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Cinéfilos do Belas Artes se emocionam com fim do cinema

Cinéfilos do Belas Artes se emocionam com fim do cinema

Atualizado: Sexta-feira, 18 Março de 2011 as 8:10

O escritor Milton Godoi Campos, de 84 anos, caminhava devagar, apoiado no par de muletas, rumo à última sessão que assistiria às 21h20 desta quinta-feira (17), no Cine Belas Artes, em São Paulo. Em cartaz, o clássico “O Águia” (EUA, 1925), na Sala 5. Por muitos anos, essa foi a rotina do cinéfilo: passar tardes, noites e até madrugadas no cinema que, após 68 anos de existência, fechou suas portas no número 2423 da Rua da Consolação.     Questionado se era importante estar presente na derradeira noite do Belas Artes, Campos respondeu. “Ah sim. Vim me despedir dos amigos e dos funcionários. Sempre me deram muita atenção, são ótimos”, afirmou o escritor, minutos antes de entrar na sala. E todos o cumprimentam, o chamam pelo nome. “Ele veio na inauguração do cinema”, disparou a bilheteira Viviane Teles, que ajudou o cliente a chegar à sessão.

Campos tinha 16 anos na época que Belas Artes abriu. “Provavelmente vim, mas tenho 84 anos, não lembro mais.” Assim como ele, muitos frequentadores lamentaram o fechamento das portas, causado porque o dono do prédio o quer de volta. Houve diversas tentativas de renegociar o valor do aluguel, mas todas em vão.

A contadora Placídia Ferreira de Camargo, de 87 anos, também não quis deixar de ir ao cinema que tanto preencheu suas tardes de sábado. “Vim porque é a última vez. É um cinema tão antigo, fico triste em acabar. É desagradável. E tem o cafezinho, que é muito bom”, disse ela, que estava acompanhada de uma amiga e de uma prima. O filme escolhido foi “Cisne Negro”.

Na noite desta quinta, o movimento foi mais intenso do que o habitual. Gente de todas as idades. O cinema estava lotado e, além dos clientes assíduos, havia os curiosos, os que queriam estar ali uma última vez. A maioria tirava fotos, acompanhava o trabalho dos jornalistas, lamentava o fim de um dos mais tradicionais cinemas de rua que ainda resistia em São Paulo.

“É muito triste que o Belas Artes chega ao final. Moro aqui (na região) há 50 anos e venho de vez em quando. Em todas as minhas passagens pela Consolação eu tinha a oportunidade de vizualizar o cinema”, contou a aposentada Cleusa Turci Pereira, de 78 anos. A maior recordação que fica? “Gosto de toda essa convivência, tem uma distribuição de filmes agradável e dá segurança, além de ser um cinema de fácil acesso.”

A juventude também reclamou. Alguns pintaram uma lágrima no rosto, como a maquiadora Rafaela Crepaldi, de 23 anos. “É uma pena. Moro no bairro desde pequena e venho muito aqui”, afirmou a moça, que tinha garantido o ingresso para assistir à “A Doce Vida”, de Frederico Fellini.

O arquiteto Luis Pompeo, de 26 anos, comprou na quarta-feria o bilhete para o mesmo clássico. “Acho uma pena o cinema fechar. Essa é uma região da cidade muito rica em vida de rua e, aos poucos, ela vai se perdendo. É diferente do shopping.” Sobre do que mais gosta no Belas Artes, Pompeo disse: “gosto da relação da bilheteria com a rua. Eu passo de ônibus por aqui e vejo o cinema”.

Despedida em cada sessão

O dia para André Sturm, sócio-proprietário do Belas Artes, foi difícil, triste e cansativo. Ele fez questão de ir às seis salas para abrir a exibição dos filmes escolhidos na programação especial. Precisava agradecer aos clientes. “Isso de jeito nenhum é o fim. Queria agradecer e deixar todo mundo na expectativa porque vamos abrir o Belas Artes aqui ou em outro lugar.” Após fortes aplausos, deixou uma das salas.

Pouco antes, ele falou sobre a árdua batalha de conversas com Flávio Maluf para manter o cinema aberto. “Não pensei em desistir, mas foi muito desgastante. Foi duro, triste, fiquei deprimido. O tombamento deu um pique e aí me animei de novo.” O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da cidade de São Paulo (Conpresp) analisa a proposta de tombar o imóvel, o que pode fazer com que, pelo menos, as características do prédio sejam mantidas.

A noite teve até protestos. Um grupo de cinéfilos levou faixas, pedindo que o Cine Belas Artes não feche e que o espaço não vire uma loja. “Não deveriam chegar a esse ponto de fechar o cinema”, lamentou o diretor de fotografia Carlos Baliu, de 47 anos. “Frequento esse lugar desde os meus 14 anos.”

O fechar das portas

O último cliente deixou o Belas Artes à 0h15 desta sexta-feira (18). Um grupo pequeno de pessoas ainda resistia na calçada e aplaudiu quando as portas de vidro foram fechadas. "Espero do fundo do meu coração que haja uma reviravolta e o cinema não feche. Vai ficar marcado", afirmou Fulvio Giuliano, de 69 anos, um dos últimos a deixar o local.

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