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Brasil tem 400 agentes para fiscalizar mais de 5 milhões de viagens de ônibus

Brasil tem 400 agentes para fiscalizar mais de 5 milhões de viagens de ônibus

Atualizado: Segunda-feira, 8 Fevereiro de 2010 as 12

Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), no ano passado o Brasil teve 912 acidentes com ônibus interestaduais e internacionais - menos de três por dia. Mas quem passa os números ao governo são as próprias empresas. A agência tem 400 agentes para fiscalizar mais de cinco milhões de viagens de ônibus feitas no Brasil por ano. Isso sem contar os veículos piratas - o Fantástico embarcou num deles.

A fiscalização dos ônibus interestaduais é feita ANTT. Nesta blitz, os fiscais encontram um ônibus acima do limite do peso, o que aumenta o risco de capotagem. "O carro do senhor apresentou um excesso de 1.485 no peso bruto e 380 no direcional". Na mesma operação, outro ônibus está com o vidro do pára-brisa rachado. "A gente apanha o carro, acaba nem vendo. Pega o carro rápido, já quer viajar. Está atrasado, pega, nem olha direito", justifica o motorista.

Também há problemas com um item de uso obrigatório pelos passageiros - e que os testes mostram que pode salvar as vidas em um acidentes: o cinto de segurança.

Simulação de acidente

Um ônibus bate a pouco menos de 50 km/h, e nem todos os passageiros estão usando cinto de segurança. O que acontece com eles? E se o ônibus vira? Em primeiro lugar, tudo o que está no bagageiro cai. Depois, o boneco sem cinto é arremessado contra a janela - e contra o asfalto.

Os testes de segurança dão uma ideia do que aconteceu esta semana, dentro do ônibus, no acidente que matou oito pessoas e deixou 18 feridos na Rodovia Fernão Dias, em São Paulo. O veículo perdeu a direção, bateu na mureta de proteção e se arrastou cruzando a pista de sentido contrário.

O motorista foi preso em flagrante. A acusação: homicídio doloso. Para a polícia, ele assumiu o risco de provocar mortes. A perícia ainda vai determinar a causa do acidente, mas o tacógrafo sumiu. Ele é o sistema que registra a velocidade dos ônibus. Os motoristas não têm a chave que dá acesso ao aparelho.

O delegado que investiga o caso desconfia do motorista, que já foi multado por adulterar um tacógrafo. Para o delegado, a cena do acidente já indica que o ônibus estava muito acima do limite de velocidade naquele trecho da rodovia.

"Se você mantém a velocidade máxima ali, que é 60 km/h, ele teria como evitar esse acidente. Pelas proporções do acidente e pelo relato das testemunhas, pela perícia no local, me convenci de que ele estava numa velocidade além da permitida - muito além", diz o delegado de Mairiporã (SP) Antônio José Pereira.

Muitos motoristas de ônibus interestaduais parecem dirigir como se não existissem nem tacógrafo nem limite de velocidade fixado por lei. Para constatar o desrespeito, pegamos uma carona com o piloto de testes César Urnhani.

Encontramos motorista ultrapassando numa velocidade próxima de 120 km/h, quando deveria estar a 90 km/h. E ônibus trafegando na pista da esquerda, quando deveria estar na direita.

"Esse cinto está com defeito. Não tem a garra onde deveria fixar nessa outra parte para dar total segurança. A empresa será autuada agora porque ela não apresentou esse item de segurança. Sinto muito, mas a senhora não vai poder continuar nessa poltrona. Se o veículo tivesse lotado, a empresa teria que mandar outro ônibus", avisa o fiscal.

Ônibus piratas

"Eu não dormi, preocupada, à noite. Só pensando nisso". A mulher é passageira de um ônibus interestadual clandestino. Como a viagem é longa, ela tem medo de que o motorista se canse.

"Com medo dele perder o controle e sair do lugar. E morrer. Deus o livre, nós todos, numa hora dessa". A viagem de São Paulo a Alagoas dura duas noites. São 50 horas em um percurso de 2,5 mil quilômetros, passando por cinco estados. O ônibus só tem 42 poltronas, mas leva 62 passageiros.

"Eles deixam ir quatro pessoas sem problemas. Ele achou ruim do menino, o mais velho. Só que depois deixou, a gente conversou com ele, deixou. Cobrou só duas passagens". A mesma viagem num ônibus legalizado custa cerca de R$ 320. O preço cobrado pelo ônibus pirata: R$ 160, mas o veículo não tem cinto de segurança.

Crianças e adultos viajam em pé ou sentados nos braços das poltronas. O banheiro não tem tranca. Uma cordinha impede a porta de ficar aberta o tempo todo. "Não dormi nada por causa do banheiro. O banheiro estava fedendo", reclama um passageiro.

O ônibus tem dois motoristas. Um deles é o dono do veículo. Ele conta que viaja a semana inteira entre São Paulo e Alagoas. "Eu estou na estrada desde segunda-feira e paro no domingo agora"

Jornada de trabalho

Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a jornada máxima dos motoristas de ônibus interestaduais é de oito horas, dividida em dois períodos de quatro horas, com 30 minutos de descanso.

No ônibus pirata em que a equipe do Fantástico viajou, o turno de cada motorista varia de acordo com o cansaço. Ao longo de uma semana, enquanto um deles dirige, o outro descansa dormindo no chão.

No começo da viagem, a Polícia Rodoviária de São Paulo chegou a parar o ônibus. Mas o veículo foi liberado sem inspeção. A fiscalização dos ônibus interestaduais cabe à ANTT. A agência não sabe quantos ônibus clandestinos rodam pelo Brasil e admite que não consegue fiscalizar todo o país. Por isso mantém convênios para tentar tirar o perigo das estradas. Uma dessas parcerias é com a Polícia Rodoviária de São Paulo.

"Mais de 15,6 mil saídas no Brasil por dia. Nós não conseguimos fazer isso tudo. Temos convênio com a Polícia Rodoviária Federal, temos convênio com mais dois estados, secretaria de transportes e agências estaduais para ajudar na fiscalização. Agora, é muita coisa", aponta o supervisor da ANTT Francisco Rocha Neto.

A ANTT informa que o ônibus em que viajamos já pertenceu a uma empresa legítima de transporte interestadual, mas depois de vendido está com o certificado vencido.

Em nota, a Polícia Rodoviária de São Paulo diz que esse ônibus já tinha sido autuado por causa de irregularidades na documentação. Cidades diferentes constam na placa e no registro. Mas o dono tinha autorização provisória da Justiça para utilizar o ônibus, que por isso não foi apreendido.

A nota afirma também que a polícia vai apurar o procedimento dos policiais que não checaram o ônibus. "É a primeira vez que pego esse ônibus. Não sabia que era assim. Não pegaria de novo", garante uma passageira.

Antes de entrar em um ônibus interestadual, inclusive fretado, você pode consultar na internet se a empresa e o veículo estão em situação legal.

Alerta nas estradas

Em Agudo (RS) a situação mais grave é a da ponte da RS-287, sobre o Rio Jacuí, na região central. Um terço da estrutura de 314 metros desabou no mês passado por causa da chuva e matou cinco pessoas.

A estrada também era rota mais utilizada para as praias do litoral norte, destino de muitos gaúchos no carnaval. Nesta época o movimento duplicava.

Ainda não há previsão para o início das obras de reconstrução da ponte. O principal desvio é por uma estrada de chão que aumenta em 20 quilômetros a viagem de quem costumava passar por aqui.

Bahia

A BR-324 é a principal ligação entre Salvador, o Norte e o Sul do Brasil. Por aqui passam diariamente entre 30 a 40 mil veículos. Para o carnaval o aumento esperado é de 50%. Essa é uma das rodovias mais perigosas da Bahia.

Em todo o ano passado 52 pessoas morreram em 1.854 acidentes. As principais causas são excesso de velocidade e a imprudência dos motoristas. A BR-324 foi privatizada no fim do ano passado, mas o pedágio ainda não está sendo cobrado porque há diversos trechos em obras.

O motorista que passar por aqui deve ficar atento porque há diversos problemas, como buracos, falta de sinalização e acostamento precário, como é o caso deste trecho, em que uma erosão já avança em direção à pista.

Minas Gerais

Asfalto novo, sinalização em boas condições, mas o perigo é grande na BR-356, a Rodovia dos Inconfidentes, que dá acesso à histórica Ouro Preto. A pista é simples, estreita; veículos separados apenas pela faixa contínua.

A ultrapassagem proibida aqui é uma das principais causas de acidentes. Curvas fechadas em uma descida de serra. Mesmo com o tempo bom, o motorista precisa ter cuidado. O trecho sinuoso de apenas oito quilômetros não permite erros.

Normalmente as condições da BR-356 exigem muita atenção. Para viajar com segurança, uma combinação sempre dá certo: manutenção em dia e respeito às leis.

Pernambuco

Estamos na BR-101, no município de Igarassu, Região Metropolitana do Recife. As obras de duplicação da rodovia, que começaram em 2005, ainda provocam transtornos aos motoristas que se dirigem à capital pernambucana.

De acordo com o DNIT, o Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes, circulam por aqui todos os dias 42 mil veículos, movimento que deve aumentar durante o carnaval com a chegada de turistas, que vêm da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

Alguns trechos duplicados da rodovia foram liberados, mas ainda existem desvios como este. Carros, ônibus e caminhões que vêm pela pista duplicada são obrigados a passar para a pista antiga da estrada, que anda é mão dupla. Aqui os motoristas devem ter cuidado e reduzir a velocidade, para não provocar acidentes.

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