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Casa própria prende famílias ao Jardim Romano após enchentes

Casa própria prende famílias ao Jardim Romano após enchentes

Atualizado: Quarta-feira, 8 Setembro de 2010 as 8:23

Nove meses após a enchente que deixou trechos do Jardim Romano debaixo d’água por até três meses, quem vive no bairro da Zona Leste de São Paulo ainda teme a chuva, mas muitos não querem deixar a área para receber auxílio-moradia da Prefeitura. A maior parte dos moradores está confiante com as obras que prometem acabar com os alagamentos, mas o que realmente os prende ao bairro é o sonho da maior parte dos brasileiros: a casa própria.

Grande parte das residências foi construída pelos próprios moradores, que vivem há décadas no local e compraram seus terrenos. Por isso, eles reclamam quando dizem que a área é invadida. “Se é de várzea, por que construíram o CEU e os predinhos [habitações populares]? Por que deixaram por 25 anos assim? Tem água, tem esgoto, e nós pagamos tudo. Nós compramos esse terreno de alguém, temos os recibos, não somos invasores”, contou a dona de casa Márcia de Fátima Pereira, de 45 anos. Moradora do Jardim Romano há 20 anos, onde construiu seu imóvel de dois andares, ela disse que só sairá se receber um preço justo por sua casa. “Não tive condições de sair ainda porque eles ofereceram muito pouco. Se precisarem da área e chegarem a um preço que dê para eu construir uma casa igual à minha, eu saio”, disse.

Alguns vizinhos de Márcia aceitaram a ajuda da Prefeitura e deixaram suas casas, que foram demolidas. Algumas ruas adiante, a casa de Maria Valda de Jesus, de 55 anos, era a única remanescente em uma área onde atualmente só há entulho. Ela também aceitou sair – recebeu R$ 50 mil pelo terreno e pela casa construída há 20 anos – e viveu nesta terça-feira (7) seu último dia no local.

Mesmo com o dinheiro, ela teme o futuro. “Por enquanto vou ficar na casa dos meus outros filhos. Quero comprar uma casa com escritura. Com esse dinheiro não consigo”, disse a mulher. “Eu gostava daqui. Mas se Deus me ajudar, vou conseguir um lugar melhor.” Alagamento com pouca chuva

Na manhã desta terça, a chuva fina que caía no local causou um pequeno ponto de alagamento na Rua Manoel Félix de Lima, uma das mais afetadas na grande enchente que atingiu o bairro entre o fim de 2009 e o início de 2010. Quem mora na rua, mesmo com o temor de novas tragédias, não pensa em deixar o local.

“Estava há dois meses sem chover aqui. Na primeira chuvinha que deu hoje já encheu este pedaço”, contou o vigilante Douglas Aquino da Silva, de 35 anos. Em dezembro, a água chegou a um metro de altura dentro das casas. “Fiquei morando na parte de cima da minha casa, e tinha que enfrentar a água para entrar e sair.”

Muitos moradores optaram por criar um segundo andar nas residências, para garantir um lugar para ficar caso a região volte a sofrer com as enchentes.

Apesar de toda a tragédia, o vigilante e outros moradores da rua, que vivem há muito tempo no local, estão otimistas com as obras feitas no Rio Tietê. “Estou feliz com as obras, o piscinão vai receber a água daqui, o dique vai conter a água do rio. Temos esperança de melhorias para poder continuar aqui”, disse o vendedor Salatiel Lima, de 38 anos. Outra que espera que a água não entre mais sua casa é Maria Aparecida dos Santos Cruz, de 47 anos. Sua sala está vazia há nove meses, depois que ficou com 50 centímetros de água por duas semanas. Após perder sofá, parte dos armários da cozinha, além de outros móveis da casa, a família entrou com uma ação contra a Prefeitura por indenização.

“Nunca tinha entrado água na minha casa dessa forma. A gente fica insegura, apesar das obras. Será que vai ocorrer novamente? Quando chove, fico com medo. Por isso minha sala está vazia até agora”, contou a mulher, que trabalha com inclusão de crianças com deficiência.

Obras

De acordo com os moradores, nos dias úteis o movimento de caminhões é grande no bairro, antes silencioso. Eles trabalham na construção de um piscinão e de um dique no Rio Tietê – obras que prometem conter o avanço das águas durante o período de chuvas.

A proximidade das eleições deixa apreensivos aqueles que contam com as obras para continuar vivendo no bairro. “Está sendo feita muita coisa aqui no bairro, mas não sei se tudo vai ser realmente concluído. Não vai dar tempo de terminar antes das eleições”, disse Maria Aparecida. “Estou procurando com muito cuidado em quem vou votar.”

A campanha eleitoral, entretanto, anda devagar no local. São poucos cartazes de candidatos a uma vaga nas eleições de outubro. De acordo com os moradores, não houve muita campanha no bairro. “Ontem ouvi um carro de som de um candidato, mas não tenho visto muita coisa. Eles deixam para vir na última semana pedir votos”, afirmou o pedreiro Saulo Ferreira.

Postado por:Thatiane de Souza

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