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Chuvas: o difícil recomeço um mês depois da tragédia

Chuvas: o difícil recomeço um mês depois da tragédia

Atualizado: Quinta-feira, 6 Maio de 2010 as 11:14

Laura Beatriz, Dona Maria da Luz, Ubiraci são nomes por trás de uma triste estatística. Há um mês, 40 mil pessoas foram subitamente expulsas de suas casas pela tragédia das chuvas. Trinta dias depois, 3.730 vêem sua esperança de reconstrução do futuro num cheque de R$ 400. Em Niterói, 2.458 ainda aguardam receber o benefício. Em São Gonçalo, são cerca de 512 pessoas à espera.

O recomeço para quem perdeu tudo é sofrido. Com 8 anos, Laura Beatriz Rosa Silva Souza já aprendeu a dolorosa lição. Ex-moradora do Morro do Bumba, em Niterói, ela viu a comunidade começar a se desfazer em 5 de abril para, dois dias depois, virar massa de lama e lixo. Os quatro primos, a avó e a tia não conseguiram escapar da avalanche.

Ela mesma foi resgatada com lama até cintura pelo pai, o office boy Ronaldo dos Santos Silva de Souza, de 27 anos. E emocionou o país ao desabafar no “Jornal Nacional”:

- Agora vou viver minha vida, tenho muitas coisas para viver - disse à época.

Triste lembrança Anteontem, Laura e o pai voltaram ao Bumba. Ela ficou chocada ao ver os destroços.

Laura ficou minutos olhando o monte de entulho. Lembrava os primos. A tristeza só deu lugar a um sorriso quando falou da esperada volta às aulas - a menina hoje mora na casa dos patrões da avó, em Icaraí, e a família procura um colégio perto de lá para que ela possa voltar ao segundo ano do ensino médio. Já Ronaldo sonha alugar uma casa onde possa ter um cantinho para a filha. Mas esbarra na dificuldade enfrentada pelos desabrigados:

- Vou receber o aluguel social de R$ 400. Mas uma quitinete subiu de R$ 250 para R$ 500 - diz, fazendo referência à triste matemática da tragédia.

O pintor Ubiraci Francisco Guimarães, de 48 anos, ignora o laudo de interdição da Defesa Civil e até hoje não deixou sua casa no Morro do Bumba. Na companhia de Totó - resgatado por bombeiros dos escombros e adotado por ele -, ele diz ser guardião dos bens que ainda estão no imóvel semidestruído:

- Somos as únicas presenças nesta parte do morro.

A parte a que Ubiraci se refere é justamente a que veio abaixo. Ele passa as noites na escuridão. Diz que ainda consegue ouvir a terra caindo:

- Enquanto ainda não tenho outra casa para levar minhas coisas, vou ficar aqui - afirmou o pintor, que está cadastrado para receber o aluguel social em Niterói.

A mulher e os dois filhos do pintor - abrigados na Escola Machado de Assis, perto do Bumba - pedem que Ubiraci saia da comunidade, mas ele está irredutível.

No pátio, o carro de pão anuncia bolo de milho a R$ 3. De sua janela, aos poucos, Dona Maria da Luz dos Santos, de 87 anos, vê o condomínio Vivendas do Ipê Amarelo se incorporar ao dia a dia do bairro de Realengo e ganhar vida com a chegada de novas famílias. Desabrigada pelas chuvas no Morro do Urubu, a idosa passou a residir no conjunto, apelidado de Urubulengo.

Mesmo nas horas mais difíceis após as chuvas, ela conta que manteve a fé:

- Eu dou graças a Deus. Tem coisa muito pior. Em Niterói, gente saiu rolando pela lama.

A maior dificuldade da família é o transporte. Filha de Dona Maria da Luz, Sara Rosário Rodrigues, de 60

anos, dobrou seu gasto com a condução para o trabalho.

- Pesa muito, mas a gente se adapta - diz, com esperança no recomeço.

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