Cineasta mais velho do mundo lança 49º filme em Cannes

Cineasta mais velho do mundo lança 49º filme em Cannes

Atualizado: Sexta-feira, 14 Maio de 2010 as 10:22

Ano sim, ano também, o diretor português Manoel de Oliveira tem acrescentado um novo filme à sua já extensa filmografia. Tem sido assim ao menos desde 1998, um lançamento por ano - às vezes dois.

Aos 102 anos de idade, o cineasta mais importante de Portugal não só lançou seu longa mais recente em Cannes, "O estranho caso de Angélica", como viajou até a riviera francesa para participar do festival e conversar com críticos e jornalistas sobre o filme.

"Os festivais são fundamentais para o desenvolvimento do cinema em todo o mundo. Gostaria de estar em todos, mas não dá. Cannes é o mais importante da Europa e a França tem muita força para o cinema, especialmente a crítica francesa, que é sempre muito forte e influente", explicou o diretor na tarde desta quinta (13).

"O estranho caso de Angélica" conta a história de um jovem fotógrafo que ama o passado e é chamado pela família para fazer um último retrato de uma moça morta na flor da idade. Logo nos primeiros cliques, porém, Isaac, um fotógrafo sefaradita - nome dado aos judeus portugueses - acredita ter visto a defunta sorrindo para ele.

Daí em diante, o personagem, que já andava às voltas com suas próprias questões filosóficas sobre a vida, a religião e o trabalho, não consegue mais tirar Angélica da cabeça e chega a receber "visitas" do fantasma dela em seu apartamento em cenas com efeitos especiais simplórios, temperadas mais pelo humor do que pelo terror.

"A energia vem do espírito. A matéria é morta, o que anima o ser humano é a alma. Quando o espírito deixa o corpo, a pessoa morre, mas o espírito continua a viver", disse Olivera. "O espírito é algo muito feliz. Depois que ele deixa o corpo, acabam também o bem e o mal, restando só a felicidade. Mas não sabemos o que vem depois da morte. Sabemos só que tem uma porta e que podemos passar por ela, mas não sabemos o que acontece depois", completou.

Ainda que não esteja cogitando esses pensamentos para o seu próprio destino - Oliveira disse que pretende fazer um próximo filme em breve, ainda que não tenha o projeto desenhado -, o cineasta não esconde que o pano de fundo de seu filme é dos mais macabros.

"Eu já pensava em filmar essa história desde o final da Segunda Guerra. Pensei em fazer em 1946, quando Hitler matou milhares de judeus na Europa e os judeus estavam deixando Portugal para voar para os EUA, temendo o avanço alemáo", lembra.

"Assim como Isaac, os judeus do mundo ainda são perseguidos. E também os muçulmanos. A isso pensei em adicionar assuntos mais atuais como a poluição, a crise econômica, a chuva pesada que não para de cair e até inundou o Rio de Janeiro há pouco tempo. Coisas terríveis estão acontecendo. A natureza está enlouquecendo", reclama. "Achei que não ia conseguir chegar ao festival este ano por causa do vulcão. A sorte é que consegui chegar. Apesar de tudo, ainda há esperança."

Explicando que "O estranho caso de Angélica" é resultado de uma coprodução com Leon Cakoff e Renata Oliveira, realizadores da Mostra de São Paulo, o cineasta veterano aproveitou para elogiar a produção nacional.

"Acho que o Brasil é muito importante para Portugal. Por ser um país dessa extensão onde o português é a língua falada", afirmou. Para ele, tanto o cinema quanto a televisão brasileiros desenvolveram nas últimas décadas uma "personalidade verdadeiramente única". "Nós portugueses amamos as telenovelas. No cinema, há autores e diretores fantásticos no Brasil, como Nelson Pereira dos Santos, por exemplo, que conheci pessoalmente."

"O estranho caso de Angélica" teve sua estreia mundial em Cannes como parte da mostra Un Certain Regard, que, neste ano, reúne outros importantes e premiados nomes do cinema internacional como o francês Jean Luc-Godard e o chinês Jia Zhang-ke.

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