiro até o Centro com um ônibus só. Agora está muito confuso, você tem que ficar perguntando para o motorista, não sabe para onde os ônibus vão, e não vai mais direto, tenho que pegar dois”, afirmou ela. “Você tem pressa, não dá para ficar subindo e descendo de ônibus, esperando. Dá mais trabalho.”

Monitoramento

Segundo a prefeitura, desde dezembro foi feito um trabalho de divulgação dos novos trajetos nas antigas linhas. Na primeira semana de implantação, foram colocados 300 orientadores nas ruas para tirar as dúvidas dos passageiros. De acordo com Suzana, da secretaria de Transportes, até o fim desta semana todas as linhas e itinerários devem ser disponibilizados na internet.

“Vejo uma dificuldade das pessoas de saber qual linha atende mais próximo no bairro. Estamos tendo reunião com as empresas para que elas orientem de fato as pessoas”, disse a diretora de planejamento.

Em relação aos atrasos, Suzana informou que, segundo levantamento da secretaria, o intervalo médio das linhas é de até 20 minutos. Foi verificado um problema maior durante o período da noite, e já está havendo um monitoramento. Os passageiros que encontrarem problemas devem entrar em contato com a prefeitura para relatar o ocorrido – pelo site ou pela central de atendimento no número 2475-6996.

A tarifa de ônibus em Guarulhos custa R$ 2,90. Atualmente, segundo a prefeitura da cidade, há 47 pontos de venda do bilhete único. Outros 13 estão em fase final de implantação. Um posto itinerante deve entrar em funcionamento nos próximos dias e a prefeitura está em processo de negociação para a realização da recarga em outros pontos da cidade.

Balanço

Apesar de o novo sistema ter sido implantado em um período de férias e não ter completado ainda um mês, os reflexos já são positivos, segundo Suzana. “É sensível a redução de congestionamentos, principalmente na região central. Tínhamos muitos problemas no pico da tarde”, explicou ela. Dados concretos, entretanto, só poderão ser compilados no mês de fevereiro.    

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