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Cidade de concreto avança sobre Parque Municipal em Belo Horizonte

Cidade de concreto avança sobre Parque Municipal em Belo Horizonte

Atualizado: Segunda-feira, 5 Julho de 2010 as 10:30

Paul Villon, arquiteto paisagista francês (1853-1936), responsável pelo projeto original do Parque Municipal de Belo Horizonte, disse que este seria "o parque o mais importante e grandioso de quanto há na América Latina”. A frase foi dita por volta do ano de 1897, porém, nunca foi levada ao pé da letra. Projetado ainda no alvorecer da nova capital, margeando as principais avenidas centrais da cidade, o espaço público sofreu várias mutilações ao longo do tempo. Dos 555 mil metros quadrados da antiga aérea, 372 mil foram impermeabilizados pelo concreto, dando lugar a edifícios e vias urbanas. O verde que sobrou, exatos 182 mil metros quadrados, corresponde apenas a 32,7% do total.  

Esta poderia ser apenas uma história isolada de vegetação suprimida para dar lugar à população e ao desenvolvimento econômico. No entanto, parecidas com ela existem milhares de outras que, somadas, ofuscam o título de “Cidade Jardim”, dado a Belo Horizonte. Levantamento fornecido pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente mostra que dos mais de 33 mil hectares de área do município - o equivalente a mais de 35 mil campos de futebol -, quase 17 mil deixaram o verde de lado para ganhar toneladas de cimento. Ou seja, mais de 50% da área corresponde a construções. Neste ano, três PL's (Projetos de Lei) foram apresentados pela Câmara Municipal com o objetivo de tratar do monitoramento da vegetação e estímulo à preservação.

Os dados fornecidos pela Secretaria de Meio Ambiente mostram que os 14 mil hectares restantes são de área verde, onde estão parques públicos, canteiros, praças e até os quintais. Os tipos de vegetação são o campo plantado (formado por pasto ou gramado), cerrado e campo cerrado (arbustos esparsos). No total, a metrópole possui 781 praças e jardins, além de 73 parques, incluindo o jardim botânico e zoológico.

O Parque Municipal Américo Renê Giannetti é considerado o principal espaço verde aberto ao público da cidade. Inaugurado em 26 de setembro de 1897 - antes mesmo da nova capital -, o antigo traçado é o principal exemplo de vegetação coberta por prédios, indústrias e vias urbanas. Na época, o local fazia limites com as avenidas Afonso Pena, Mantiqueira (atual Alfredo Balena), Araguaia (atual Francisco Sales) e Tocantins (atual Assis Chateaubriand). Em 1905, o processo de perdas foi iniciado, cedendo parte da área para construções, como a Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Na década de 1930, o parque perde mais uma grande parte de sua área. Desta vez, para o Palácio das Artes, Teatro Francisco Nunes, prolongamento da Rua Pernambuco (atual Alameda Ezequiel Dias) e Cidade Universitária (nesta área encontra-se, hoje, a Fundação Hemominas, o Hospital da Previdência e o Semper). No decorrer das demais décadas, outros espaços do parque foram “engolidos” pelo crescimento da cidade. Somente em 1975, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG) realiza o tombamento de todo o conjunto paisagístico e arquitetônico do parque, que passou a proibir novas construções no local. Apaixonada pelo parque, que chama de sua primeira casa, a vendedora de sorvete Maria Augusta Miranda, 88 anos, é a mais antiga funcionária do local. Trabalhando no recanto verde há exatos 72 anos, ela conviveu com muitas destas transformações e sentiu na pele todas as perdas.

- Amo este lugar. Foi muito triste ver as mudanças. Ainda bem que hoje os responsáveis cuidam muito bem desta casa, dando mais vida ao local e satisfação para os visitantes.

O arquiteto e urbanista Carlos Teixeira narra em seu livro “História do Vazio em Belo Horizonte” todo o processo de mutilação do parque. Ele lembra que o espaço foi pensado para atender uma cidade com até 200 mil habitantes. Hoje, a capital possui mais de 2,5 milhões.

- A cidade se expandiu além do limite original. Mas as decisões tomadas foram infelizes. São heranças de governos passados que acabaram substituindo áreas verdes por edifícios. Faltou planejamento.

O atual diretor do Parque Municipal, Homero Brasil, também lamenta as perdas sofridas, mas reforça que todas foram necessárias, devido à época. Segundo ele, no ano de 1914, quando estourou a 1ª Guerra Mundial, os recursos ficaram escassos e a cidade precisou de algumas adequações.

- Nem mesmo as manutenções necessárias conseguiam ser feitas. O processo de urbanização da Região Central foi muito rápido e ruas precisaram ser criadas. Assim como os próprios hospitais, entre outras modificações. Claro, nos dias de hoje, as coisas seriam diferentes, seja por um planejamento ou até mesmo pelo clamor popular.

Três Projetos de Lei que visam proteger a vegetação da capital foram apresentados pela Câmara Municipal neste ano. As propostas tratam do monitoramento e estímulo à preservação; formação de educadores ambientais na rede de ensino; e ainda que as árvores sejam catalogadas. Os projetos tramitam na casa parlamentar e precisam de apreciação do plenário. Todas as propostas foram discutidas e apresentadas na última semana, durante seminário sobre o Plano Metropolitano da Grande Belo Horizonte Outra proposta que promete conhecer e proteger as espécies da cidade é a elaboração do inventário das árvores. Porém, esta iniciativa, está longe de sair do papel e começar de fato.

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