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Boca a boca é ferramenta de divulgação no Festival de Teatro de Curitiba

Boca a boca é ferramenta de divulgação no Festival de Teatro de Curitiba

Atualizado: Quarta-feira, 24 Março de 2010 as 12

O roteiro desta 19 edição do Festival de Teatro de Curitiba tem quase 400 peças listadas, boa parte delas com sinopses surreais, títulos esdrúxulos - do tipo "Pum! Histórias Mal Cheirosas" - e nomes de artistas completamente desconhecidos. De todo o país, diga-se, o que dificulta qualquer pesquisa.

Ainda assim, existe um par de maneiras de desvendar algo que valha ser visto. Ler o guia distribuído pela organização do festival é uma delas, mas também uma armadilha das mais perigosa. Vasculhar a internet é como um suporte complementar, pode funcionar, mas somente como apoio da dica número um. Dar ouvidos ao famoso boca a boca, por fim, ainda tem sido a ferramenta mais eficiente.

Um sujeito que sofreu duas horas assistindo a um espetáculo ruim pode se transformar em um verdadeiro poço de sinceridade. Caso de uma jovem estudante de teatro que, na fila de um espetáculo, implorava a quem pudesse ouvir: "por favor, passem longe de 'A Balada do Cárcere de Reading'".

Nada contra Oscar Wilde, que escreveu o texto na prisão, ela disse. A companhia que encenava a peça, grupo Por Mares Nunca Dantes Navegados, é que parecia ter causado a tormenta. Drama doído, vozes impostadas, cenário realista como a Casa do Monstro do Playcenter. Não é que a menina estava certa!

Ok, esse é um antiexemplo. Outra indicação de rua tem final um pouco mais feliz. Foi num restaurante frequentado pelo "pessoal do festival" que um rapaz divulgou: "Psicose 4h48", texto da britânica Sarah Kane, tinha no elenco Rosana Stavis, uma das atrizes de teatro mais conhecidas no circuito curitibano. Dica que valeu a pena. Sessão lotada, com gente sentada no chão.

Também correram por outras filas e restaurantes nomes como "The Cachorro Manco's Show", que veio de São Paulo; "Manson Superstar", do grupo Vigor Mortis, espécie de ficção documental sobre Charles Manson, músico que comandou o assassinato de uma mulher; e "Os Cantos do Hotel", com poemas surrealistas de Federico Garcia Lorca. Todos no Fringe, a mostra paralela.

Conforme os dias passam, o boca a boca tende a ganhar adeptos. A ponto de um diretor de teatro, Diego Fortes, alertar sobre o próprio trabalho: "Não foi dessa vez", disse cabisbaixo, comentando a montagem de "O Esquema", que ainda ia ser apresentada no dia seguinte. Um dos atores da peça, ali do lado, até escondeu os flyers que pretendia distribuir na fila do espetáculo "De Como Fiquei Bruta Flor", de Cibele Forjaz --por sinal, muito bem recomendado.

Para a estudante Júlia Rocha, 19, é pelo boca a boca que o festival cria um importante sub-enredo. "O legal são as pessoas comentando mesmo, isso que dá o clima da coisa", disse, enquanto esperava pelo início de "Quando os Demônios Dizem Amém".

Pena que, neste último caso, ninguém havia alertado nada. Quando o boca a boca não funciona, sair no meio da peça, tomando o devido cuidado para ser silencioso, não deixa de ser outro bom remédio.

Por: Gustavo Fioratti

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