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Cartas e diários revelam mente complexa de Franz Kafka

Cartas e diários revelam mente complexa de Franz Kafka

Atualizado: Sexta-feira, 17 Dezembro de 2010 as 4:20

Antes de morrer, Franz Kafka deixou seu último desejo. Todos os seus escritos, mesmo os que estivessem em mãos de terceiros como cartas, diários, manuscritos, contos, desenhos, deveriam ir para o fogo. O melhor amigo e biógrafo, Max Brod, não fez nada disso. Para ele, a obra não publicada de Kafka continha "tesouros estupendos". Não somente preservou o material inédito, como também reuniu escritos pessoais que revelam muito da vida atormentada de um dos maiores escritores de ficção do século 20.

Em "O Mundo Prodigioso que Tenho na Cabeça: Franz Kafka, um Ensaio Biográfico" (Companhia das Letras), o romancista e ensaísta Louis Begley envereda em uma criteriosa pesquisa documental que nos ajuda a compreender mais a complexa mente do escritor. Com base nesses diários e cartas, também nas entrelinhas da obra de Kafka, o autor vai pinçando diferentes aspectos, como o ambiente familiar opressivo, a figura odiada do pai, os vários problemas de saúde, a complicada vida amorosa e o ímpeto criativo.

Segundo o autor, Kafka escrevia cartas compulsivas e se transformava em um déspota histérico quando não tinha resposta imediata. Aos remetentes, enviava telegramas e repreensões. À noiva Felice, por exemplo, Kafka pediu-lhe um diário completo: hora em que ela ia trabalhar, o que via pela janela, nome de amigos e amigas. Para Louis Begley, era uma "mistura de voyeurismo e necessidade de controle". O romance com Kafka, no entanto, estava longe de ser só flores.

Ele pediu-a em casamento, depois hesitou, voltou atrás. Certa feita, em uma carta, ele traz à baila um assunto delicado: a suposta impotência sexual. Kafka tinha frequentado famosos bordéis e recorrido a prostitutas profissionais - seria essa uma tentativa de resolver uma disfunção sexual? O caso é que, segundo o livro, para Kafka, casamento era um dever a assumir, "único caminho para a felicidade tranquila, ideia essa combinada ao medo da aridez de uma vida de velho solteirão".

Em meio à sua angústia e desespero, ele escrevia: " não posso viver com ela, não posso viver sem ela". Segundo Louis Begley, havia 2 alternativas que explicam porque Felice suportava tantas esquisitices e alternâncias de humor de seu estranho pretendente. Ou ela "reconhecera que Kafka era um gênio além de uma espécie de louco" ou ela sucumbiu "ao poder mágico das cartas dele". Os altos e baixos se repetiram na relação com Milena. Afora isso, Kafka teve suas paixonites ocasionais.

Na saúde, foi de mal a pior. Tuberculose, frequentes colapsos nervosos, insônia, infecções, depressão. Aos 39 anos, ele requereu a aposentadoria. Morreu em 3 de junho e 1924, um mês antes de completar 41 anos. Para Louis Begley, a vida e o contexto social desse escritor genial enriquecem a experiência de ler suas obras. Entre elas, A metamorfose e O processo, onde os personagens são projeções do próprio escritor, mergulhados em situações "desnorteantes e frustrantes, com as complexidades da vida moderna".    

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